{"id":339,"date":"2018-09-26T10:10:56","date_gmt":"2018-09-26T13:10:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=339"},"modified":"2018-09-26T10:33:00","modified_gmt":"2018-09-26T13:33:00","slug":"os-opostos-nao-se-atraem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=339","title":{"rendered":"Os opostos n\u00e3o se atraem"},"content":{"rendered":"<p>No Brasil, h\u00e1 v\u00e1rios fatores que dificultam o debate pol\u00edtico virtuoso na internet. Entretanto, aqui consideraremos os tr\u00eas mais proeminentes ao meu ver: as bolhas sociais; as <em>fake news<\/em> e as torcidas organizadas dos times de Coxinhas e de Petralhas que se alvoro\u00e7am na web. H\u00e1 mais pontos, sem sombra de d\u00favidas. Por\u00e9m, os aqui citados s\u00e3o os mais gritantes no meio cibern\u00e9tico, sobretudo nas redes sociais.<\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea esteja lendo esse texto porque est\u00e1 em uma bolha social. Sim. A verdade \u00e9 que vivemos, quase sempre, sendo agraciados por onde navegamos com assuntos que nos s\u00e3o interessantes e que, geralmente, nunca ser\u00e3o contraditos. A regra \u00e9 voc\u00ea navegar com o maior conforto poss\u00edvel, \u00e9 ter contato com pessoas que pensam como voc\u00ea e que agem de maneiras parecidas diante das mais diversas ocasi\u00f5es da vida, inclusive na hora do voto. A ideia \u00e9 de uma navega\u00e7\u00e3o em mar calmo, de um ambiente sem, ou com pouca, oposi\u00e7\u00e3o. Contudo, isso deve ser repensado.<\/p>\n<p>Se somos na maioria das vezes contemplados na rede, isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque todas nossas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o filtradas por algoritmos. Essa linguagem dos computadores, grosso modo, s\u00e3o sequ\u00eancias l\u00f3gicas de informa\u00e7\u00f5es programadas que ditam para as m\u00e1quinas quais tarefas executarem. Nas redes sociais, por exemplo, como o Facebook, isso \u00e9 utilizado para filtrar todo conte\u00fado que postamos e que nossos amigos tamb\u00e9m postam. Se certas postagens n\u00e3o aparecem em nossos feeds, se certos memes, not\u00edcias, v\u00eddeos, etc., n\u00e3o s\u00e3o exibidos para n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Significa que, por julgamento dessa filtragem, aquilo que n\u00e3o \u00e9 mostrado para n\u00f3s \u00e9 exatamente aquilo que n\u00e3o queremos ver ou ouvir.<\/p>\n<p>Forma-se, dessa maneira, uma enorme bolha com pessoas reafirmando suas convic\u00e7\u00f5es nas mesmas fontes e as compartilhando com outras pessoas que simpatizam com as mesmas posi\u00e7\u00f5es. Uma avalanche de mesmices. Isso \u00e9 desinteressante para a constru\u00e7\u00e3o de debates, n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edticos. Tudo \u00e9 fragmentado e polarizado. N\u00e3o h\u00e1 opositores com ideias maduras e firmes, h\u00e1 inimigos. As discuss\u00f5es se resumem, na maioria das vezes, em querer ditar quem \u00e9 Coxinha ou Petralha, se \u00e9 Bolsonaro ou Lula, se \u00e9 lado A ou B. Um caos que n\u00e3o permite que os olhares se guiem para outras an\u00e1lises. \u00c9 como um cercado de pessoas que veem, ouvem e conversam sobre aquilo que concordam, com poucas possibilidades de encontrar o novo, algo que pudesse provocar uma mudan\u00e7a de opini\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o para por a\u00ed. No turbilh\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es que \u00e9 jogado na internet, surgem muitas coloca\u00e7\u00f5es falsas que afetam o meio pol\u00edtico. \u00c9 bastante temeroso que pessoas em um pa\u00eds passem a validar suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com base em not\u00edcias falsas e tendenciosas. Mas isso \u00e9 poss\u00edvel e prov\u00e1vel que j\u00e1 aconte\u00e7a. O cen\u00e1rio passa a ser tomado pelas <em>fake news<\/em>. E se as <em>fake news<\/em> oferecem riscos para a pol\u00edtica, isso se intensifica em ano de elei\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso de 2018.<\/p>\n<p>Traduzido do ingl\u00eas, de maneira literal, <em>fake news <\/em>significa not\u00edcias falsas. A maior aten\u00e7\u00e3o sobre esse assunto surgiu ap\u00f3s as pol\u00eamicas elei\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, em que houve a alega\u00e7\u00e3o de que not\u00edcias com inverdades teriam colaborado com a vit\u00f3ria do presidente Donald Trump, em 2016. Mas sabemos que as not\u00edcias falsas existem h\u00e1 tempos. A propaga\u00e7\u00e3o de mentiras n\u00e3o \u00e9 algo novo. Logo, \u00e9 preciso situar o termo no contexto em que vivemos. N\u00e3o s\u00e3o apenas not\u00edcias falsas, s\u00e3o inverdades propagadas em um meio de dif\u00edcil sele\u00e7\u00e3o que podem influenciar diretamente a opini\u00e3o p\u00fablica. Se considerarmos essa r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o dentro de bolhas sociais, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a democracia estar\u00e1 em risco constante e infindo.<\/p>\n<p>No Brasil, em meio a uma crise pol\u00edtica e a polariza\u00e7\u00e3o de ideologias, os extremos se alvoro\u00e7am. As not\u00edcias se espalham como muita facilidade, inclusive as falsas. Por isso podem ser perigosas, pois os eleitores n\u00e3o encontrar\u00e3o aporte de informa\u00e7\u00f5es claras sobre o cen\u00e1rio pol\u00edtico e seus acontecimentos.<\/p>\n<p>Manchetes do tipo: \u201cUrgente: juiz S\u00e9rgio Moro recebe amea\u00e7a ap\u00f3s condenar Lula e militares v\u00e3o agir, confira!\u201d, \u201cPetista se suicidou ao saber de condena\u00e7\u00e3o de Lula\u201d, \u201cV\u00eddeo mostra Marielle \u2018defendendo bandido\u2019\u201d, \u201cMarielle foi casada com o traficante Marcinho VP\u201d, \u201cJair Bolsonaro criou projeto que prev\u00ea o Fim Do IPVA\u201d, \u201cXuxa declara apoio a Jair Bolsonaro no Twitter\u201d,\u00a0 s\u00e3o todas manchetes inventadas, carregadas de inverdades, que tomaram as redes sociais no Brasil nesse per\u00edodo. Todas representam um desservi\u00e7o \u00e0 democracia, visto que cada indiv\u00edduo pode exercer seu poder pol\u00edtico. Entretanto, se baseado em informa\u00e7\u00f5es falsas, grande parte desse direito ser\u00e1 lesado.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que investigar casos de <em>fake news<\/em> n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil. Chegar aos autores das publica\u00e7\u00f5es falsas \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua, inclusive quando esses autores s\u00e3o rob\u00f4s (os bots) programados para varrerem as redes. Mesmo assim, prov\u00e1vel que, pelo caminho \u00f3bvio, surja a suposi\u00e7\u00e3o de que a falta de firmeza nas leis que regem o mundo cibern\u00e9tico seja o grande problema. Todavia, \u00e9 muito arriscado esse caminho, pois a criminaliza\u00e7\u00e3o poderia ser irregular.<\/p>\n<p>Mais perigoso do que a dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas seria permitir que novas legisla\u00e7\u00f5es sejam criadas para controlar a publica\u00e7\u00e3o de conte\u00fado na internet, o que pode fazer do meio um solo f\u00e9rtil para o renascimento da censura no Brasil. Interferir no direito de liberdade de express\u00e3o n\u00e3o \u00e9, com toda certeza, o caminho. O objetivo n\u00e3o \u00e9 calar as vozes, mas fazer com que as vozes propaguem discursos que fortale\u00e7am o debate pol\u00edtico.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar de controle Estatal na internet, um espa\u00e7o democr\u00e1tico, em um pa\u00eds que o presidente, para conseguir seu atual cargo, precisou retirar a todo custo o posto de uma mulher eleita pelo povo, democraticamente. Um <em>impeachment<\/em> orquestrado (orquestra de instrumentos desafinados) com a justificativa das pedaladas fiscais. O intuito aqui, contudo, n\u00e3o \u00e9 defender o governo de Dilma Rousseff . Muito al\u00e9m disso, \u00e9 dizer que tamb\u00e9m n\u00e3o foi um mandato satisfat\u00f3rio, com muitas falhas, mas que nada justifica o fim que teve. Muito al\u00e9m, \u00e9 abrir espa\u00e7o para as discuss\u00f5es com ideias opostas, n\u00e3o s\u00f3 de dois lados, que corroborem com a democracia no pa\u00eds em que vivemos. \u00c9 dizer que temos as elei\u00e7\u00f5es de 2018 j\u00e1 por perto e que precisamos olhar para o redor e interagirmos com as diferen\u00e7as, desconsiderarmos aquilo que fere os direitos humanos e que nos calam, enxergarmos as minorias e abrir espa\u00e7os para que tenham tamb\u00e9m voz, tudo isso sem a inseguran\u00e7a causada pelas <em>fake news<\/em>. \u00c9 dizer que n\u00e3o precisamos do autoritarismo nos rondando, esperando a oportunidade para derrubar nossas posi\u00e7\u00f5es (e que derrubaria esse texto).<\/p>\n<p>Mesmo que o controle das <em>fake news<\/em> seja quase imposs\u00edvel, temos que concordar que, com o grande n\u00famero de informa\u00e7\u00f5es que nos \u00e9 passado, torna-se dif\u00edcil tamb\u00e9m a leitura com mais zelo e uma reflex\u00e3o posterior do que foi lido. Tendo isso em vista, o pr\u00f3prio Facebook, com apoio da institui\u00e7\u00e3o de ensino Mackenzie, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) e do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, criou uma lista com 10 dicas que auxiliam na identifica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas e a disponibiliza para os seus usu\u00e1rios. As dicas s\u00e3o as seguintes: 1) Seja c\u00e9tico com as manchetes; 2) Olhe atentamente para a URL; 3) Investigue a fonte; 4) Fique atento \u00e0s informa\u00e7\u00f5es incomuns; 5) Considere as fotos; 6) Confira as datas; 7) Verifique as evid\u00eancias; 8) Busque outras reportagens; 9) A hist\u00f3ria \u00e9 uma farsa ou \u00e9 uma brincadeira? e 10) Algumas hist\u00f3rias s\u00e3o intencionalmente falsas. S\u00e3o estes dez pontos relevantes para ao menos diminuir a repercuss\u00e3o de inverdades.<\/p>\n<p>Ainda que a culpa n\u00e3o seja de n\u00f3s usu\u00e1rios, \u00e9 preciso nos munirmos uma vez cientes dessa problem\u00e1tica. Mudar o nosso comportamento e adotar novas pr\u00e1ticas diante esse cen\u00e1rio pol\u00edtico deve ser prioridade para que possamos usufruir do nosso direito, dentro de uma democracia, da maneira mais proveitosa poss\u00edvel. Entender que n\u00e3o existe apenas os lados A ou B, que a discuss\u00e3o de Coxinhas e Petralhas \u00e9 desnecess\u00e1ria e s\u00f3 colabora para os discursos de \u00f3dio, que os conte\u00fados na internet s\u00e3o filtrados. E enfim, construir de fato um espa\u00e7o p\u00fablico em que temas de diversos interesses sejam debatidos com liberdade. Na situa\u00e7\u00e3o que estamos, polarizados, as torcidas s\u00f3 fazem deixar vencer o autoritarismo, coisa que n\u00e3o rima com democracia e que nunca rimar\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, h\u00e1 v\u00e1rios fatores que dificultam o debate pol\u00edtico virtuoso na internet. Entretanto, aqui consideraremos os tr\u00eas mais proeminentes ao meu ver: as bolhas sociais; as fake news e as torcidas organizadas dos times de Coxinhas e de Petralhas que se alvoro\u00e7am na web. H\u00e1 mais pontos, sem sombra de d\u00favidas. 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