{"id":1188,"date":"2021-08-24T14:29:23","date_gmt":"2021-08-24T17:29:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=1188"},"modified":"2021-08-24T14:29:23","modified_gmt":"2021-08-24T17:29:23","slug":"democratura-uma-ditadura-disfarcada-de-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=1188","title":{"rendered":"Democratura: uma ditadura disfar\u00e7ada de democracia"},"content":{"rendered":"<p>O termo ditabranda \u00e9 usado pelos saudosos do Regime Militar para minimizar os efeitos da Ditadura de 1964, um per\u00edodo de torturas e mortes, devido ao autoritarismo das d\u00e9cadas de 60 a 80. Surge agora uma nova express\u00e3o, ainda n\u00e3o muito veiculada, mas de grande significado, a democratura. Este termo estabelece que n\u00e3o h\u00e1 mais uma democracia em vigor, s\u00f3 que ainda n\u00e3o se efetivou, de fato, uma ditadura.<\/p>\n<p>Democratura, aparentemente, pode parecer apenas a uni\u00e3o das palavras democracia e ditadura, ou at\u00e9 mesmo uma refer\u00eancia a \u201cpovo\u201d \u2013 em demo \u2013 e \u201cescravatura\u201d contrastando com a liberdade que costuma ser tirada da sociedade pelas ditaduras. No entanto, a express\u00e3o n\u00e3o significa apenas uma singela jun\u00e7\u00e3o de palavras ou de sentidos, e sim corresponde a uma perturbadora e preocupante esp\u00e9cie de democracia simulada, na qual estamos inseridos. Isso, ao consideramos a atual conjuntura pol\u00edtico-governamental brasileira, com militares no poder, que tiveram sua ascens\u00e3o de forma democr\u00e1tica, por meio de uma elei\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Uma ditadura disfar\u00e7ada de democracia n\u00e3o \u00e9 uma desvantagem exclusiva do Brasil. Por todo o mundo, figuras pol\u00edticas autorit\u00e1rias t\u00eam ganhado relev\u00e2ncia em seus respectivos pa\u00edses gra\u00e7as \u00e0s plataformas digitais, que difundem massivamente suas ideias e falsas informa\u00e7\u00f5es que sustentam seu poder, a exemplo da Pol\u00f4nia, da Hungria e da Turquia. Nesses pa\u00edses, grandes ondas autocr\u00e1ticas t\u00eam varrido seus cen\u00e1rios pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Naturalmente, os potenciais ditadores costumam ser de ultradireita e n\u00e3o hesitam em atacar a democracia. E a prop\u00f3sito, os golpes de estado que os colocam no poder, utilizando tanques de guerra nas ruas e militares armados, j\u00e1 caiu de moda. Hoje, os golpes v\u00eam disfar\u00e7ados, s\u00e3o dados gradualmente, ou at\u00e9 mesmo utilizando as ferramentas da pr\u00f3pria democracia, como um impeachment ou uma elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A democracia vai sendo devastada de dentro para fora, e quando se percebe ela n\u00e3o existe mais. Se com os tanques e com as armas n\u00e3o era f\u00e1cil demarcar o in\u00edcio de uma ditadura, e s\u00f3 se dava conta da sua exist\u00eancia quando era imposs\u00edvel cont\u00ea-la, qui\u00e7\u00e1 de forma sutil, com o dissimulado apoio das institui\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Ainda assim, \u00e9 importante deixar bem claro que h\u00e1 algumas democraturas n\u00e3o t\u00e3o sutis. Vivemos sob uma delas. A partir do momento em que manifesta\u00e7\u00f5es organizadas, denominadas posteriormente de Jornadas de Junho de 2013, come\u00e7aram a clamar, inicialmente, por melhorias estruturais no pa\u00eds; a ir contra a continuidade do governo Dilma Rousseff; a suplicar por uma interven\u00e7\u00e3o militar e, mesmo assim, as institui\u00e7\u00f5es guardi\u00e3s da Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o barraram ataques como estes, que faziam apologia \u00e0 ruptura democr\u00e1tica e deixou-se chocar o ovo da serpente. <\/p>\n<p>Por outro lado, a m\u00eddia efetivamente apoiou a deposi\u00e7\u00e3o de um governo sem crime de responsabilidade, fazendo jus ao impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. Permitiu-se que parte da sociedade acreditasse que o caos seria solucionado a partir da a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas. Permitiu-se que as elei\u00e7\u00f5es de 2018 acontecessem em um ambiente carregado pela incerteza e pelas a\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e antidemocr\u00e1ticas de uma for\u00e7a-tarefa federal, a Lava-Jato, que sempre preferiu a pr\u00e1tica pol\u00edtica \u00e0 justi\u00e7a. Permitiu-se numa campanha eleitoral (2018), a mentira, a fuga, menosprezou-se as falas graves do candidato que estava mais propenso a ser eleito, Jair Bolsonaro, sendo elas contra liberdade, contra os direitos humanos, contra a democracia. Criou-se um monstro, um mito totalit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ficou evidente que, diante do atual governo do Presidente, Capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, Bolsonaro, e do Vice-Presidente, General do Ex\u00e9rcito, Hamilton Mour\u00e3o, recheado de minist\u00e9rios, secretarias e altos cargos comandados por atabalhoados militares, a democracia, alcan\u00e7ada com o fim da Ditadura Civil-Militar em 1985, nunca esteve realmente consolidada no imagin\u00e1rio de parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, incluindo pol\u00edticos, militares, ju\u00edzes e cidad\u00e3os comuns. <\/p>\n<p>Diante da primeira instabilidade mais grave da redemocratiza\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a eclodir fortes brados defendendo uma militariza\u00e7\u00e3o no governo. Com o objetivo de acabar com a crise que o Brasil enfrentava e que tinha sido criada justamente para este fim. Relevando, inclusive, o fato de que uma interven\u00e7\u00e3o militar poderia acarretar num novo regime ditatorial. Uma interven\u00e7\u00e3o militar, por meio da elei\u00e7\u00e3o de militares para o comando m\u00e1ximo do pa\u00eds, acarretou numa ditadura camuflada, numa democracia simulada, ou, simplesmente, numa Democratura que tem sido aceita de forma passiva pela sociedade. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O termo ditabranda \u00e9 usado pelos saudosos do Regime Militar para minimizar os efeitos da Ditadura de 1964, um per\u00edodo de torturas e mortes, devido ao autoritarismo das d\u00e9cadas de 60 a 80. Surge agora uma nova express\u00e3o, ainda n\u00e3o muito veiculada, mas de grande significado, a democratura. 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