{"id":3388,"date":"2025-07-18T17:17:06","date_gmt":"2025-07-18T20:17:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3388"},"modified":"2025-07-18T17:17:07","modified_gmt":"2025-07-18T20:17:07","slug":"o-grito-dos-que-nao-dao-voto-a-memoria-como-abrigo-para-quem-a-sociedade-ja-esqueceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3388","title":{"rendered":"O grito dos que n\u00e3o d\u00e3o voto: a mem\u00f3ria como abrigo para quem a sociedade j\u00e1 esqueceu"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FOTO-1-EQUIPE-KAMILE-CARDOSO.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3396\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Hermes Andrade &#8211; Presidente do Instituto Abrigo Lar Terceira Idade, 75 anos e 12 anos de atua\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o. Foto: @abrigolarterceiraidade<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>No Brasil, envelhecer com dignidade ainda \u00e9 privil\u00e9gio. A realidade das institui\u00e7\u00f5es de longa perman\u00eancia mostra que muitos idosos enfrentam abandono, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas e car\u00eancia de recursos. Em Vit\u00f3ria da Conquista, no sudoeste baiano, o Abrigo Lar Terceira Idade sobrevive entre doa\u00e7\u00f5es, afetos e esfor\u00e7os silenciosos de quem transforma cuidado em miss\u00e3o. Nesta entrevista, Hermes Andrade, de 75 anos, atual presidente da institui\u00e7\u00e3o, fala sobre os desafios da gest\u00e3o, as hist\u00f3rias que o marcaram e o que ainda falta para garantir respeito a quem tanto j\u00e1 viveu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como come\u00e7ou sua rela\u00e7\u00e3o com o abrigo e h\u00e1 quanto tempo atua na institui\u00e7\u00e3o?<br>Hermes Andrade:<\/strong> H\u00e1 12 anos. Comecei como doador an\u00f4nimo. Ajudava financeiramente sem nem ser conhecido. Com o tempo, me envolvi cada vez mais, at\u00e9 que, quando a presidente precisou se afastar por motivos de sa\u00fade, assumi a presid\u00eancia. Me senti na obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como foi o processo de assumir a presid\u00eancia do abrigo?<br>Hermes Andrade: <\/strong>Foi por necessidade mesmo. A antiga presidente, Luzinete, que foi essencial para reconstruir tudo aqui, teve que sair. Estava tudo regularizado, mas sem dire\u00e7\u00e3o, o funcionamento trava. A gente precisava manter a casa funcionando. Aceitei o cargo por responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Atualmente, quantos idosos vivem no abrigo?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Temos 13 idosos. A capacidade total \u00e9 de 24, mas alguns quartos ainda est\u00e3o sendo usados como dep\u00f3sito e administra\u00e7\u00e3o. Quando a nova \u00e1rea for conclu\u00edda, poderemos receber mais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como \u00e9 feita a sele\u00e7\u00e3o dos idosos que passam a viver no abrigo?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Hoje seguimos crit\u00e9rios mais rigorosos. Antes vinham por indica\u00e7\u00e3o da Casa do Andarilho, mas agora fazemos visitas [nas resid\u00eancias], avaliamos a situa\u00e7\u00e3o, conversamos com a fam\u00edlia. S\u00f3 acolhemos quando h\u00e1 real necessidade. \u00c9 uma decis\u00e3o dif\u00edcil, mas \u00e0s vezes [traz\u00ea-los para c\u00e1] \u00e9 o \u00fanico jeito de garantir que o idoso continue vivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: O que acontece no dia da chegada de um novo morador?<br>Hermes Andrade: <\/strong>A gente faz uma pequena festa. Coloca bal\u00f5es, m\u00fasica, prepara mimos. Tudo pra que ele se sinta acolhido. Tamb\u00e9m damos banho, arrumamos o cabelo, levamos para almo\u00e7ar fora. \u00c9 o nosso jeito de mostrar que ele importa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como voc\u00eas organizam o controle de medicamentos?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Cada idoso tem sua medica\u00e7\u00e3o separada, com nome, foto e os hor\u00e1rios de uso. A enfermeira deixa tudo pronto e as cuidadoras entregam. Funciona como em hospital. Tamb\u00e9m temos o hist\u00f3rico de sa\u00fade de cada um documentado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, como voc\u00eas procedem?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Chamamos o SAMU. Eles t\u00eam um bom relacionamento com a gente, conhecem nosso trabalho e atendem com cuidado. Levar o idoso por conta pr\u00f3pria seria muito mais dif\u00edcil e arriscado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Muitos dos idosos ainda mant\u00eam contato com familiares?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Poucos, a maioria foi abandonada ou tem fam\u00edlia que n\u00e3o visita. Alguns at\u00e9 dizem que t\u00eam filhos ou irm\u00e3os em outros estados, mas ningu\u00e9m aparece. A gente escuta. \u00c0s vezes, \u00e9 a \u00fanica coisa que eles ainda t\u00eam: a fala.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como voc\u00eas lidam com moradores diagnosticados com Alzheimer?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Com paci\u00eancia. Tem idosa que come e, minutos depois, diz que est\u00e1 com fome. Bebe \u00e1gua e esquece. Outros escondem comida no guarda-roupa, por medo de faltar. J\u00e1 achamos ma\u00e7\u00e3, bolo, abacate. \u00c9 preciso entender esses gestos com empatia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: E quando algum idoso se recusa a se alimentar ou a tomar banho?<br>Hermes Andrade: <\/strong>A gente respeita o tempo dele. Tenta depois. \u00c0s vezes, barganha com uma x\u00edcara de caf\u00e9. \u00c9 o jeitinho. Cada um tem o seu. For\u00e7ar n\u00e3o resolve. Eles j\u00e1 passaram a vida inteira sendo for\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Quantas pessoas trabalham na institui\u00e7\u00e3o hoje?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Temos 11 funcion\u00e1rios contratados com carteira assinada: cuidadoras, enfermeiras, cozinheiras, pessoal da limpeza. N\u00e3o d\u00e1 pra depender s\u00f3 de volunt\u00e1rios, porque volunt\u00e1rio vem quando pode. Funcion\u00e1rio tem compromisso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: O abrigo conta com apoio de volunt\u00e1rios?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Sim, mas em \u00e1reas espec\u00edficas, como fisioterapia, est\u00e9tica, recrea\u00e7\u00e3o. Temos uma educadora f\u00edsica que vem todas as ter\u00e7as e tem feito a diferen\u00e7a. Mas o mais dif\u00edcil \u00e9 encontrar algu\u00e9m que doe tempo com const\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como voc\u00eas garantem a alimenta\u00e7\u00e3o dos moradores?<br>Hermes Andrade:<\/strong> A maior parte dos alimentos vem de doa\u00e7\u00f5es. Quando falta, a gente compra. Fazemos controle di\u00e1rio e seguimos orienta\u00e7\u00f5es da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria. Prote\u00ednas s\u00e3o o maior desafio. O que mais falta \u00e9 dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Por que a doa\u00e7\u00e3o em dinheiro \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1ria?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Porque com comida voc\u00ea n\u00e3o paga funcion\u00e1rio, nem imposto. Dinheiro \u00e9 o que mant\u00e9m a institui\u00e7\u00e3o funcionando. Muita gente pensa que doar \u00e9 s\u00f3 levar uma cesta, mas o que realmente sustenta isso aqui \u00e9 apoio financeiro regular.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Tem alguma hist\u00f3ria que marcou sua trajet\u00f3ria no abrigo?<br>Hermes Andrade:<\/strong> A do galinheiro. H\u00e1 uns 7 anos, constru\u00ed um galinheiro pra garantir ovo e carne pros idosos. Era todo planejado: maternidade, bebedouro autom\u00e1tico. Depois, quando precisamos ampliar a estrutura do abrigo, tive que autorizar a demoli\u00e7\u00e3o dele. Foi dif\u00edcil, mas necess\u00e1rio. Hoje temos um espa\u00e7o muito melhor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Como o senhor lida emocionalmente com essa rotina?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Separo o pessoal do profissional. Mesmo nos dias dif\u00edceis, dou meu melhor aqui. Eles merecem. Tenho 75 anos, tamb\u00e9m sou idoso, ent\u00e3o entendo o que \u00e9 essa fase da vida. Eu escolhi esse desafio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: O que ainda falta para garantir um atendimento mais completo?<br>Hermes Andrade:<\/strong> Falta gente disposta a doar tempo. Todo mundo acha bonito, mas ningu\u00e9m quer assumir compromisso. Essa \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o mais rara que temos.<\/p>\n\n\n\n<p>Interessados em visitar os idosos ou realizar doa\u00e7\u00f5es podem se dirigir ao Abrigo Lar Terceira Idade, localizado na Rua 28, n\u00ba 46A, no bairro Conveima, em Vit\u00f3ria da Conquista, Bahia. Toda ajuda \u00e9 bem vinda e faz diferen\u00e7a na vida dos que ir\u00e3o receber!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, envelhecer com dignidade ainda \u00e9 privil\u00e9gio. A realidade das institui\u00e7\u00f5es de longa perman\u00eancia mostra que muitos idosos enfrentam abandono, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas e car\u00eancia de recursos. Em Vit\u00f3ria da Conquista, no sudoeste baiano, o Abrigo Lar Terceira Idade sobrevive entre doa\u00e7\u00f5es, afetos e esfor\u00e7os silenciosos de quem transforma cuidado em miss\u00e3o. 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