{"id":3255,"date":"2025-07-18T10:26:20","date_gmt":"2025-07-18T13:26:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3255"},"modified":"2025-07-18T10:26:20","modified_gmt":"2025-07-18T13:26:20","slug":"e-tarde-demais-para-me-lembrar-de-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3255","title":{"rendered":"\u00c9 tarde demais para me lembrar de voc\u00ea?"},"content":{"rendered":"\n<p>As mem\u00f3rias se distanciam cada vez mais, j\u00e1 n\u00e3o sei distinguir o fato da inven\u00e7\u00e3o. Na noite passada, voc\u00ea me entregava uma cal\u00e7a cor-de-rosa, chamativa, mas delicada. Era \u00fanica. Mais um dos seus presentes que partiu junto a voc\u00ea. Hoje, n\u00e3o passa de um fantasma que me abra\u00e7a quando teme desaparecer por completo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossas viagens, a brisa que abra\u00e7ava meu rosto era confort\u00e1vel, eu era livre para ignorar as futuras preocupa\u00e7\u00f5es que um dia teria, somente encarava a vista inquieta no centro da janela. Os resqu\u00edcios daquele tempo se distorceram, pensar em voc\u00ea \u00e9 sentir o vento rasgando minhas lembran\u00e7as e se perdendo junto aos borr\u00f5es que, em algum momento, j\u00e1 foram uma paisagem deslumbrante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ansiei tanto o encerramento, que continuo fixa no seu nascimento. A sua partida instalou um vazio que nunca deixou de me cercar. Tudo agora \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, o oxig\u00eanio que inalo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais capaz de preencher meus pulm\u00f5es. Sinto falta de acordar no escuro e acompanhar o surgimento do primeiro raio de sol. Agora, tudo \u00e9 breu, o clar\u00e3o \u00e9 distante e me convenci que jamais vou alcan\u00e7\u00e1-lo de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Saudade de caminhar a favor do tempo, cansada de enfrent\u00e1-lo. Nessa batalha, minha recompensa ser\u00e1 o fim. Tor\u00e7o para ser uma prisioneira da minha pr\u00f3pria vaidade, quero que tudo permane\u00e7a inalterado. Por que n\u00e3o podemos cantar por toda a eternidade sem perder a voz? Por que n\u00e3o podemos dan\u00e7ar por mais um segundo sem perder o ritmo?<\/p>\n\n\n\n<p>No final, nunca estive t\u00e3o pr\u00f3xima de voc\u00ea. Quando te olhei pela \u00faltima vez, voc\u00ea era um pouco crian\u00e7a de novo, senti que compartilh\u00e1vamos a mesma inf\u00e2ncia, voc\u00ea ria como se quisesse sorrir para sempre. Quando te toquei pela \u00faltima vez, eu era um pouco adulta, senti que compartilh\u00e1vamos as mesmas preocupa\u00e7\u00f5es, eu te olhava como se quisesse te enxergar por toda a eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea se foi e eu fiquei, todos que me cercavam pareciam n\u00e3o ter mais cor. Pela \u00faltima vez, eu era uma cal\u00e7a cor-de-rosa escondida entre as dezenas de casacos pretos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mem\u00f3rias se distanciam cada vez mais, j\u00e1 n\u00e3o sei distinguir o fato da inven\u00e7\u00e3o. Na noite passada, voc\u00ea me entregava uma cal\u00e7a cor-de-rosa, chamativa, mas delicada. Era \u00fanica. Mais um dos seus presentes que partiu junto a voc\u00ea. Hoje, n\u00e3o passa de um fantasma que me abra\u00e7a quando teme desaparecer por completo. 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