{"id":3320,"date":"2025-07-18T11:31:37","date_gmt":"2025-07-18T14:31:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3320"},"modified":"2025-07-18T11:57:34","modified_gmt":"2025-07-18T14:57:34","slug":"a-cronica-de-barbara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3320","title":{"rendered":"A cr\u00f4nica de B\u00e1rbara"},"content":{"rendered":"\n<p>B\u00e1rbara n\u00e3o \u00e9 uma pessoa fict\u00edcia, mas poderia ser. Porque toda sala de aula tem uma pessoa como aquela criatura murmurenta, diante da fala do professor, do colega que pergunta demais ou at\u00e9 da chinela que arrasta sobre o sil\u00eancio da sala e que desfoca a aten\u00e7\u00e3o de todos. Murmura\u00e7\u00e3o a define.<br>B\u00e1rbara n\u00e3o grita, ela murmura. Esse \u00e9 um tipo mais elegante de protesto, mais pac\u00edfico. Um \u201cvixi\u201d aqui, um \u201caff\u201d ali, um olhar de canto que diz mais do que trinta artigos cient\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o deboche dela \u00e9 quase po\u00e9tico, n\u00e3o \u00e9 raiva de verdade. \u00c9 um tipo de ironia que veio com ela ao mundo, talvez herdada da sua av\u00f3 ou de uma novela mexicana. Tudo vira motivo para uma rea\u00e7\u00e3o sarc\u00e1stica: o professor que atrasa, o colega que pensa que seu carro \u00e9 um grande navio, a cada resposta de um imbecil;a lista de presen\u00e7a que demora.<\/p>\n\n\n\n<p>E ainda assim mesmo com toda a sua bipolaridade, l\u00e1 est\u00e1 ela ajudando no trabalho em grupo, emprestando a caneta com a cara de \u201cvoc\u00ea de novo?\u201d Mas sempre ajudando o pr\u00f3ximo, porque B\u00e1rbara \u00e9 uma pessoa que tem o cora\u00e7\u00e3o debochado, mas ele \u00e9 enorme.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando algu\u00e9m exagera em alguma fala, ela explode, e logo depois volta ao normal. Cinco minutos depois, j\u00e1 est\u00e1 perguntando se voc\u00ea quer um arroz doce, como se nada tivesse acontecido anteriormente. Como se o mundo fosse uma mistura de irrita\u00e7\u00e3o e gentileza, tudo no mesmo pacote.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua m\u00e3e \u00e9 t\u00e9cnica em enfermagem. E talvez por isso, a menina carrega um tipo especial de cuidado nos gestos. Um cuidado disfar\u00e7ado, que n\u00e3o se entrega f\u00e1cil. \u00c9 aquela do tipo que reclama de voc\u00ea, mas fala bem de voc\u00ea. Que briga com voc\u00ea, mas avisa que a prova foi remarcada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 doce, s\u00f3 que com lim\u00e3o por cima. Como aqueles doces que enganam na primeira mordida, mas que no fundo t\u00eam alma boa. E no fim da aula, quando todos j\u00e1 est\u00e3o exaustos e algu\u00e9m solta uma pergunta absurda, ela solta um suspiro dram\u00e1tico que resume tudo: \u201cAh n\u00e3o, gente!\u201d. B\u00e1rbara levanta e tchau!\u201d para mais uma aula problem\u00e1tica. Um dia se foi, e agora? Ser\u00e1 que B\u00e1rbara est\u00e1 preparada para os murm\u00farios de amanh\u00e3? Pois, enquanto gente chata ali existir, a B\u00e1rbara vai reclamar aqui! \u201cAff\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>B\u00e1rbara n\u00e3o \u00e9 uma pessoa fict\u00edcia, mas poderia ser. Porque toda sala de aula tem uma pessoa como aquela criatura murmurenta, diante da fala do professor, do colega que pergunta demais ou at\u00e9 da chinela que arrasta sobre o sil\u00eancio da sala e que desfoca a aten\u00e7\u00e3o de todos. 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