{"id":321,"date":"2018-09-26T10:12:49","date_gmt":"2018-09-26T13:12:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=321"},"modified":"2018-09-26T10:33:55","modified_gmt":"2018-09-26T13:33:55","slug":"ideias-sao-a-prova-de-balas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=321","title":{"rendered":"Ideias s\u00e3o \u00e0 prova de balas"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos em um pa\u00eds democr\u00e1tico, onde as pessoas t\u00eam o direito e o dever de eleger os pr\u00f3prios governantes por meio de elei\u00e7\u00f5es universais. Foi assim, atrav\u00e9s do voto de 46.502 cidad\u00e3os, que Marielle Franco assumiu o cargo de vereadora do Rio de Janeiro-RJ. Mas qual a mensagem passada para a popula\u00e7\u00e3o brasileira quando uma vereadora eleita democraticamente \u00e9 brutalmente assassinada no caminho para casa?<\/p>\n<p>O assassinato de Marielle foi um ato pol\u00edtico. As pessoas que encomendaram a morte da vereadora queriam calar a mulher forte que lutava para proteger e exaltar aqueles que foram silenciados durante toda a hist\u00f3ria do Brasil. Negros, mulheres, pobres e homossexuais s\u00e3o minorias pouco representadas no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro e que, al\u00e9m disso, t\u00eam seus direitos negados diariamente. S\u00e3o minorias n\u00e3o no sentido quantitativo, mas no sentido de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de aus\u00eancia de voz ativa na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Marielle Franco fazia parte dessas minorias e lutava por elas. Marielle era mulher, negra, bissexual e criada na periferia. A despeito das dificuldades, ela conseguiu concluir uma gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia e um mestrado em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, ser eleita vereadora do Rio como a quinta mais votada e colocar na c\u00e2mara de vereadores da segunda maior cidade do pa\u00eds a voz de todos os grupos vulner\u00e1veis que ela representava. Por\u00e9m, a luta de Marielle foi interrompida por quatro tiros na madrugada do dia 14 de mar\u00e7o de 2018.<\/p>\n<p>Marielle Franco era a \u00fanica mulher negra na c\u00e2mara legislativa do Rio de Janeiro e, dentre os 55 assentos, apenas seis s\u00e3o ocupados por outras mulheres. O atentado \u00e0 vida da vereadora \u00e9 tamb\u00e9m um atentado contra a participa\u00e7\u00e3o feminina e negra na pol\u00edtica brasileira. Al\u00e9m disso, a legisladora, que era cria da favela da Mar\u00e9, lutava pelo direito \u00e0 dignidade daqueles que vivem nas periferias da capital carioca e denunciava com veem\u00eancia os crimes cometidos contra os favelados por policiais que abusam do poder.<\/p>\n<p>O que o assassinato de Marielle nos diz sobre a pol\u00edtica brasileira? Nos diz que, em nosso pa\u00eds, quando se luta em prol dos direitos humanos, em prol da igualdade, por menos viol\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o, tentar\u00e3o lhe calar. Tentar\u00e3o lhe calar mesmo antes de voc\u00ea descobrir que tem voz, mesmo antes de voc\u00ea achar que chegar\u00e1 a um lugar de visibilidade. V\u00e3o calar aqueles que conseguiram chegar nesse lugar, como Marielle Franco, para que voc\u00ea ache que \u00e9 in\u00fatil at\u00e9 mesmo tentar, para que voc\u00ea ache que \u00e9 in\u00fatil lutar pelos seus direitos.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o podemos nos acovardar diante de amea\u00e7as, achar que nossa voz nunca ser\u00e1 ouvida, achar que a mudan\u00e7a \u00e9 imposs\u00edvel. Mudan\u00e7as n\u00e3o acontecem sozinhas, acontecem porque aqueles que se incomodam com os modelos impostos lutam por elas. Marielle lutava por mudan\u00e7as, e temos que nos lembrar dela n\u00e3o como mais uma que conseguiram calar, mas como mais uma que fez sua voz ser escutada. Temos que recordar de Marielle como uma for\u00e7a, para que n\u00e3o deixemos de lutar por um pa\u00eds no qual a voz da popula\u00e7\u00e3o seja valorizada.<\/p>\n<p>Marielle queria dar voz pol\u00edtica \u00e0queles que s\u00e3o marginalizados, mas que constituem a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Queria mostrar que o lugar do povo pode ser na pol\u00edtica, que a maioria da nossa popula\u00e7\u00e3o deve se sentir representada dentro dos espa\u00e7os pol\u00edticos e que \u00e9 um absurdo que um pa\u00eds no qual mais da metade da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda por mulheres, n\u00e3o tenha uma representa\u00e7\u00e3o equivalente no legislativo. Por mais que o assassinato da vereadora tente nos convencer do contr\u00e1rio, temos que continuar lutando por mais participa\u00e7\u00e3o popular na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Quem matou Mariele? Essa pergunta permanece sem resposta, mas precisamos lutar por justi\u00e7a e n\u00e3o deixar que se esque\u00e7am, para que esse n\u00e3o seja mais um crime sem solu\u00e7\u00e3o nos arquivos brasileiros. Marielle foi calada, mas n\u00e3o podemos permitir que isso nos cale tamb\u00e9m. Ao contr\u00e1rio, agora temos que gritar mais alto, porque a nossa voz \u00e9 tamb\u00e9m a voz de Marielle.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos em um pa\u00eds democr\u00e1tico, onde as pessoas t\u00eam o direito e o dever de eleger os pr\u00f3prios governantes por meio de elei\u00e7\u00f5es universais. Foi assim, atrav\u00e9s do voto de 46.502 cidad\u00e3os, que Marielle Franco assumiu o cargo de vereadora do Rio de Janeiro-RJ. 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