{"id":2333,"date":"2022-10-29T17:58:11","date_gmt":"2022-10-29T20:58:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=2333"},"modified":"2022-10-29T17:58:57","modified_gmt":"2022-10-29T20:58:57","slug":"as-dificuldades-enfrentadas-por-um-artista-plastico-independente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=2333","title":{"rendered":"As dificuldades enfrentadas por um artista pl\u00e1stico independente"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2335\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2335\" class=\"wp-image-2335\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/FOTO-02-DRIELE-BRAGA-E-JULIANA-REIS-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" \/><p id=\"caption-attachment-2335\" class=\"wp-caption-text\"><br \/><strong>Capim em seu ateli\u00ea localizado na Rua Q, 626A, Bairro Fel\u00edcia em Vit\u00f3ria da Conquista\/BA. Foto: Driele Braga<\/strong><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capim, como gosta de ser chamado, \u00e9 o nome art\u00edstico de Israel Lima de 26 anos, um artista pl\u00e1stico independente h\u00e1 sete anos que produz obras pautadas na ancestralidade africana. Nascido em Or\u00f3s, interior do Cear\u00e1, filho de semianalfabetos e com pouco contato com a arte, Capim se mudou para Vit\u00f3ria da Conquista na Bahia logo na inf\u00e2ncia, lugar em que vive at\u00e9 hoje. Ele traz o relato pessoal das dificuldades enfrentadas e ressalta a desvaloriza\u00e7\u00e3o da classe art\u00edstica. Seu ateli\u00ea fica localizado na rua Q, 626A, no bairro Fel\u00edcia e a principal ferramenta de exposi\u00e7\u00e3o dos seus trabalhos \u00e9 o Instagram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: De onde surgiu o interesse pela arte, em particular a pintura, e como se deu esse processo inicial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong>\u00a0O interesse pela arte \u00e9 algo que surgiu da forma mais inocente poss\u00edvel. Ser artista era o meu objetivo desde crian\u00e7a. Eu sabia que eu queria ser, s\u00f3 que eu n\u00e3o sabia o que eu iria fazer para isso. A\u00ed eu fui seguir o que pra mim era o mais f\u00e1cil, eu sempre gostei de desenhar. Eu falei, \u201c\u00c9, eu vou ter que seguir isso aqui, porque \u00e9 o que eu tenho acesso agora\u201d. Eu n\u00e3o sabia se eu ia cantar, se eu ia pintar tela, se eu ia interpretar&#8230; Eu queria ser um artista e segui esse caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como foi o processo de encontrar sua pr\u00f3pria est\u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong>\u00a0A est\u00e9tica do trabalho foi algo pensado desde o in\u00edcio, porque, como sou autodidata, eu comecei sem t\u00e9cnica alguma e sem ter muitas condi\u00e7\u00f5es pra isso. Ent\u00e3o eu sempre costumo dizer que foi muito baseada naquilo que eu n\u00e3o sabia fazer. Ent\u00e3o eu comecei a descartar as coisas que n\u00e3o teriam na minha pintura. Se eu n\u00e3o sei fazer um rosto, a est\u00e9tica das minhas pinturas vai ser sem rosto. N\u00e3o sei fazer um dedo, ent\u00e3o n\u00e3o vai ter dedo. Aprendendo sozinho, nessa inoc\u00eancia toda, era mais pr\u00e1tico me basear naquilo que eu sabia, porque a\u00ed a est\u00e9tica iria suprir essa falta de t\u00e9cnica. Muito para al\u00e9m de eu estar sendo autodidata, era um autodidata solit\u00e1rio. Eu estava aprendendo sozinho, literalmente sozinho. Ent\u00e3o por isso que eu falo que a minha vontade de ser artista, \u00e9 algo bem na inoc\u00eancia mesmo. Eu s\u00f3 queria ser porque eu via e queria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Em meio \u00e0 dificuldade voc\u00ea encontrou seu jeito pr\u00f3prio&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong> Sim, porque eu queria muito come\u00e7ar logo. Desde quando eu comecei a pintar, j\u00e1 fui pintando os orix\u00e1s. A est\u00e9tica do meu trabalho, tudo foi pensado nisso que eu j\u00e1 fa\u00e7o hoje. Eu queria uma est\u00e9tica que fosse algo s\u00f3 meu. A minha t\u00e9cnica \u00e9 a minha assinatura, entende? A minha marca \u00e9 a est\u00e9tica do meu trabalho. Quem conhece meu trabalho de forma mais profunda, quem me acompanha, se ver um trabalho meu em qualquer lugar, vai conseguir identificar que \u00e9 meu, mesmo se n\u00e3o tiver uma assinatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Quais foram as dificuldades que voc\u00ea encontrou nesse est\u00e1gio inicial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong> As dificuldades de in\u00edcio s\u00e3o as que v\u00e3o permanecer acho que pro resto da vida de um artista, que \u00e9 a financeira. Eu, \u201cpobre Alice\u201d, entrei nesse meio sem estar inserido. Filho de pessoas pobres do interior do Cear\u00e1, de uma fam\u00edlia toda de semianalfabetos, eu n\u00e3o tinha esse acesso. N\u00e3o tem pinturas na minha casa, a n\u00e3o ser as minhas que eu pinto hoje. Meus pais n\u00e3o sabem ler e escrever direito. Eu n\u00e3o tinha acesso a tantos livros, ent\u00e3o acho que a minha dificuldade em particular no in\u00edcio foi n\u00e3o ter por onde come\u00e7ar. Eu sempre lembro da minha primeira tela com um peda\u00e7o de madeira que eu peguei na rua pra poder levar para casa e pintar porque eu n\u00e3o tinha dinheiro para comprar uma tela. Ent\u00e3o a minha dificuldade no in\u00edcio foi esse come\u00e7o sem investimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: E agora, voc\u00ea acredita que a internet seja uma aliada para a divulga\u00e7\u00e3o dos seus trabalhos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong> Com certeza. Desde o in\u00edcio eu tive o Instagram como principal plataforma de trabalho, \u00e9 como as pessoas do mundo todo podem chegar at\u00e9 mim. E \u00e9 at\u00e9 por essa falta de ter espa\u00e7os. A minha primeira exposi\u00e7\u00e3o foi no meu Instagram, antes de qualquer sarau que tivesse aqui na cidade para eu levar minhas telas. Eu sempre usei das redes sociais para poder mostrar meu trabalho para as pessoas, j\u00e1 que eu tinha essa dificuldade. Muito para al\u00e9m de n\u00e3o ser uma pessoa t\u00e3o bem soci\u00e1vel assim, da timidez, etc., ainda tinha a quest\u00e3o da falta de espa\u00e7o e do conv\u00edvio com outros artistas. Ent\u00e3o o que eu podia fazer por mim mesmo era ir atr\u00e1s da minha pr\u00f3pria plataforma, que s\u00e3o as redes sociais. 100% a minha aliada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: O que \u00e9 mais dif\u00edcil para voc\u00ea vivendo no interior baiano, no ber\u00e7o da ancestralidade africana, onde a arte ainda \u00e9 pouco valorizada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong> Eu acho que \u00e9 a falta de acesso a material. Um material importado, por exemplo, que \u00e0s vezes nem \u00e9 t\u00e3o caro, mas quando chega aqui no Brasil chega primeiro nas grandes capitais, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, e quando vem para o Nordeste chega muito mais caro. A\u00ed tem que pagar frete tamb\u00e9m. Aqui em Vit\u00f3ria da Conquista, especificamente, n\u00e3o existe uma loja de material art\u00edstico. Eu me viro aqui com papelaria, material escolar e compras na internet. Ent\u00e3o uma dificuldade enorme \u00e9 o acesso a bons materiais profissionais de pintura, porque o que eu uso n\u00e3o \u00e9 o mesmo que uma crian\u00e7a que est\u00e1 indo pra escola usa. \u00c9 tamb\u00e9m acesso a lugares para voc\u00ea levar o seu trabalho. Aqui em Conquista n\u00e3o tem um lugar espec\u00edfico. Aqui tem muito artista, mas est\u00e3o todos escondidos, cada um na sua toca, porque, pra onde que vai levar seu trabalho? N\u00e3o tem. E quando tem, s\u00f3 quem sabe \u00e9 um grupo determinado de pessoas. Acontece que s\u00e3o sempre os mesmos, nunca tem espa\u00e7o para artistas iniciantes como eu. Independentes, pequenos, jovens&#8230; Infelizmente o pr\u00f3prio lugar onde a gente vive nos empurra para fora. Minha ideia \u00e9 construir a minha hist\u00f3ria aqui na Bahia, s\u00f3 que, \u00e0s vezes, me sinto empurrado pra fora. Vit\u00f3ria da Conquista n\u00e3o \u00e9 um lar para artistas. O Nordeste em si, at\u00e9 se for em capital. Temos \u00f3timos artistas aqui, eu estou aqui. Eu estou vivendo de arte, mas eu vivo de arte aqui levando meus trabalhos pra fora, pra S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e, atualmente, at\u00e9 pra fora do pa\u00eds, como Austr\u00e1lia, Su\u00ed\u00e7a e EUA. Mas n\u00e3o roda aqui na Bahia. Voc\u00ea tem que estar levando pra fora e dependendo dessas pessoas de fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: E como voc\u00ea lida com a imprevisibilidade da vida de artista independente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capim:<\/strong> Eu lido n\u00e3o lidando. Estou muito acostumado a ter uma alta demanda de trabalho. Meu trabalho \u00e9 muito de decora\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma arte muito visual. Ent\u00e3o eu trabalho com muita encomenda, pinto para vender. \u00c0s vezes eu tenho essas demandas que me fazem passar um m\u00eas inteiro desesperado para poder dar conta dos trabalhos, dos prazos, pra poder entregar. N\u00e3o consigo viver minha vida, mas consigo me manter, me organizar. E acontece, \u00e0s vezes, do nada, voc\u00ea se v\u00ea passando um m\u00eas sem vender nada, dois meses, tr\u00eas meses. Eu lido com isso sabendo mexer com dinheiro, sendo uma pessoa organizada. J\u00e1 passei cinco, seis meses sem vender um trabalho, mas eu consegui me manter porque me organizei pra isso. \u00c9 entender que voc\u00ea n\u00e3o tem uma profiss\u00e3o comum, n\u00e3o \u00e9 um aut\u00f4nomo comum. Voc\u00ea \u00e9 um artista, est\u00e1 vivendo de arte e tudo pode acontecer. A arte n\u00e3o caminha junto com o dinheiro, mas infelizmente eu preciso de dinheiro para poder estar vivendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Capim, como gosta de ser chamado, \u00e9 o nome art\u00edstico de Israel Lima de 26 anos, um artista pl\u00e1stico independente h\u00e1 sete anos que produz obras pautadas na ancestralidade africana. 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