{"id":3302,"date":"2025-07-18T11:16:48","date_gmt":"2025-07-18T14:16:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3302"},"modified":"2025-07-18T11:16:50","modified_gmt":"2025-07-18T14:16:50","slug":"mae-duas-vezes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3302","title":{"rendered":"M\u00e3e duas vezes"},"content":{"rendered":"\n<p>Com a testa franzida, l\u00e1bios inferiores projetados formando um bico que se assemelha a uma crian\u00e7a birrenta, Vov\u00f3 Gildete recosta o avental de pano quadriculado na boca do fog\u00e3o enquanto mexe a panela de mingau de milho que seu neto tanto pedira naquela tarde fria de setembro. Ela sabe que ele tem m\u00e3e, e sabe que \u00e9 costume da fam\u00edlia deixar os filhos para serem cuidados pela av\u00f3 enquanto os pais e as m\u00e3es trabalham fora. E mesmo exausta, bastante furiosa de ter que cuidar de tudo aquilo que n\u00e3o \u00e9 sua obriga\u00e7\u00e3o, ela o faz. Faz o mingau que o \u00fanico neto menino que ela tem pede a ela com um sorriso de cara lavada e olhos brilhantes. Apesar de todos se assustarem com sua express\u00e3o carrancuda, a velha sabe que o filho mais novo da sua filha mais velha \u00e9 apegado a ela, e sabe que ele n\u00e3o a enxerga como a louca da casa amarela assim como outras crian\u00e7as que a veem vigiar a rua pela fresta da janela da frente da casa 16. Para ele, ela \u00e9 apenas a sua av\u00f3\u2014 m\u00e3e duas vezes\u2014 como ela prefere se auto-intitular.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vov\u00f3, o Mingau t\u00e1 pronto?<br>\u2014 Menino, voc\u00ea tem m\u00e3e. Vai encher o saco dela, vai!? \u2014 Ela diz com uma voz de quem fuma a mais tempo do que se pode contar e um olhar cansado de quem lutou sozinha durante todos os dias da sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Sozinha porque, no caso da inf\u00e2ncia dela, n\u00e3o teve m\u00e3e. Esta havia desaparecido ap\u00f3s dar \u00e0 luz \u00e0 beb\u00ea em Jord\u00e2nia, Minas Gerais, muitos anos antes de se casar com o pai dela. Os motivos ningu\u00e9m sabe. E o pai dela n\u00e3o tardou em arranjar uma nova esposa que n\u00e3o gostou muito de Gildete, ou melhor, Janete, assim como era seu nome de batismo. Por isso, decidiu mudar-se da casa do seu pai para a casa dos seus av\u00f3s aos 10 anos de idade, e com 12 anos decidiu trabalhar para a filha da vizinha dos seus av\u00f3s, devido ao falecimento dos 2. Enquanto morava de favor na casa da mulher que se chamava Alba em Vit\u00f3ria da Conquista, Bahia, ela foi, finalmente, registrada em cart\u00f3rio, mas com o nome diferente do que por muitos anos a chamavam. Nascia agora Gildete, a dom\u00e9stica, como a chamavam. Mas n\u00e3o durou muito, preferiu tentar a sorte e ir para a Capital do Estado, Salvador, juntamente com a melhor amiga de Alba. E deu certo por longos 4 anos, at\u00e9 ela perceber que a cidade grande, a praia e o calor eram muito mais um fardo que um lar. Preferiu voltar para Vit\u00f3ria da Conquista, onde teve o primeiro contato com quem futuramente ela chamaria de \u201cmarido\u201d, mas n\u00e3o ainda. Primeiro precisava voltar ao seu estado, Minas Gerais, agora para Belo Horizonte, ainda como dom\u00e9stica. L\u00e1, trabalhou de gar\u00e7onete enquanto morava em uma kitnet at\u00e9 conseguir voltar ao seu emprego habitual. N\u00e3o deu certo, tivera que voltar para Conquista onde realmente tinha oportunidades para ela, ou ao menos um esposo. E logo reencontrou Euj\u00e1cio, aos seus 17 anos e \u2018<em>amaziaram<\/em>\u00b9\u2019 juntos devido a uma gravidez indesejada. Beatriz, o nome da pequena.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria uma linda hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o se n\u00e3o fosse pela morte prematura da primeira crian\u00e7a do casal. E decidiram que n\u00e3o teriam mais filhos, n\u00e3o depois de sofrer pela morte da sua beb\u00ea. Neste caso, Deus\u2014 ou seja l\u00e1 o que prefira acreditar\u2014 pensava diferente. 1 ano depois, Gildete deu a luz a Shirley, batizada com o nome da professora que ensinou Gildete a juntar as letras, uma das poucas coisas que aprendeu na escola. E depois deu a luz a Charles e a Sheila, que receberam nomes de atores famosos da \u00e9poca. Gildete deixou de trabalhar de dom\u00e9stica para outros e passou a cuidar das 3 crian\u00e7as que ela tinha trazido ao mundo e um homem que fora muito mimado at\u00e9 os seus 47 anos, com o qual ela decidiu oficializar os votos de casamento alguns anos depois, mesmo ap\u00f3s uma trai\u00e7\u00e3o e uma 4\u00ba filha extraconjugal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Daniel! Vem buscar!\u2014 grita Gildete para chamar o neto que est\u00e1 sentado no sof\u00e1 da sala mexendo nos CDs do av\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele corre at\u00e9 a cozinha, senta na cadeira apertada entre a mesa e a parede que cria um canto escuro atr\u00e1s da porta dos fundos, onde ele e ela sentam-se para aproveitar este momentos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Amaziar \u00b9: express\u00e3o do Sudoeste da Bahia cujo significado se refere ao ato de juntar-se a algu\u00e9m sem v\u00ednculo matrimonial.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a testa franzida, l\u00e1bios inferiores projetados formando um bico que se assemelha a uma crian\u00e7a birrenta, Vov\u00f3 Gildete recosta o avental de pano quadriculado na boca do fog\u00e3o enquanto mexe a panela de mingau de milho que seu neto tanto pedira naquela tarde fria de setembro. 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