{"id":2338,"date":"2022-10-29T18:08:16","date_gmt":"2022-10-29T21:08:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=2338"},"modified":"2022-10-29T18:08:59","modified_gmt":"2022-10-29T21:08:59","slug":"artistas-de-rua-os-hippies-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=2338","title":{"rendered":"Artistas de rua, os &#8220;hippies&#8221; brasileiros"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2339\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2339\" class=\"wp-image-2339\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/FOTO-02-CLARA-NUNES-E-LUI\u0301ZA-BATISTA--1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"780\" height=\"585\" \/><p id=\"caption-attachment-2339\" class=\"wp-caption-text\"><br \/><strong>Artista de rua, Rafael Cordeiro, exibindo algumas das suas cria\u00e7\u00f5es na pra\u00e7a 9 de Novembro, Vit\u00f3ria da Conquista-Bahia. Foto: Lu\u00edza Batista<\/strong><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta entrevista realizada com Rafael Cordeiro, 35 anos, formado em gastronomia e que atua como artes\u00e3o h\u00e1 15 anos, busca desconstruir os estere\u00f3tipos criados na sociedade sobre os &#8220;hippies&#8221; brasileiros e esclarecer o movimento dos artistas de rua. Neste bate-papo, vamos entender melhor esse estilo de vida, sua rela\u00e7\u00e3o com a arte e resist\u00eancia, al\u00e9m dos problemas enfrentados pelos adeptos desse movimento, por meio de relatos do nosso entrevistado sobre suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Na nossa sociedade \u00e9 muito comum as pessoas associarem voc\u00eas aos hippies. O tema que escolhemos foi a desconstru\u00e7\u00e3o desse estere\u00f3tipo que as pessoas criam. Rafael, por que essa denomina\u00e7\u00e3o \u00e9 incorreta? Por que voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o hippies?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> O movimento hippie foi contra a Guerra do Vietn\u00e3, na \u00e9poca era a sociedade mais rica, era os filhos de burgu\u00eas (sic). O movimento &#8220;paz e amor&#8221;. O artesanato come\u00e7ou nos anos 60 tamb\u00e9m, s\u00f3 que tem essa diferen\u00e7a, a Malucada \u00e9 do movimento &#8220;viver do que voc\u00ea faz&#8221;. Era uma galera [os hippies] que n\u00e3o fazia arte nenhuma, eles eram s\u00f3 um movimento contra a Guerra e acabou que a gente adquiriu esse apelido &#8220;hippie&#8221; por causa das vestimentas meio parecidas, dread, barba grande. Na verdade, a gente \u00e9 artista de rua. E a gente \u00e9 considerado Maluco de BR, porque n\u00e3o tem par\u00e2metro. Est\u00e1 aqui nessa cidade, vai pra outra, sempre procurando mat\u00e9ria para poder criar arte e conhecendo os lugares que a gente passa. E os hippies da \u00e9poca n\u00e3o viajava, n\u00e3o fazia artesanato, nem nada (sic). Era outra hist\u00f3ria. Mas acabou esse apelido ficando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Voc\u00ea tem uma forma\u00e7\u00e3o profissional, em gastronomia, e j\u00e1 atuou em um trabalho convencional. Quais foram as suas motiva\u00e7\u00f5es para escolher n\u00e3o apenas esse novo formato de trabalho, mas tamb\u00e9m esse estilo de vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> A liberdade, de poder ir e vir. Eu sou um Maluco de BR, um artes\u00e3o, eu posso me locomover a hora que eu quero, conheci v\u00e1rios lugares. E ser o meu pr\u00f3prio patr\u00e3o, fazer o que gosto. N\u00e3o que a culin\u00e1ria n\u00e3o seja uma coisa que eu gosto, mas \u00e9 legal voc\u00ea desenvolver a sua arte. Voc\u00ea viver da sua pr\u00f3pria arte, tentando se afastar um pouco desse sistema capitalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: O movimento hippie, em 1970, teve uma atua\u00e7\u00e3o de contracultura. Atualmente, ao se liberar dessas limita\u00e7\u00f5es sociais, seu estilo de vida representa uma forma de resist\u00eancia tamb\u00e9m. Sendo assim, qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> A pol\u00edtica, para mim, n\u00e3o influencia em nada. Eu nem sou muito chegado em pol\u00edtica. Meu estilo de vida \u00e9 meio anarquista, sem p\u00e1tria, sem padr\u00e3o e sem patr\u00e3o. Pra mim, hoje em dia a pol\u00edtica virou um palco de stand up, voc\u00ea vai assistir um debate, voc\u00ea at\u00e9 ri. \u00c9 s\u00f3 poder querendo assumir poder e o povo na mesmice. \u00c9 muito f\u00e1cil fazer uma propaganda eleitoral com a crian\u00e7a sorrindo, fam\u00edlia sorrindo e nem se importar depois que desliga a c\u00e2mera. Mas ningu\u00e9m tem coragem de ir na periferia, onde a pessoa n\u00e3o tem um banheiro decente pra fazer as necessidades b\u00e1sicas do dia a dia ou dar um banho numa crian\u00e7a. Isso a\u00ed eles n\u00e3o mostra (sic), para mim isso \u00e9 uma vergonha &#8220;mano&#8221;, porque a realidade \u00e9 outra. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o perco tempo com isso, l\u00f3gico que a gente tem que fazer revolu\u00e7\u00e3o, mudar. Mas, infelizmente o sistema \u00e9 mau, se voc\u00ea tentar fazer alguma coisa, eles te boicota (sic). Eu penso que a pol\u00edtica n\u00e3o vale de nada, s\u00f3 pra roubar e tapear o povo. Vai iludindo quem n\u00e3o tem estrutura de sabedoria, \u00e9 carente de cultura e carente de escolaridade. A\u00ed eles pegam essa massa, que \u00e9 a maioria da popula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o tem conhecimento, e usam essas pessoas para manipular, em troca de mixaria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Nos chamou muita aten\u00e7\u00e3o sua tatuagem, est\u00e1 escrito &#8220;resist\u00eancia&#8221;. Qual \u00e9 o significado que essa palavra tem para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> Resist\u00eancia, porque a gente exp\u00f5e no ch\u00e3o, na rua e muita gente tem preconceito, acha que a gente \u00e9 vagabundo, acha que a gente \u00e9 drogado, alco\u00f3latra, mas na verdade tem muita fam\u00edlia que vive da arte, cria seus filhos com ela. E a resist\u00eancia \u00e9 seguir a\u00ed, n\u00e3o depender muito do sistema, fazer nossa arte com nossas pr\u00f3prias m\u00e3os. N\u00e3o pensar em comprar nada industrializado. A resist\u00eancia \u00e9 viver do que voc\u00ea ganha, &#8220;t\u00e1 ligado?&#8221; (sic) Pouco ou muito, mas sem depender de ningu\u00e9m. Depender mesmo da arte que a gente faz. Atrav\u00e9s da minha arte eu viajei o Brasil por volta de mais de dez anos, j\u00e1 conheci tr\u00eas pa\u00edses diferentes, tudo com artesanato e tudo na resist\u00eancia. N\u00f3s veste diferente, tem uns que tem dread, tatuagem no rosto e por isso a maioria da sociedade fica meio que chocada. Mas na verdade, \u00e9 s\u00f3 um estilo de vida. Ent\u00e3o a gente t\u00e1 a\u00ed pra sobreviver. Porque rico, quem fica \u00e9 pol\u00edtico, e n\u00f3s t\u00e1 a\u00ed, n\u00f3s \u00e9 trabalhador igual ao outro (sic), porque a gente paga imposto. S\u00f3 que a diferen\u00e7a \u00e9 que eu trabalho pra mim mesmo. E \u00e0s vezes as pessoas ficam indignadas, j\u00e1 que n\u00e3o tem coragem de fazer o mesmo. E a gente tem essa coragem de botar a cara a tapa na rua, sol e chuva n\u00f3s est\u00e1 a\u00ed, sobrevivendo 100% da arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Voc\u00ea falou bastante da sua arte, nossa pergunta \u00e9, se al\u00e9m de ser seu trabalho, sua fonte de renda, a arte tem algum outro significado especial para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> Arte para mim \u00e9 vida. Arte salva vida. Arte para mim \u00e9 tudo. Quando eu fa\u00e7o uma pe\u00e7a eu fico admirando ela por um temp\u00e3o, &#8220;Caralho, eu que fiz&#8221;. \u00c9 melhor do que eu chegar num bar e tomar uma cerveja. Pra mim, ver uma arte que eu fiz com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os me d\u00e1 um prazer inexplic\u00e1vel. Uma pessoa admirar, comprar sua pe\u00e7a por satisfa\u00e7\u00e3o e usar, para mim, isso no artesanato \u00e9 encantador. \u00c9 um talento do Criador. O Criador d\u00e1 talento pra todo mundo, igual a voc\u00eas a\u00ed. O jornalismo \u00e9 um talento tamb\u00e9m, \u00e9 satisfat\u00f3rio voc\u00eas fazerem uma entrevista, d\u00e1 uma alegria imensa. A mesma coisa pra gente que mexe com artesanato. A gente est\u00e1 sentado no ch\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 um qualquer. Pra mim, \u00e9 um prazer fazer arte, ainda mais quando as pessoas gostam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Esse movimento vai contra as regras estabelecidas pelo sistema. Quais s\u00e3o as dificuldades enfrentadas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia por parte de institui\u00e7\u00f5es, como a pol\u00edcia, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> Artista de rua tem direito de expor em qualquer pra\u00e7a, de qualquer cidade do pa\u00eds. A gente cria nossos trabalhos, sai do nosso cora\u00e7\u00e3o e da cabe\u00e7a. Tem lugar que a autoridade chega e fala que a gente n\u00e3o pode expor porque a gente n\u00e3o paga imposto. Imposto a gente paga at\u00e9 numa bala que a gente compra. Mas eles n\u00e3o consideram como cultura, e na maioria das vezes eles j\u00e1 chega (sic) quebrando tudo, prendendo, batendo, usando a viol\u00eancia quando a pessoa s\u00f3 t\u00e1 ali no ch\u00e3o trabalhando, fazendo artesanato, e eles confunde isso (sic). Os guardas municipais e a pol\u00edcia j\u00e1 chega agredindo todo mundo (sic), sem perguntar nada, de onde veio, pra onde vai, se tem fam\u00edlia ou crian\u00e7a. A gente sofre muito com isso, n\u00e3o em todo lugar, n\u00e9? Mas na maioria das cidades, ainda mais se for tur\u00edstica. &#8220;O bagulho \u00e9 doido&#8221;. (sic)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Para finalizar, nossa \u00faltima pergunta. Para muitos, alcan\u00e7ar a liberdade \u00e9 tamb\u00e9m alcan\u00e7ar a felicidade, voc\u00ea se sente feliz depois de ter mudado para esse novo modo de viver?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Cordeiro:<\/strong> Com certeza. Tudo na vida tem os momentos ruins e os momentos bons, desde trabalho, relacionamento, familiares e amigos. Mas, para mim, o artesanato \u00e9 tudo. Tem por volta de 15 anos que eu mexo com artesanato, e para mim \u00e9 tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Esta entrevista realizada com Rafael Cordeiro, 35 anos, formado em gastronomia e que atua como artes\u00e3o h\u00e1 15 anos, busca desconstruir os estere\u00f3tipos criados na sociedade sobre os &#8220;hippies&#8221; brasileiros e esclarecer o movimento dos artistas de rua. 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