{"id":262,"date":"2018-09-26T09:09:15","date_gmt":"2018-09-26T12:09:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=262"},"modified":"2018-09-26T09:09:15","modified_gmt":"2018-09-26T12:09:15","slug":"economizamos-demais-e-notamos-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=262","title":{"rendered":"Economizamos demais e notamos isso"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 percept\u00edvel que, no mundo pol\u00edtico, a participa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 pequena. Historicamente \u00e9 percept\u00edvel a domina\u00e7\u00e3o masculina que estava diretamente presente nas decis\u00f5es pol\u00edticas, enquanto as mulheres nem mesmo tinham suas opini\u00f5es consideradas. As lutas femininas fizeram com que houvesse uma mudan\u00e7a nesse quadro com a conquista do direito ao voto e, mais tarde, com a participa\u00e7\u00e3o ativa na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Com intuito de amenizar a desigualdade de g\u00eaneros na pol\u00edtica brasileira, em 1995 a Lei 9.100\/95 determinou a reserva de uma cota m\u00ednima de 20% de vagas para mulheres nos partidos pol\u00edticos. Assim, os partidos s\u00e3o obrigados por Lei a abrirem espa\u00e7o para mais mulheres participarem da politica no Brasil. Essa Lei foi um meio para come\u00e7ar a amenizar o d\u00e9ficit de representatividade feminina na pol\u00edtica. Se pensarmos que essa Lei 9.100\/95 foi criada para diminuir a isonomia podemos questionar: por que apenas 20%? E por que foi preciso uma lei para que houvesse participa\u00e7\u00e3o das mulheres nos partidos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Na nossa constru\u00e7\u00e3o social\/cultural n\u00e3o \u00e9 comum nossas jovens sendo incentivadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Somos estimuladas a cuidar da casa, sermos boas m\u00e3es, boas esposas. Que encaremos a verdade, ainda vivemos em uma sociedade em que o machismo e o patriarcado predominam, e quem recebe incentivo, aux\u00edlio e credibilidade para participar da pol\u00edtica \u00e9 o homem. E se for para seguir em obviedades, na atual situa\u00e7\u00e3o do Brasil, quem participa mais ativamente na tomada de decis\u00f5es \u00e9 o homem branco, de classe m\u00e9dia alta, movido por impulsos religiosos (de boa f\u00e9), o famigerado \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d.<\/p>\n<p>Mulheres, m\u00e3es, donas de casa, estudantes, trabalhadoras. A rotina feminina \u00e9 completamente diferente, \u00e9 uma rotina sem pausas. Quando estas aparecem, o cansa\u00e7o bate \u00e0 porta. Sem encontrar apoio, pois incentivadas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o, dificilmente querer\u00e3o ter uma participa\u00e7\u00e3o mais ativa na pol\u00edtica. Vejam bem, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lidar com um ambiente onde \u00e9 vis\u00edvel que quando uma mulher fala em meio a tantos outros pol\u00edticos homens ela \u00e9 interrompida constantemente (pr\u00e1tica conhecida pelo termo em ingl\u00eas <em>manterrupting<\/em>), ou suas causas n\u00e3o s\u00e3o levadas a s\u00e9rio. Afinal, mulher fazendo pol\u00edtica, defendendo uma pauta? \u201cQUE PALHA\u00c7ADA!!\u201d. A famosa \u201chisteria\u201d feminina \u00e9 bem falada, n\u00e3o? Ou o \u201cmimimi feminista\u201d, que \u00e9 colocado por alguns pol\u00edticos que fazem quest\u00e3o de exporem esses pensamentos de desprezo, ainda mais quando uma mulher fala.<\/p>\n<p>Se voltarmos um pouco ao passado, veremos que as pequenas conquistas das mulheres foram realizadas por meio de luta. O movimento sufragista, por exemplo, teve in\u00edcio em meados do s\u00e9culo XIX e ganhou for\u00e7a no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, em que mulheres lutavam para conseguirem o direito ao voto. Nos EUA, as mulheres puderam votar a partir de 1919. J\u00e1 no Brasil, esse direito foi conquistado em 1932 e consolidado em 1934. Ainda assim, inicialmente, com condi\u00e7\u00f5es impostas para a participa\u00e7\u00e3o no voto, como ser casada, ter aprova\u00e7\u00e3o do marido e ter renda pr\u00f3pria. Foi preciso reivindica\u00e7\u00f5es para as mulheres terem direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao voto, \u00e0 participa\u00e7\u00f5es mais ativas na sociedade e na pol\u00edtica. Afinal, vivemos em uma democracia e \u00e9 sobre igualdade que falamos, mas para as mulheres a igualdade n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tica! \u00c9 uma conquista por meio de luta.<\/p>\n<p>Por meio de lutas conquistamos os poucos direitos que temos hoje. E apesar de tantos anos de evolu\u00e7\u00e3o, de demonstra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a feminina e, sendo redundante, de lutas, podemos ver que a desigualdade persiste, o preconceito persiste. Temos como exemplo a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), atualizada no dia 8 de junho de 2018, que mostra dados desiguais entre os g\u00eaneros, tais como, horas dedicadas a afazeres dom\u00e9sticos, educa\u00e7\u00e3o e rendimento. Enquanto os homens ocupam 60,9% dos cargos gerenciais, as mulheres ocupam 39,1%. Em rela\u00e7\u00e3o ao rendimento habitual m\u00e9dio mensal de todos os trabalhos, as mulheres ganham em m\u00e9dia R$ 1.764, enquanto os homens, R$ 2.306. A desigualdade salarial ainda \u00e9 muito alta, as pesquisas variam, mas os \u00edndices n\u00e3o mudam e deixam a desejar em quest\u00e3o de paridade.<\/p>\n<p>As cotas partid\u00e1rias sofreram algumas altera\u00e7\u00f5es com os anos. A Lei N\u00b0 9.504\/97, no Art 10, \u00a7 3\u00b0, diz que \u201cDo n\u00famero de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coliga\u00e7\u00e3o preencher\u00e1 o m\u00ednimo de 30% (trinta por cento) e o m\u00e1ximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo\u201d, sendo uma mudan\u00e7a na Lei N\u00ba 9.100\/95. As cotas abrem discuss\u00f5es entre as mulheres. \u00c9 um meio de amenizar o d\u00e9ficit de representatividade, como eu disse, mas at\u00e9 que ponto os partidos investem em campanhas para candidatas? Esse \u00e9 um ponto ressaltado por aquelas que disputam os cargos pol\u00edticos, de que as verbas destinadas \u00e0s campanhas partid\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddas de forma igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pela cota existir que ela \u00e9 preenchida, ainda h\u00e1 o fator de que o desinteresse feminino e a falta de incentivo persistem. E at\u00e9 que ponto, as candidatas apoiadas, querem de fato estar em um cargo pol\u00edtico? Muitos partidos simplesmente, para preencherem a cota, apoiam mulheres que n\u00e3o est\u00e3o familiarizadas com o meio. Podemos ressaltar que essa cota visa a \u201cigualdade\u201d, mas de forma que as mulheres possam ocupar cargos que elas almejam e n\u00e3o para bater metas. Volto a tocar no ponto do incentivo. Se forem incentivadas a participarem da pol\u00edtica, a se engajarem em causas sociais, a estudarem, e sa\u00edrem dessa cria\u00e7\u00e3o patriarcal, possivelmente os \u00edndices mudariam.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de ressaltar que s\u00f3 o incentivo para as mulheres n\u00e3o mudaria o fato de o preconceito existir, de o machismo persistir. A constru\u00e7\u00e3o da nossa sociedade, passada de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, reproduz o discurso machista de que o lugar da mulher \u00e9 cuidando da casa e dos filhos, e que o do homem \u00e9 trabalhando e alimentando a fam\u00edlia. A reprodu\u00e7\u00e3o desse discurso faz com que crian\u00e7as cres\u00e7am agindo como se fosse algo normal e certo, e admirando seus av\u00f4s e seus pais que reproduzem o discurso machista. \u00c9 v\u00e1lido ressaltar que o que realmente importa \u00e9 a mulher ter autonomia sobre suas escolhas. Casar ou n\u00e3o, ter filhos ou n\u00e3o, trabalhar ou ficar em casa cuidando dos filhos. Escolhas que dizem respeito a elas e que n\u00e3o devem ser impostas por terceiros.<\/p>\n<p>Se a forma como a constru\u00e7\u00e3o social\/cultural estivesse adequada com todo esse hist\u00f3rico de lutas, n\u00e3o seria de se estranhar mulheres com o mesmo sal\u00e1rio de um homem com o mesmo cargo, ou mulheres em seus cargos pol\u00edticos defendendo suas causas sociais, suas pautas. S\u00e3o essas quest\u00f5es que fazem refletir a vergonhosa posi\u00e7\u00e3o do Brasil no ranking mundial da participa\u00e7\u00e3o feminina na pol\u00edtica. O pa\u00eds ocupa a 152\u00aa posi\u00e7\u00e3o, entre 190 na\u00e7\u00f5es pesquisadas, pelos dados divulgados pelo IBGE. O nosso pa\u00eds cada vez mais retrocede. Retrocesso esse, que deveria ser inexistente.<\/p>\n<p>\u201cQuem tudo economiza tem tudo que precisa. N\u00e3o estou sendo desperdi\u00e7ada. Por que ainda preciso?\u201d Margaret Atwood escreveu esse trecho no seu <em>best beller<\/em> O Conto Da Aia, que me fez refletir: as mulheres passaram um longo tempo sendo marginalizadas e, de certa forma, \u201ceconomizando\u201d suas vozes, n\u00e3o \u00e0s desperdi\u00e7ando, se contendo. Ent\u00e3o por que precisaram ir \u00e0 luta para conseguirem direitos igualit\u00e1rios? Por que a necessidade do voto? O querer ter direito sobre seus corpos? R E C O N H E C I M E N T O do seu trabalho, da sua capacidade intelectual, dos seus diplomas terem valor? Porque economizamos demais, e notamos isso!<\/p>\n<p>E porque se fez not\u00f3ria essa economia que a luta pelas nossas causas se tornaram perigosas. Pois se persistimos com a busca da igualdade de g\u00eaneros, do nosso lugar ser onde quisermos, a hist\u00f3ria mudar\u00e1 mais. Mudan\u00e7as assustam. Mas todas essas hist\u00f3rias de lutas devem nos impulsionar a correr atr\u00e1s de nossos objetivos, sem fazermos distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. A persist\u00eancia pela igualdade de direitos, de deveres e aten\u00e7\u00e3o \u00e0s causas, que s\u00e3o de grande signific\u00e2ncia devem continuar. N\u00f3s mulheres n\u00e3o podemos deixar de lutar pelos nossos direitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 percept\u00edvel que, no mundo pol\u00edtico, a participa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 pequena. Historicamente \u00e9 percept\u00edvel a domina\u00e7\u00e3o masculina que estava diretamente presente nas decis\u00f5es pol\u00edticas, enquanto as mulheres nem mesmo tinham suas opini\u00f5es consideradas. As lutas femininas fizeram com que houvesse uma mudan\u00e7a nesse quadro com a conquista do direito ao voto e, mais tarde, com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":123459,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[144,143,145,142,141,92],"class_list":["post-262","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-desigualdade-de-genero","tag-feminismo","tag-machismo","tag-mulheres","tag-politica","tag-sexismo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/123459"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=262"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":264,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions\/264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}