{"id":3263,"date":"2025-07-18T10:34:47","date_gmt":"2025-07-18T13:34:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3263"},"modified":"2025-07-18T10:37:17","modified_gmt":"2025-07-18T13:37:17","slug":"desonestidade-intelectual-debate-publico-e-desigualdade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3263","title":{"rendered":"Desonestidade intelectual, debate p\u00fablico e desigualdade social"},"content":{"rendered":"\n<p>Em meio \u00e0 desigualdade social, \u00e9 evidente que as pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o necess\u00e1rias para que os cidad\u00e3os tenham seus direitos amparados e algum m\u00ednimo de dignidade garantido, evitando o patamar da barb\u00e1rie e da desumanidade. Frequentemente, tais pol\u00edticas s\u00e3o debatidas em redes sociais, o que \u00e9 natural ao processo democr\u00e1tico, mas em meio a diversas opini\u00f5es, algumas carregam uma grande desonestidade intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa semana, o empres\u00e1rio Ricardo Faria, conhecido como o Rei do Ovo concedeu entrevista ao Jornal Folha de S\u00e3o Paulo e reclamou de benef\u00edcios assistenciais de combate \u00e0 mis\u00e9ria, afirmando que tais benef\u00edcios estariam impedindo os trabalhadores de contratar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, devemos considerar os programas de Assist\u00eancia Social como socorro emergencial a fam\u00edlias que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. Em m\u00e9dia, os benef\u00edcios pagos s\u00e3o no valor de R$ 683,75. Para que a fam\u00edlia passe a receber o Bolsa Fam\u00edlia, a renda per capita (que \u00e9 o total da renda familiar dividido pelo n\u00famero de moradores) n\u00e3o pode ultrapassar R$ 218,00. Nesse sentido, podemos ir de encontro a outro argumento frequentemente usado, que \u00e9 justamente dizer que h\u00e1 fam\u00edlias sustentadas apenas pelo benef\u00edcio. Vamos supor que uma fam\u00edlia tenha quatro pessoas, sendo um pai fazendo bico, uma m\u00e3e (geralmente desempregada, cuidando do lar) e dois filhos em idade escolar, e que o pai consiga num m\u00eas faturar apenas 800 reais, que dividindo pelos quatro membros dar\u00e1 200 reais, pr\u00f3ximo ao limite de renda per capita. Se este valor se soma ao valor m\u00e9dio dos benef\u00edcios, que vamos arredondar para 680, ficaria um total de 1480 para aquela fam\u00edlia e uma m\u00e9dia de 370 reais por pessoa. Nenhum ser humano vive com dignidade com menos de 400 reais, e aqui podemos lembrar que n\u00e3o \u00e9 raro que os pobres paguem uma m\u00e9dia de 700 reais de aluguel. Vamos tamb\u00e9m supor que a conta de \u00e1gua seja no valor de 60 reais e a de luz, 90 reais, somando-se 150 reais em contas. S\u00f3 a\u00ed j\u00e1 foram 850 reais, e os 630 restantes j\u00e1 esbarram no valor m\u00e9dio da cesta b\u00e1sica em Salvador-BA, conforme estimativa do Dieese em Abril deste ano. E se algum filho adoece e o rem\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 obtido pelo SUS? E se esta fam\u00edlia precisa gastar com deslocamento, mesmo que seja por transporte p\u00fablico &#8211; que \u00e9 o mais barato? Claro, esta \u00e9 apenas uma de muitas das simula\u00e7\u00f5es que podemos fazer, e h\u00e1 sempre casos de fam\u00edlias com necessidades ainda maiores que podemos usar como exemplo, mas da forma como fizemos j\u00e1 demonstra como o argumento de que h\u00e1 quem viva de benef\u00edcio carrega um desconhecimento da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no caso do Rei do Ovo, que diz que gostaria de resgatar trabalhadores da mis\u00e9ria e tir\u00e1-los da depend\u00eancia do Bolsa Fam\u00edlia, se disp\u00f5e a pagar aos seus funcion\u00e1rios a quantia de R$ 1640,00, valor abaixo da m\u00e9dia nacional para a remunera\u00e7\u00e3o de empregados da ind\u00fastria. Por mais que j\u00e1 seja superior aos R$ 1480,00 da soma que fizemos anteriormente, o valor n\u00e3o chega a R$ 50,00 reais por dia. Se formos contrastar com o custo de vida em Mato Grosso, onde uma pessoa gasta em m\u00e9dia mais de 5 mil reais por m\u00eas para viver (conforme dados da Expatistan), fica n\u00edtido que n\u00e3o ser\u00e1 um valor suficiente para que o trabalhador possua qualidade de vida, e \u00e9 claro que com alguma forma de promo\u00e7\u00e3o social, o pai de fam\u00edlia poder\u00e1 encontrar um patr\u00e3o que lhe pague um sal\u00e1rio mais digno, mas \u00e9 lament\u00e1vel que quem reclama de pol\u00edticas sociais \u00e9 justamente um bilion\u00e1rio que paga um sal\u00e1rio abaixo da m\u00e9dia nacional a seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, se um benef\u00edcio que em m\u00e9dia paga menos de R$ 700,00 reais incomoda a um empres\u00e1rio, que paga um sal\u00e1rio maior, \u00e9 sinal de que as condi\u00e7\u00f5es que por ele s\u00e3o oferecidas n\u00e3o s\u00e3o aceitas justamente porque n\u00e3o compensam o esfor\u00e7o do trabalhador. \u00c9 necess\u00e1rio lembrar que o empres\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 prestando um favor, o trabalhador \u00e9 que vende a sua for\u00e7a e o seu tempo ao estar ali, e ningu\u00e9m deve nada a ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas a classe dos empres\u00e1rios que demonstra uma vis\u00e3o irrespons\u00e1vel sobre essas pol\u00edticas. A mobiliza\u00e7\u00e3o e os lobbys presentes no Congresso Nacional, demonstrados em diversas vota\u00e7\u00f5es mostram que os representantes n\u00e3o est\u00e3o ao lado do povo, mas sim dos que s\u00e3o contra o socorro a quem mais precisa das pol\u00edticas p\u00fablicas. Em meio ao debate de corte de gastos, a conta sempre sobra para o mais pobre, ao passo que os incentivos fiscais gordurosos que s\u00e3o concedidos aos empres\u00e1rios continuam os mesmos, sem contar com os benef\u00edcios que pagamos aos pr\u00f3prios parlamentares. Sendo assim, cabe-nos questionar: at\u00e9 quando vamos achar digno que quem n\u00e3o faz o m\u00ednimo com seus empregados seja tratado como exemplo de quem deve ser ouvido? At\u00e9 quando vamos aceitar que nossos direitos sejam cada vez mais suprimidos? Por que sempre aceitamos que o problema \u00e9 a assist\u00eancia que o Estado nos d\u00e1, atrav\u00e9s dos seus \u00f3rg\u00e3os e servi\u00e7os, por dever legal? E principalmente: por que sustentamos um sistema, no qual os mais pobres s\u00e3o os que mais pagam impostos, mas ao mesmo tempo s\u00e3o os primeiros a serem cortados do or\u00e7amento do Estado? E a\u00ed eu respondo, fechando a quest\u00e3o: porque falta um debate intelectualmente honesto, da mesma forma que acontece nas quest\u00f5es trabalhistas. Sempre estamos acostumados a ver o pobre ser tirado do or\u00e7amento p\u00fablico, para manter os privil\u00e9gios e as injusti\u00e7as, por achar que nos est\u00e1 sendo feito um favor, como se n\u00e3o pag\u00e1ssemos impostos e como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos direitos b\u00e1sicos assegurados na Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Esquecemos que somos n\u00f3s que sustentamos os cofres p\u00fablicos e deixamos os mesmos por v\u00e1rios e v\u00e1rios mandatos, perpetuando o sindicato dos ricos que visam manter a atual conjuntura. Somos ensinados a abaixar a cabe\u00e7a perante \u201cos gra\u00fados\u201d e aceitar tudo o que dizem. E assim, continua essa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria onde o pobre cada vez fica mais pobre, e o rico cada vez fica mais rico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 desigualdade social, \u00e9 evidente que as pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o necess\u00e1rias para que os cidad\u00e3os tenham seus direitos amparados e algum m\u00ednimo de dignidade garantido, evitando o patamar da barb\u00e1rie e da desumanidade. 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