{"id":3370,"date":"2025-07-18T13:04:18","date_gmt":"2025-07-18T16:04:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3370"},"modified":"2026-01-08T10:41:01","modified_gmt":"2026-01-08T13:41:01","slug":"a-identidade-trans-e-os-mitos-do-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3370","title":{"rendered":"A identidade trans e os mitos do g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"665\" src=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FOTO-1-EQUIPE-RIAN-BORGES-1024x665.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3371\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O professor universit\u00e1rio Anderson Cunha de Ara\u00fajo, 51 anos, durante palestra realizada em 2018 sobre comunica\u00e7\u00e3o, imagem e filosofia. Foto: Focos de Pesquisa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A transexualidade ainda \u00e9 alvo de muita discuss\u00e3o e preconceito no Brasil. H\u00e1 16 anos, o pa\u00eds lidera o ranking mundial de assassinatos contra pessoas trans, segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Para grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, trata-se de uma viv\u00eancia ainda pouco compreendida, o que contribui para a estigmatiza\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o dessas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o objetivo de compreender melhor as ra\u00edzes hist\u00f3ricas das constru\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e os caminhos poss\u00edveis para a afirma\u00e7\u00e3o da identidade trans, ouvimos o professor Anderson Cunha de Ara\u00fajo, graduado em Filosofia pela Universidade Estadual Santa Cruz (Uesc) e mestre em Cinema pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Na entrevista, ele aborda aspectos biol\u00f3gicos, sociais e culturais relacionados ao tema, trazendo uma reflex\u00e3o profunda sobre os desafios enfrentados pela popula\u00e7\u00e3o trans no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Quais s\u00e3o as ra\u00edzes hist\u00f3ricas da constru\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria de g\u00eanero e como esse modelo se consolidou socialmente?<br>Anderson Cunha de Ara\u00fajo:<\/strong> Do ponto de vista filos\u00f3fico, as ra\u00edzes da constitui\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria de g\u00eanero est\u00e3o relacionadas ao que a gente chama de binarismo. Historicamente, as representa\u00e7\u00f5es, mesmo no ocidente, n\u00e3o eram bin\u00e1rias. Mesmo na Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica, a gente tem, de certa maneira, outros lugares em rela\u00e7\u00e3o a homens e mulheres. O que acontece \u00e9 que a partir de uma certa posi\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos gregos &#8211; principalmente a Escola Socr\u00e1tica: S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles &#8211; come\u00e7ou-se a ter uma concep\u00e7\u00e3o relacionada ao binarismo como uma marca da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento e da constitui\u00e7\u00e3o social dos indiv\u00edduos tanto homens quanto mulheres. O Plat\u00e3o chegou a afirmar, numa discuss\u00e3o com o Arist\u00f3teles, que as almas eram femininas, mas elas incorporavam em corpos masculinos e femininos de forma diferente. Existia um certo decaimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de uma alma em um corpo feminino. Tem toda uma discuss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso em um texto que est\u00e1 no livro \u2018\u2019Hist\u00f3ria das Mulheres no Ocidente\u2019\u2019, em seu primeiro volume. Ent\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o a isso, esse primeiro ponto \u00e9 que essa discuss\u00e3o se deu a partir dos fil\u00f3sofos gregos, dos socr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Em que momento da hist\u00f3ria passamos a ver o g\u00eanero como algo limitado ao masculino e feminino, e quais interesses sustentam essa vis\u00e3o at\u00e9 hoje?<br>Anderson Cunha de Ara\u00fajo:<\/strong> A partir, principalmente do per\u00edodo cl\u00e1ssico, a gente tem essa discuss\u00e3o, mas ela se funda muito mais fortemente a partir da Idade M\u00e9dia. Na Idade M\u00e9dia, o interesse da Igreja de se manter padr\u00f5es muito restritos entre homens e mulheres, e principalmente em rela\u00e7\u00e3o a uma vis\u00e3o do que era a fam\u00edlia, de certa forma manteve-se essa discuss\u00e3o em cima dos dogmas da Igreja Cat\u00f3lica. E eles tamb\u00e9m recuperaram as vis\u00f5es cl\u00e1ssicas de fil\u00f3sofos como S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles e outros para referendar essa discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Existem estudos que indicam alguma base biol\u00f3gica ou neurocient\u00edfica para a transexualidade?<br>Anderson Cunha de Ara\u00fajo:<\/strong> Por muito tempo se teve uma discuss\u00e3o, meio que patol\u00f3gica, em rela\u00e7\u00e3o a uma s\u00e9rie de orienta\u00e7\u00f5es e diversidade sexual que fugia da norma, ou que fugia daquela que era imposta como norma. Ent\u00e3o, a gente teve, durante muito tempo, estudos que tentavam biologizar a rela\u00e7\u00e3o homossexual, tanto de homens como mulheres, e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transgeneridade. A homossexualidade vai sair do CID &#8211; C\u00f3digo Internacional de Doen\u00e7as, de psicologia, s\u00f3 na d\u00e9cada de 80, 90 e a transexualidade saiu oficialmente neste ano de 2025, do CID. Se entendia transexualidade como disforia de g\u00eanero, com quest\u00f5es relacionadas a isso. Essas quest\u00f5es relacionadas \u00e0 disforia acontecem tamb\u00e9m com pessoas cis, com pessoas bi, n\u00e3o bin\u00e1rias, com pessoas trans. Eu n\u00e3o considero isso como uma condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica da transgeneridade. \u00c9 uma dimens\u00e3o que aparece de certa maneira em todo momento. Os estudos tendem a perceber que essa dimens\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nenhuma base, nem psicol\u00f3gica, nem neurocient\u00edfica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transexualidade, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 homossexualidade, nem em rela\u00e7\u00e3o a outras orienta\u00e7\u00f5es, que de certa maneira fogem da norma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: A identidade de g\u00eanero pode ser influenciada por fatores sociais, culturais ou ambientais?<br>Anderson Cunha de Ara\u00fajo:<\/strong> Existe uma base biol\u00f3gica, as pessoas nascem com uma determina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Algumas nem nascem com uma determina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica t\u00e3o fixa. Tem pessoas que t\u00eam genit\u00e1lia amb\u00edgua, uma s\u00e9rie de determina\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o s\u00e3o poucas pessoas. Normalmente, o g\u00eanero \u00e9 determinado no nascimento a partir da genit\u00e1lia. \u00c9 o m\u00e9dico ou a m\u00e9dica, a pessoa que est\u00e1 fazendo ali os procedimentos que determinam o g\u00eanero daquele sujeito na hora do nascimento. Se tiver uma genit\u00e1lia amb\u00edgua, ele n\u00e3o vai ser determinado t\u00e3o facilmente assim. Mas, mesmo essa determina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma estrutura biol\u00f3gica, ela vai se dar na sociedade de forma muito mais complexa. Pap\u00e9is relacionados a homens e mulheres nas sociedades mudaram muito, mudam de sociedade para sociedade mesmo no nosso tempo. O que \u00e9 ser mulher no Brasil n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que ser mulher na China, ou no Afeganist\u00e3o, ou em um pa\u00eds como a Nig\u00e9ria, na \u00c1frica. Ent\u00e3o, esses pap\u00e9is de homens e mulheres s\u00e3o muito cambi\u00e1veis, s\u00e3o determinados pela sociedade que os sujeitos habitam. Ent\u00e3o, homens e mulheres, que a gente chama de papel de g\u00eanero na sociedade, \u00e9 determinado pela pr\u00f3pria sociedade, o que \u00e9 ser masculino e feminino e essas ra\u00edzes. E esse modelo, de certa forma, tende a ser muito bin\u00e1rio, ainda influenciado por aquelas quest\u00f5es relacionadas ao mundo ocidental. Mas na nossa sociedade ocidental, eles levam em considera\u00e7\u00e3o isso. Em outras sociedades, existem outras express\u00f5es de g\u00eanero, que t\u00eam 20, 30 express\u00f5es que v\u00e3o fora do bin\u00f4mio masculino e feminino.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: A prostitui\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 uma das \u00fanicas alternativas de sobreviv\u00eancia para muitas pessoas trans e travestis. Como chegamos a esse cen\u00e1rio?<br>Anderson Cunha de Ara\u00fajo: <\/strong>A gente tem que primeiro perceber a prostitui\u00e7\u00e3o enquanto car\u00e1ter n\u00e3o moralista. Temos que pensar que a prostitui\u00e7\u00e3o sempre ocorreu em diversas sociedades e essas pessoas sempre foram marginalizadas ao longo do tempo. Tamb\u00e9m, para a sociedade grega, voc\u00ea tinha o que a gente chama de prostitui\u00e7\u00e3o sagrada. Ent\u00e3o, \u00e9, pense em uma dimens\u00e3o que existem prostitutas e prostitutos sagrados, essa dimens\u00e3o ela est\u00e1 muito mais ligada a um lugar de destaque na sociedade do que como \u00e9 hoje em dia, como a prostituta, na nossa sociedade \u00e9 inferiorizada, \u00e9 colocada de lado. Ela n\u00e3o \u00e9 vista. A primeira coisa que a gente tem que pensar \u00e9 isso. Claro, na nossa sociedade que esses sujeitos s\u00e3o marginalizados, pessoas transexuais acabam sofrendo uma dupla marginaliza\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque s\u00e3o normalmente afastadas da fam\u00edlia muito cedo, a partir do momento que elas se identificam como transexuais, normalmente s\u00e3o expulsas de casa. Existe uma s\u00e9rie de estudos que colocam que as pessoas transg\u00eaneros sofrem, n\u00e3o terminam o ensino m\u00e9dio e que normalmente s\u00e3o afastadas das suas casas, expulsas pelos seus pais a partir da adolesc\u00eancia, entre 12 e 14 anos. Claro, isso depende muito do lugar, da dimens\u00e3o, mas \u00e9 isso mais ou menos o tradicional. Como elas s\u00e3o expulsas muito cedo de casa e como elas s\u00e3o mal-vistas pela sociedade, sofrem preconceitos pela sua condi\u00e7\u00e3o transg\u00eanera e quando n\u00e3o t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho dito formal, dito comum, muitas delas buscam a prostitui\u00e7\u00e3o como uma forma de se manterem, principalmente inicialmente. Mas n\u00e3o significa que elas s\u00f3 t\u00eam a prostitui\u00e7\u00e3o, muitas saem da prostitui\u00e7\u00e3o, v\u00e3o fazer outras coisas, tem transexuais hoje com carreira pol\u00edtica nacional, voc\u00ea tem diversos exemplos disso, voc\u00ea tem mulheres com outras dimens\u00f5es. A prostitui\u00e7\u00e3o acaba aparecendo nesse momento como uma forma delas se manterem vivas. Ent\u00e3o, \u00e9 essa dimens\u00e3o muito importante da prostitui\u00e7\u00e3o. A prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um lugar de acolhimento para essas mulheres, mas acaba sendo a \u00fanica forma de renda real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: De que forma o preconceito estrutural contribui para a marginaliza\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o?<br>Anderson Cunha de Ara\u00fajo:<\/strong> H\u00e1 uma forma de preconceito estrutural na nossa sociedade que, claro, todas as rela\u00e7\u00f5es, lembre-se, todas as rela\u00e7\u00f5es, existe uma estrutura, existe um dogma que coloca que as rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis na nossa sociedade s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es reprodutivas. Logo, todas as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o colocadas como reprodutivas est\u00e3o fora do bin\u00f4mio de interesse da sociedade, desse modelo heteronormativo que n\u00f3s vivemos. Essas pessoas que fogem \u00e0 norma sofrem preconceitos estruturais. Claro, elas s\u00e3o desincentivadas a todo momento a n\u00e3o assumirem esse local de marginal \u00e0 sociedade, marginal \u00e0 norma que a sociedade imp\u00f5e. S\u00e3o pressionadas a sempre seguirem a norma, mesmo n\u00e3o se identificando com a norma. N\u00e3o s\u00f3 as pessoas trans, mas as pessoas homossexuais, mulheres l\u00e9sbicas, mulheres que n\u00e3o querem ter filhos, uma s\u00e9rie de dimens\u00f5es acabam, de certa maneira, sofrendo preconceito. Claro que pessoas trans sofrem preconceito de diversas maneiras na sociedade e acabam, claro, marginalizando muito mais essas mulheres e colocando elas em risco na sociedade. Mulheres trans t\u00eam uma expectativa de vida muito baixa por uma s\u00e9rie de fatores, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da vulnerabilidade social como a rela\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o, que elas se colocam no risco, quanto \u00e0 impunidade em rela\u00e7\u00e3o aos casos de viol\u00eancia contra mulheres trans e quanto a falta de escolaridade, de educa\u00e7\u00e3o, de projetos de sa\u00fade para essas mulheres em quase todos os lugares e cidades do pa\u00eds. Ent\u00e3o, isso coloca essas mulheres na al\u00e7a de mira para elas serem assassinadas, violentadas, silenciadas e escondidas da sociedade. Ent\u00e3o, existe uma estrutura. Por outro lado, a gente pode colocar tamb\u00e9m que \u00e9 uma coisa meio psicanal\u00edtica, que existe toda uma puls\u00e3o de nojo, mas tamb\u00e9m uma puls\u00e3o de desejo na nossa sociedade. Existe esse lugar de desejo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres trans e esse lugar \u00e9 sempre um lugar que esvazia o sentido dessas mulheres. Elas est\u00e3o sempre colocadas como se fossem ligadas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o e a sociedade n\u00e3o permite v\u00ea-las em outros lugares, n\u00e3o quer v\u00ea-las em outros lugares. \u00c9 sempre uma rela\u00e7\u00e3o muito doentia em rela\u00e7\u00e3o a esse desejo que n\u00e3o percebe que as mulheres trans podem estar em outros lugares na sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A transexualidade ainda \u00e9 alvo de muita discuss\u00e3o e preconceito no Brasil. H\u00e1 16 anos, o pa\u00eds lidera o ranking mundial de assassinatos contra pessoas trans, segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). 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