{"id":2244,"date":"2022-10-28T15:26:29","date_gmt":"2022-10-28T18:26:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=2244"},"modified":"2022-10-28T15:26:29","modified_gmt":"2022-10-28T18:26:29","slug":"existe-deserto-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=2244","title":{"rendered":"Existe deserto no Brasil?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Por mais que a palavra deserto e o seu significado nos remetam ao solit\u00e1rio, a quest\u00e3o de sua exist\u00eancia e import\u00e2ncia simb\u00f3lica nos envolve como seres pertencentes de um mesmo nicho, a vida. A terra, para muitos, \u00e9 o ch\u00e3o de cada dia. Do sustento. Para outros n\u00e3o vai al\u00e9m do ch\u00e3o que se pisa. Ser\u00e1 que a mesma m\u00e3o que planta e que deveria cuidar \u00e9 a mesma que contribui para a destrui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEm 1994, A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) instituiu a data de 17 de junho como o Dia do Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o. Ao ouvir esse termo, talvez possa vir \u00e0 mente a imagem de um solo seco e com v\u00e1rias rachaduras. E \u00e9 isso mesmo! Por\u00e9m, esse cen\u00e1rio j\u00e1 \u00e9 a reta final de um longo processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nComo fatores de contribui\u00e7\u00e3o para essa degrada\u00e7\u00e3o, estudos apontam para uma cadeia destrutiva que inclui a a\u00e7\u00e3o humana: com altos \u00edndices de extrativismo mineral e vegetal, em sua maioria ilegal; assim como o desmatamento, queimadas, e uso intensivo e inadequado do solo para o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nTalvez por n\u00e3o ter efeitos em uma vis\u00e3o imediatista, muitos encaram essa realidade como invis\u00edvel ou distante de sua pr\u00e1tica social, mas ela impacta diretamente a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, aumenta a desigualdade social e agrava a inseguran\u00e7a alimentar, sobretudo para os mais vulner\u00e1veis que n\u00e3o ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de se adequar aos sucessivos aumentos no pre\u00e7o dos alimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA verdade \u00e9 que, atualmente, cerca de 13% do territ\u00f3rio brasileiro sofre com a desertifica\u00e7\u00e3o. O semi\u00e1rido nordestino \u00e9 uma das maiores \u00e1reas do mundo suscet\u00edveis a este fen\u00f4meno, com extens\u00e3o de 1,3 milh\u00e3o de km\u00b2 e popula\u00e7\u00e3o de 31 milh\u00f5es de pessoas. Desde 1845, oito per\u00edodos de seca foram registrados por ag\u00eancias governamentais de monitoramento dos ciclos de seca prolongada, a \u00faltima entre 2012 e 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nAs secas prolongadas s\u00e3o causadas pela escassez de chuva. Sendo o Sert\u00e3o nordestino que apresenta as menores incid\u00eancias de chuvas, isso em \u00e2mbito nacional, a problem\u00e1tica \u00e9 ainda agravada pela a\u00e7\u00e3o conjunta do homem, que afeta de forma dr\u00e1stica e direta em uma redu\u00e7\u00e3o da produtividade econ\u00f4mica, no ecossistema natural, na seguran\u00e7a alimentar e, sobretudo, na sobreviv\u00eancia da vida na Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nApesar da dificuldade em monitorar o processo de desertifica\u00e7\u00e3o durante a pandemia, existem ind\u00edcios de que o cen\u00e1rio ainda \u00e9 muito preocupante. A exemplo do n\u00facleo de Cabrob\u00f3 (PE), regi\u00e3o em que a desertifica\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou uma vasta \u00e1rea nas duas margens do S\u00e3o Francisco. Esta \u00e1rea equivale a cerca de tr\u00eas vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro! Entre as consequ\u00eancias est\u00e3o os preju\u00edzos na qualidade do solo, a morte de animais da regi\u00e3o, desequil\u00edbrio na biodiversidade local, perda de recursos h\u00eddricos, redu\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de alimentos e aumento no fluxo migrat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOs estados brasileiros mais impactados pela desertifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o Alagoas (com 32,8% de sua \u00e1rea total afetada pelo fen\u00f4meno), Para\u00edba (27,7%), Rio Grande do Norte (27,6%), Pernambuco (20,8%), Bahia (16,3%), Sergipe (14,8%), Cear\u00e1 (5,3%), Minas Gerais (2%) e Piau\u00ed (1,8%). A Caatinga ficou mais seca nos \u00faltimos 36 anos. Segundo Humberto Barbosa, o coordenador de pesquisa do IPCC (em portugu\u00eas, Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas), &#8220;A regi\u00e3o semi\u00e1rida \u00e9 a mais impactada (pela mudan\u00e7a do clima) no Brasil, e \u00e9 a regi\u00e3o onde voc\u00ea tem os \u00edndices de desenvolvimento humano mais baixos do pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA previs\u00e3o ainda \u00e9 de mais alerta e nada animadora. O IPCC afirma que essas condi\u00e7\u00f5es devem se agravar: na d\u00e9cada de 2030 o mundo deve atingir um aumento de 1,5\u00b0C em sua temperatura m\u00e9dia, em boa parte do Brasil os dias mais quentes do ano ter\u00e3o um aumento da temperatura at\u00e9 duas vezes maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nTrazendo esse quadro ainda para mais pr\u00f3ximo da nossa realidade regional, das dez cidades mais afetadas pela retra\u00e7\u00e3o do bioma, oito est\u00e3o na Bahia. S\u00e3o elas: Campo Formoso, Serra do Ramalho, Bom Jesus da Lapa, Itaberaba, Rodelas, Macurur\u00e9, Queimadas e Jeremoabo. Estudos e levantamentos por sat\u00e9lite apontam diferentes motiva\u00e7\u00f5es para este cen\u00e1rio desafiador: 10% da vegeta\u00e7\u00e3o desapareceu por causas naturais, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquecer o papel do agroneg\u00f3cio como o maior respons\u00e1vel por extinguir trechos localizados nos munic\u00edpios do Oeste do estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOs maiores prejudicados s\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es locais, que tendem a enfrentar per\u00edodos de oscila\u00e7\u00f5es na quantidade e regularidade de \u00e1gua, o que impacta gravemente a possibilidade de prosperidade econ\u00f4mica e sobreviv\u00eancia. Da mesma forma que o deserto \u00e9 esquecido, a popula\u00e7\u00e3o local e suas problem\u00e1ticas tamb\u00e9m s\u00e3o. De acordo com o G1, a \u00e1rea afetada pela desertifica\u00e7\u00e3o no Brasil concentra cerca de 85% da popula\u00e7\u00e3o mais pobre de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nPara diminuir o impacto descrito como irrevers\u00edvel por pesquisadores especializados, \u00e9 poss\u00edvel debater sobre a tem\u00e1tica em n\u00edvel local e nacional, fiscalizar implementa\u00e7\u00f5es de plantio que minimizem preju\u00edzos no solo e incentivar os n\u00facleos de pesquisa para que possam acompanhar, mapear e propor alternativas que priorizem a qualidade de vida, sobretudo, daqueles que vivem nas regi\u00f5es diretamente afetadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nIndividualmente, \u00e9 importante construir um olhar sens\u00edvel para o outro, para o espa\u00e7o compartilhado: consumir diretamente dos pequenos produtores locais, conhecer e incentivar os projetos regionais que se atentem para a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica e buscar informa\u00e7\u00e3o sobre l\u00f3gicas sustent\u00e1veis de plantio como a permacultura, que \u00e9 a cultura com objetivo de manter a estabilidade, diversidade e resili\u00eancia do ecossistema natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNa Bahia existem projetos sustent\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o aliment\u00edcia e extra\u00e7\u00e3o vegetal, \u00e0 exemplo do Sucupira Agroflorestas, Rede Bem Viver, Grupo Ambientalista da Bahia (Gamb\u00e1), Gavi\u00e3ozinho, Comunidades que Sustentam a Agricultura Familiar na Bahia (CSA Bahia), Seta Ambiental, Cooperativa Mista de produ\u00e7\u00e3o e Comercializa\u00e7\u00e3o Camponesa da Bahia (CPC-BA), Feirinha Ecoema de Vit\u00f3ria da Conquista, Feira Ponto de Encontro de Vit\u00f3ria da Conquista, entre outras iniciativas que visam diminuir o impacto negativo da produ\u00e7\u00e3o, manter o equil\u00edbrio ambiental e produzir alimentos saud\u00e1veis e de qualidade. Que tal nos unirmos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais que a palavra deserto e o seu significado nos remetam ao solit\u00e1rio, a quest\u00e3o de sua exist\u00eancia e import\u00e2ncia simb\u00f3lica nos envolve como seres pertencentes de um mesmo nicho, a vida. A terra, para muitos, \u00e9 o ch\u00e3o de cada dia. Do sustento. Para outros n\u00e3o vai al\u00e9m do ch\u00e3o que se pisa. 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