{"id":1177,"date":"2021-08-24T14:26:50","date_gmt":"2021-08-24T17:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=1177"},"modified":"2021-08-24T14:26:50","modified_gmt":"2021-08-24T17:26:50","slug":"mulheres-como-eva-em-tempos-como-os-nossos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=1177","title":{"rendered":"Mulheres como Eva em tempos como os nossos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Em 2021, diante de um governo autorit\u00e1rio, o Brasil enfrenta novamente os preju\u00edzos da censura cultural<\/strong><\/p>\n<p>Dos tantos personagens de uma dama do teatro e das telas, talvez o mais contundente seja o que Eva Wilma, uma das maiores atrizes brasileiras, representou nos palcos da rua. O ano era 1968, o regime militar tanto estagnava quem vivia de arte, quanto fazia a fun\u00e7\u00e3o de locomotriz dos projetos culturais de quem lutava por ela. Atrizes como Eva Wilma, T\u00f4nia Carrero, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell escolheram a luta. Na linha da frente da hist\u00f3rica &#8220;Passeata dos cem mil&#8221;, no Rio de Janeiro, as atrizes sa\u00edram de m\u00e3os dadas para o protesto. O ato ocorreu em consequ\u00eancia do assassinato do estudante Edson Luis Lima Souto, executado por militares, enquanto se manifestava contra a repress\u00e3o do governo. As artistas, enquanto usavam a influ\u00eancia para defender a cultura, faziam a voz de Edson ecoar.    <\/p>\n<p>No ano de 1997, na novela &#8220;A Indomada&#8221;, Eva deu vida \u00e0 vil\u00e3 Maria Altiva. A cena de sua morte \u00e9 uma das mais emblem\u00e1ticas da TV brasileira. A vil\u00e3, do c\u00e9u, deu adeus a todos os moradores da cidade de Greenville, que a observavam amedrontados, dizendo a frase marcante: &#8220;Eu voltarei!&#8221;. Com uma carreira marcada pelo seu posicionamento contra a censura, a artista nos d\u00e1 o adeus definitivo em 2021, vivendo e atuando ao passo em que outro governo autorit\u00e1rio exerce o seu poder. O que observamos agora tamb\u00e9m \u00e9 marcante, diante de n\u00f3s est\u00e1 o &#8220;Eu voltei!&#8221; da censura.<\/p>\n<p>Em fevereiro deste ano, a ONG Freemuse, respons\u00e1vel por analisar a liberdade art\u00edstica no mundo, destacou o Brasil em seus estudos. Segundo informes da ONG, medidas como o desmonte de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e corte de verbas para produ\u00e7\u00f5es culturais contr\u00e1rias \u00e0 ideologia do governo colocam a arte \u00e0 merc\u00ea da censura e do conservadorismo, assim como ocorreu na ditadura. <\/p>\n<p>Medidas desfavor\u00e1veis \u00e0 arte j\u00e1 eram previstas na campanha de Jair Bolsonaro, quando o mesmo alegou que artistas com grande destaque midi\u00e1tico levantavam bandeiras de quest\u00f5es sociais para &#8220;agradar o PT&#8221;. Segundo ele, os artistas dependiam da Lei Rouanett para sobreviver. Assim, o ent\u00e3o candidato se mostrava contr\u00e1rio \u00e0 verdade e ao bom senso. Ap\u00f3s o in\u00edcio de seu mandato, acompanhamos o corte de 98% da verba total destinada \u00e0 Lei Federal de Incentivo \u00e0 Cultura, a famigerada Lei Rouanett, criada para alavancar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica no pa\u00eds, concedendo isen\u00e7\u00e3o fiscal para empresas que patrocinam projetos culturais.<\/p>\n<p>Durante a ditadura militar, artistas que usavam seu trabalho como forma de protesto eram mandados para o ex\u00edlio. Hoje o ex\u00edlio \u00e9 a inviabilidade. A realidade \u00e9 distante do que a grande maioria dos asseclas de Jair Bolsonaro afirma, a lei n\u00e3o se trata de uma &#8220;mamata&#8221; dos artistas da Globo. Quem mais sofre com os impactos da falta de incentivo \u00e0 cultura \u00e9 quem menos tem capital para investir em suas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O pa\u00eds segue enfraquecido culturalmente, e com o apoio de entidades federais. O atual secret\u00e1rio especial da Cultura, M\u00e1rio Frias, avalia suas decis\u00f5es como o jeito correto de governar diante de projetos que julga serem de esquerda. De especial, o secret\u00e1rio nada possui. Observamos, ap\u00f3s dez anos, o plano anual de 2021 do Instituto Vladimir Herzog, que trabalha pelos valores da Democracia, Direitos Humanos e Liberdade de Express\u00e3o, ser rejeitado pelo governo Bolsonaro. Persegui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. O caminho \u00e9 para o desastre.<\/p>\n<p>Eva Wilma e tantos outros artistas de sua \u00e9poca usavam met\u00e1foras e eufemismos para enganar os olhos macabros da ditadura. Hoje, esses mesmos olhos est\u00e3o bem abertos. Conservadorismo e censura amea\u00e7am o pensamento cr\u00edtico, silenciando a arte. N\u00e3o \u00e9 por acaso. Uma popula\u00e7\u00e3o sem conhecimento e contato com a cultura est\u00e1 suscet\u00edvel a acreditar nas fal\u00e1cias de seus governantes. Os tempos de Eva s\u00e3o os nossos. Regredimos, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ver o fim do que teve seu in\u00edcio anunciado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2021, diante de um governo autorit\u00e1rio, o Brasil enfrenta novamente os preju\u00edzos da censura cultural Dos tantos personagens de uma dama do teatro e das telas, talvez o mais contundente seja o que Eva Wilma, uma das maiores atrizes brasileiras, representou nos palcos da rua. 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