{"id":3511,"date":"2026-01-09T08:39:39","date_gmt":"2026-01-09T11:39:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3511"},"modified":"2026-01-09T08:39:39","modified_gmt":"2026-01-09T11:39:39","slug":"aliancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3511","title":{"rendered":"Alian\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, me mudei para uma linda casinha antiga, que fica no segundo andar, em um bairro afastado, que tem uma linda paisagem. Apesar de estar dentro da cidade, o lugar tem ar campestre. \u00c9 arborizado com pinheiros e todas as casas possuem enormes quintais, e cada quintal \u00e9 decorado \u00e0 maneira do morador, alguns antecipadamente j\u00e1 arranjados para o Natal, com luzes, \u00e1rvores e bolinhas de diversas cores.<br>Como uma amante fervorosa de mel que sou, n\u00e3o pude deixar de notar uma \u201ccasa do mel\u201d naquela rua, principalmente pela sua delicada apar\u00eancia. Eu j\u00e1 a havia visitado. Pertence \u00e0 Senhora Elisabete que, em uma de nossas curtas conversas, me disse que era uma apicultora h\u00e1 muitos anos, produz o mel como um hobby, j\u00e1 que o dinheiro n\u00e3o faz falta, embora precise vender para ter mais espa\u00e7o.<br>Mas h\u00e1 muitos dias, nas tardes em que aproveito para passar em sua loja, venho notando que Dona Elisabete costuma escrever cartas, deixando uma marca de batom, um selo feito de cera de abelha e um pequeno vidrinho de mel amarrado junto ao envelope. Sei disso porque j\u00e1 a vi muitas vezes com o sinete quente enquanto selava a carta, passando seu batom e beijando o papel suavemente. Sempre tive medo dela se queimar, mas n\u00e3o parecia que era um costume recente. Em uma dessas vezes, observei que no balc\u00e3o havia um retrato de duas jovens. Uma delas claramente era Elisabete. Apesar da idade, dava para ver que ela teve a sorte de envelhecer muito bem. Mas o que me chamou aten\u00e7\u00e3o mesmo era que a casa onde eu morava aparecia ao fundo da foto, com as mesmas flores, pedras na faixada e grandes janelas, ornamentadas e douradas.<br>Dias se passaram e j\u00e1 n\u00e3o era mais novidade aquele costume, mas me surpreendia a sua pontualidade. Todos os dias, \u00e0s quatro da tarde, Elisabete j\u00e1 estava selando suas palavras com tanto amor. Nesse tempo, eu j\u00e1 havia comprado muitas coisas na sua lojinha: mel, p\u00e3es de mel, ch\u00e1s ado\u00e7ados e outros derivados. Eu sempre admirava as embalagens, com recados escritos a m\u00e3o, muito bem escritos. E todas as etiquetas tinham um desenho de uma linda caixinha igual \u00e0 que havia em minha casa, mas nunca a abri.<br>Mas n\u00e3o me contive de tanta curiosidade, peguei a pequena caixinha perolada e levei para aquela senhora. Ela arregalou os olhos marejados com muita surpresa e me abra\u00e7ou, um abra\u00e7o apertado, dolorido, nost\u00e1lgico. Mas que n\u00e3o durou mais que um minuto, pois ela estava mais ansiosa para abrir aquela pequena mem\u00f3ria, que estava h\u00e1 muito tempo empoeirada. Ao abrir, descobri que aquela caixa guardava uma \u00fanica alian\u00e7a, simples e dourada, uma rosa ressecada pelo tempo, um vidrinho de mel e uma carta claramente fechada por Elisabete, apesar de estar aberta e com um enorme &#8220;sim\u201d no fecho do envelope.<br>\u201cEra um amor visceral, mas por muito tempo me escondi no medo\u201d, solu\u00e7ou minha mais nova amiga. \u201cPedi a ela que fugisse comigo, sempre h\u00e1 algum lugar, um lugar onde os dias poderiam ser mais tranquilos.\u201d. Depois de horas ela me explicou que sua \u201camiga\u201d vivia na mesma casa que eu, tocava piano lindamente, cheirava a mel e a jasmin pois Elisabete entendia de alta perfumaria e fazia quest\u00e3o de deixar aquela mulher a mais cheirosa poss\u00edvel. \u201cMas dona Elisabete, por que n\u00e3o ficaram juntas? Os tempos mudaram.\u201d, questionei. \u201cE n\u00f3s ficamos, mas nunca tivemos a oportunidade de nos casar\u201d, respondeu.<br>Ela me explicou sobre seu amor, explicou que em uma noite havia lhe entregue a caixinha, mas Lilian, sua amada, estava muito fraca para sair l\u00e1 fora, ent\u00e3o ela entrou e deixou ao lado do seu leito, mas nunca imaginaria que ela teria for\u00e7as para aceitar o tal \u201cpedido\u201d. \u201cTodos os dias eu escrevo cartas, todas para ela, pois me for\u00e7ava acreditar que de algum jeito, seja l\u00e1 onde esteja, eu iria receber um sinal\u2026 E eu recebi, recebi meu sinal\u201d, sorriu. Colocou a outra alian\u00e7a e guardou sua caixinha, me agradeceu e muito. Me aconselhou, disse que o medo \u00e9 o pior inimigo em vida. Agora Elisabete faz aulas de piano, pois acredita que a m\u00fasica leva mensagens. Ela me deu respostas para o que eu nunca havia lhe questionado. Nunca entendi o que me levou a morar naquela casa, mas respostas v\u00eam com o tempo, era o que Elisabete dizia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, me mudei para uma linda casinha antiga, que fica no segundo andar, em um bairro afastado, que tem uma linda paisagem. 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