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Há 20 anos, Programa estimula o desenvolvimento da caprinovinocultura no Sudoeste baiano

por Afonso Ribas

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A ausência de orientação e assistência técnica especializada é, historicamente, um dos principais problemas que comprometem a qualidade e o desenvolvimento da produção de caprinos e ovinos no Nordeste brasileiro, onde a ovinocaprinocultura é tradicionalmente caracterizada como uma atividade típica de produtores de baixa renda. Foi com o intuito de suprir essa e outras lacunas do setor no município de Vitória da Conquista que foi criado o Programa de Apoio à Caprinovinocultura do Sudoeste da Bahia (Procriar).

Há 20 anos, o Projeto Procriar fortalece a agricultura familiar, por meio do desenvolvimento da caprinovinocultura.

A história do Programa começa em 1997, e quem conta é o próprio idealizador do projeto, o professor Jurandir Ferreira da Cruz, que o coordena desde o início. “Eu tinha me submetido ao concurso para ser professor de ovinocaprinocultura do curso de Agronomia da Uesb e, a partir daí, entendi que tinha que ser feito um trabalho que fosse além da sala de aula, que tivesse a finalidade de oferecer alguma orientação técnica, algum serviço para o produtor, especialmente aquele de baixa renda e, ao mesmo tempo, que colaborasse com a formação profissional dos alunos”, relata o professor.

Ao longo dos seus 20 anos de existência, o projeto adquiriu grande credibilidade, estabelecendo parcerias importantes com órgãos como a Secretaria Estadual de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “A iniciativa do professor Jurandir em implantar o Procriar tem sido altamente vantajosa desde a sua criação e, junto ao Sebrae, obteve excelentes resultados, fortalecendo a agricultura familiar, por meio do desenvolvimento da caprinovinocultura como uma atividade sustentável e de grande tradição na região”, comentou o ex-gerente regional do Sebrae e atual secretário municipal de Trabalho, Renda e Desenvolvimento Econômico de Vitória da Conquista, Cláudio Cardoso.

Em 2006, o Procriar ganhou ainda o apoio financeiro da Secretaria de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais do Estado (Secomp), atual Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), que viabilizou não apenas a ampliação do número de famílias rurais atendidas, como também um maior alcance de suas ações. Assim, o Programa passou a atender pequenos produtores de outros municípios da região Sudoeste, disponibilizando serviços estratégicos nas áreas de alimentação, sanidade e melhoramento genético, realizados por meio da prestação de assistência técnica continuada, da capacitação das famílias para exploração sustentável dos rebanhos e da doação de reprodutores de alta qualidade genética, em consonância com a melhoria da infraestrutura das propriedades beneficiadas. Só em 2008, por exemplo, foram contabilizadas mais de 140 famílias rurais carentes atendidas pelo Procriar. “Tornamos a atividade mais sustentável para o produtor na medida em que os animais não mais morrem de fome na época da seca e nem morrem por conta de enfermidades que podem ser prevenidas com vacinação ou então vermifugação, além de fazermos o avanço genético dos rebanhos”, explica Cruz.

Desde 2007, o Procriar conta com um rebanho próprio de caprinos e ovinos, formado a partir de animais doados por produtores beneficiados pelo projeto. Dessa forma, a realização de leilões é, atualmente, a principal forma de promover o melhoramento genético de outros rebanhos da região, por meio da disponibilização de reprodutores de alta qualidade genética a preços muito acessíveis. “Aqueles produtores que não podem, de jeito nenhum, comprar um animal, a gente repassa com custo zero. Já distribuímos cerca de 100 reprodutores entre caprinos e ovinos e temos relatos de alguns produtores muito contentes ao longo dos anos com os resultados obtidos”, afirma o coordenador do Programa.

Entre esses relatos está o do criador Manuel Pereira Oliveira, que mora no povoado Poço Cumprido, zona rural de Vitória da Conquista. Ele foi um dos muitos beneficiados pelo Procriar. “Antes, os animais aqui não tinham qualidade nenhuma e hoje a produção está ótima. Meu pai mesmo vende caprinos e ovinos até pra fora. O Procriar veio e plantou uma semente. Todo mundo da comunidade, de certa forma, tem um fruto desse projeto”, conta.

Para os alunos que puderam atuar no Procriar, como o estudante do curso de Agronomia, Natan Galvão de Souza, que foi bolsista de extensão do Programa, a experiência teve grande importância na formação acadêmica. Souza afirma ainda que a sua vivência no projeto foi além: “Permitiu não somente enxergar as necessidades dos produtores rurais, mas me tornou um cidadão comprometido e capaz de intervir positivamente para mudar realidades”, declara o discente.