{"id":3376,"date":"2025-07-18T13:18:50","date_gmt":"2025-07-18T16:18:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3376"},"modified":"2025-07-18T13:21:24","modified_gmt":"2025-07-18T16:21:24","slug":"a-dor-do-luto-como-processar-e-lidar-com-a-perda-de-um-ente-querido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3376","title":{"rendered":"A dor do luto: como processar e lidar com a perda de um ente querido"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"871\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FOTO-1-EQUIPE-VITOR-GALDINO-1-871x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3381\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Juliana Pimenta Aguiar, psic\u00f3loga da cl\u00ednica Sensi, atua no cuidado de pacientes em tratamento terminal. Foto: Bianca Neves<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O mist\u00e9rio que cerca a morte vem carregado de medo, e manter-se desconectado desse acontecimento pode ser uma solu\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea para se proteger dele. Embora encarar o luto seja um processo desafiador e doloroso, \u00e9 fundamental vivenci\u00e1-lo para que seja poss\u00edvel assimilar e adaptar-se \u00e0 nova realidade. Juliana Pimenta Aguiar, de 62 anos, \u00e9 formada em psicologia e foi a segunda profissional a se especializar em psico-oncologista em Minas Gerais. Come\u00e7ou a estagiar no seu primeiro semestre da faculdade de Psicologia no Hospital do C\u00e2ncer, em Belo Horizonte e, agora, com 37 anos de profiss\u00e3o, atende pacientes em estado terminal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Por que voc\u00ea escolheu trabalhar com pacientes terminais?<br>Juliana Pimenta:<\/strong> Eu vou te responder com toda a sinceridade: n\u00e3o sei. Eu entrei para a faculdade de Psicologia para trabalhar com pacientes com c\u00e2ncer. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinha tido ningu\u00e9m com c\u00e2ncer na minha fam\u00edlia, e nunca tinha trabalhado com nada parecido. Juro para voc\u00ea que eu n\u00e3o sei te explicar o porqu\u00ea. Mas, depois que entrei para a faculdade e, principalmente depois que me formei, tudo ao meu redor passou a girar em torno disso. Quando comecei a fazer est\u00e1gio no Hospital do C\u00e2ncer, em Belo Horizonte, ainda no primeiro semestre da faculdade, a psic\u00f3loga que iria me acompanhar me entregou um caso de urg\u00eancia logo na primeira semana. Ela olhou pra mim e disse: \u201cVai.\u201d Eu respondi que n\u00e3o sabia de nada, que n\u00e3o estava pronta. E ela simplesmente disse: \u201cFaz o que o seu cora\u00e7\u00e3o te mandar fazer.\u201d E eu fui. Ent\u00e3o, n\u00e3o sei te explicar o que me levou para esse lugar, a \u00fanica justificativa que eu tenho talvez seja espiritual. Durante o final da faculdade, eu estava muito insatisfeita com o hospital do INSS, era muito pobre, eu atendia sentada, ou na escadinha da cama, ou no p\u00e1tio do hospital, porque n\u00e3o tinha sala para atendimento. N\u00e3o t\u00ednhamos material. A gente n\u00e3o tinha nada. Ent\u00e3o, comecei a questionar se era isso mesmo que eu queria e fui conversar com uma pessoa que na \u00e9poca era uma espiritualista, n\u00e3o uma esp\u00edrita, mas uma estudiosa, e que dizia receber algumas informa\u00e7\u00f5es do anjo da guarda dela. Eu nunca fui esp\u00edrita, mas fui conversar com ela e, na hora da sa\u00edda, ela virou pra mim e disse: \u201cMeu anjo da guarda me disse para voc\u00ea continuar fazendo o que est\u00e1 fazendo, a sua hist\u00f3ria \u00e9 essa mesmo, voc\u00ea veio ao mundo foi pra isso.\u201d Eu nunca tinha conhecido uma psic\u00f3loga na vida, n\u00e3o sabia o que era psicologia, mas eu queria psicologia para trabalhar com pacientes com c\u00e2ncer. Pronto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como \u00e9 o processo de lidar com o luto?<br>Juliana Pimenta:<\/strong> Primeiro \u00e9 preciso entender o que \u00e9 o luto. O luto \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o emocional a qualquer perda, tanto de uma pessoa, quanto de um emprego, de um namoro, ou de uma bijuteria que era importante para voc\u00ea. Cada uma dessas tristezas \u00e9 um tipo de luto, umas mais dolorosas que outras.<br>No livro <em>Sobre a Morte e o Morrer<\/em>, de Elisabeth K\u00fcbler-Ross, ela prop\u00f5e cinco fases do luto: nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o. Essas cinco fases s\u00e3o did\u00e1ticas, porque ningu\u00e9m passa por elas de forma definida e em sequ\u00eancia, \u00e0s vezes voc\u00ea passa pelas cinco no mesmo dia, \u00e0s vezes voc\u00ea fica fixada em uma. Em outro livro, Elizabeth assumiu que talvez trocasse o nome do seu livro <em>Sobre a Morte e o Morrer<\/em> por <em>Sobre a Perda e o Perder<\/em>, porque qualquer perda gera esse tipo de sentimento. Afinal o que \u00e9 o sentimento do luto? \u00c9 principalmente a tristeza e, em alguns momentos, muita raiva. S\u00e3o os dois sentimentos mais gritantes. O luto \u00e9 um processo, teoricamente, s\u00f3 de dor, mesmo que seja aquele luto muito bem trabalhado durante o per\u00edodo que est\u00e1 para acontecer. Em casos de pacientes terminais, por exemplo, a fam\u00edlia e o paciente come\u00e7am a vivenciar o luto a partir do momento em que h\u00e1 o diagn\u00f3stico, porque a imin\u00eancia de morte j\u00e1 vem acompanhada do luto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: O tratamento psicol\u00f3gico \u00e9 estendido aos familiares do paciente em cuidados paliativos?<br>Juliana Pimenta:<\/strong> Dentro da psicologia, especialmente na psico-oncologia e, mais recentemente, nos cuidados paliativos, n\u00f3s n\u00e3o trabalhamos apenas com o paciente, na maioria das vezes, trabalhamos com toda a fam\u00edlia. Porque, embora o tratamento seja direcionado \u00e0 pessoa doente, a verdade \u00e9 que a fam\u00edlia toda adoece junto. Ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o existe mais aquela ideia de cuidar apenas de quem tem o diagn\u00f3stico. Muitas vezes, uma pessoa manifesta os sintomas, mas a \u201cdoen\u00e7a\u201d est\u00e1 presente na casa toda. Nos cuidados paliativos, que costumavam ficar restritos \u00e0 psico-oncologia, at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, era entendido como o processo de ensinar a pessoa a morrer. Era isso que as pessoas falavam: \u201censinar o povo a morrer\u201d. Hoje, pelo contr\u00e1rio, o cuidado paliativo, que se aplica a muitas outras \u00e1reas, busca dar qualidade de vida para quem est\u00e1 passando pelo processo de morte. N\u00e3o \u00e9 uma forma de fazer com que a pessoa aceite que vai morrer. \u00c9 fazer com que ela viva. Que ela viva bem o tempo que tem de vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como voc\u00ea trata a fam\u00edlia do paciente no processo p\u00f3s-morte?<br>Juliana Pimenta:<\/strong> Em alguns casos, os familiares pedem para que o atendimento continue. Quando perdemos algu\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada que precise ser dito, a maior ajuda que voc\u00ea pode dar para um enlutado \u00e9 deix\u00e1-lo falar sobre o que est\u00e1 sentindo. Ent\u00e3o, se voc\u00ea ficar ao lado de um enlutado durante duas horas, apenas escutando ele falar, sem dizer nada, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 ajudando essa pessoa. Existem casos de enlutados com muita raiva, e, nesses casos, \u00e9 preciso entrar com outras din\u00e2micas. \u00c9 comum que o enlutado sinta raiva, especialmente no luto surpresa, como em casos de acidente, suic\u00eddio ou infarto. Esse tipo de luto \u00e9 mais dif\u00edcil de ser elaborado, porque voc\u00ea n\u00e3o teve tempo de se preparar para ele. No luto por doen\u00e7as, voc\u00ea tem tempo para trabalhar isso; no luto surpresa, voc\u00ea n\u00e3o tem a imin\u00eancia da morte. O que n\u00f3s podemos fazer \u00e9 estar ao lado, mostrar-nos presentes e dispon\u00edveis. \u00c9 o que qualquer ser humano pode fazer pelo outro em um momento de luto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mist\u00e9rio que cerca a morte vem carregado de medo, e manter-se desconectado desse acontecimento pode ser uma solu\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea para se proteger dele. Embora encarar o luto seja um processo desafiador e doloroso, \u00e9 fundamental vivenci\u00e1-lo para que seja poss\u00edvel assimilar e adaptar-se \u00e0 nova realidade. Juliana Pimenta Aguiar, de 62 anos, \u00e9 formada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":123459,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[116],"class_list":["post-3376","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-luto"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/123459"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3376"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3384,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3376\/revisions\/3384"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}