{"id":3305,"date":"2025-07-18T11:18:58","date_gmt":"2025-07-18T14:18:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3305"},"modified":"2025-07-18T11:18:59","modified_gmt":"2025-07-18T14:18:59","slug":"as-mulheres-deste-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3305","title":{"rendered":"As mulheres deste solo"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem diria que o lugar que hoje \u00e9 o pa\u00eds do futebol, um dia foi capaz de impedir que ele fosse praticado? Mas s\u00f3 pelas mulheres, \u00e9 claro. N\u00e3o era esporte para mulher, amea\u00e7ava a natureza feminina. A pr\u00e1tica do futebol feminino que j\u00e1 era recha\u00e7ada pelo preconceito, virou proibi\u00e7\u00e3o em 1941, silenciando o som do apito inicial, que por d\u00e9cadas n\u00e3o ecoou em campos dominados por elas. N\u00e3o porque eram poucas ou n\u00e3o tinham talento, mas porque as barreiras eram maiores que seus direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogavam nos mesmos campos que os homens, chutavam a mesma bola, as redes se movimentavam na mesma intensidade, at\u00e9 o grito de gol era o mesmo. Mas mesmo assim, elas n\u00e3o podiam jogar. Deviam prezar pela sua sa\u00fade para que pudessem gerar filhos para a p\u00e1tria Brasil. Mas prezando tamb\u00e9m pela sua liberdade e paix\u00e3o, nunca deixaram de lutar para p\u00f4r abaixo as muralhas invis\u00edveis de uma lei, entre in\u00fameras outras, que as impediam de viver seus sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim tiveram que criar sua pr\u00f3pria maneira de jogar bola. Em jogos de v\u00e1rzea, nas ruas, onde n\u00e3o eram veementemente proibidas. Com o que quer que fosse usado como bola, vestiam-se como homens, jogavam \u00e0 noite, mudando o curso da corrida quando eram avisadas da chegada da pol\u00edcia. Algumas vezes eram detidas, mas logo liberadas. E como acontece em campo, acreditaram na vit\u00f3ria at\u00e9 o \u00faltimo segundo, driblando a proibi\u00e7\u00e3o como quem dribla a zaga: com coragem, ginga e a certeza de que alcan\u00e7ariam o resultado final t\u00e3o desejado.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a revoga\u00e7\u00e3o da lei, em 1979, permitiu que os gramados e as arquibancadas voltassem a presenciar n\u00e3o s\u00f3 a gra\u00e7a feminina, mas tamb\u00e9m o talento das mulheres de chuteiras, dispostas a mostrar o futebol que sempre esteve com elas.<br>Ainda t\u00edmido, em passos curtos, o futebol feminino foi ocupando o espa\u00e7o que sempre foi seu. Mesmo tantas vezes diminu\u00eddo, segue gigante. Neste solo t\u00e3o f\u00e9rtil para talentos, o maior esporte do mundo carrega tamb\u00e9m as marcas da resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o tivesse sido escondido debaixo do tapete da hist\u00f3ria, talvez hoje fosse maior, mais celebrado, mais reconhecido. Mas, ainda assim, \u00e9 muito, por tudo o que j\u00e1 foi negado. As mesmas mulheres que um dia vestiram uniformes reaproveitados da sele\u00e7\u00e3o masculina, hoje entram em campo cobertas de orgulho. O orgulho delas, o da torcida e o de todas que vieram antes, aquelas que nunca puderam jogar, mas que sonharam esse sonho por elas. Correndo, driblando, fazendo gols e escrevendo, enfim, a hist\u00f3ria que sempre mereceram. Porque o futebol feminino, agora, \u00e9 visto. E mais do que visto: \u00e9 celebrado. Como deveria ter sido desde sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem diria que o lugar que hoje \u00e9 o pa\u00eds do futebol, um dia foi capaz de impedir que ele fosse praticado? Mas s\u00f3 pelas mulheres, \u00e9 claro. N\u00e3o era esporte para mulher, amea\u00e7ava a natureza feminina. 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