{"id":3521,"date":"2026-01-09T08:47:43","date_gmt":"2026-01-09T11:47:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3521"},"modified":"2026-01-09T08:47:44","modified_gmt":"2026-01-09T11:47:44","slug":"indagacoes-noturnas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3521","title":{"rendered":"Indaga\u00e7\u00f5es Noturnas"},"content":{"rendered":"\n<p>Sou a \u00faltima pessoa acordada do pronto-socorro. Sempre sou. Entre bipes de m\u00e1quinas respirat\u00f3rias e o corre-corre dos enfermeiros para colocar rem\u00e9dios nas veias dos pacientes, reflito sobre quem eu sou, ou quem eu era antes de estar aqui. \u00c9 estranho como quando estamos no hospital simplesmente paramos. Paramos de nos preocupar com prazos, trabalhos, com o sup\u00e9rfluo, preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas e indaga\u00e7\u00f5es noturnas. Meus amigos andam preocupados comigo, dizem que lembram dos meus gestos, piadas e sentem minha falta, tamb\u00e9m sinto a deles. Tento n\u00e3o ficar muito no celular para n\u00e3o me lembrar dos bons momentos e ficar ainda mais deprimida do que j\u00e1 estou. A enfermeira das tr\u00eas da manh\u00e3 acabou de entrar no quarto, disse que iria colocar doses de Dipirona, Plasil e dois antibi\u00f3ticos. Meu acesso do bra\u00e7o esquerdo d\u00f3i a cada rem\u00e9dio colocado em minha veia, fecho os olhos e logo a dor passa. Olho para frente e vejo minha m\u00e3e cochilando na cadeira de pl\u00e1stico a minha frente, o hospital est\u00e1 em falta de poltronas e at\u00e9 mesmo leitos para os pacientes. Sei que ao menor ru\u00eddo ela vai acordar e perguntar se preciso de algo depois de 18 anos criando uma independ\u00eancia, de repente, aos 19, volto a ser uma crian\u00e7a que precisa da m\u00e3e, de ajuda para levantar, para ir ao banheiro, e at\u00e9 para comer j\u00e1 que meu bra\u00e7o n\u00e3o pode ser dobrado por conta do acesso \u00e0 veia, instalado para o gotejamento do soro e os demais rem\u00e9dios<br>O dia amanhece e os passos dos enfermeiros e m\u00e9dicos aumentam por todo o recinto. Len\u00e7\u00f3is demoram a chegar por estarem em n\u00famero reduzido. A sa\u00fade da cidade anda prec\u00e1ria, e a verba parece que nunca chega. Doentes pelos corredores, falta de instrumentos de trabalho para m\u00e9dicos e enfermeiros, poucos m\u00e9dicos para operar, tudo ruindo ao nosso redor. Finalmente o m\u00e9dico do dia chega, bate na minha barriga, faz as mesmas perguntas de todos os dias e sai orgulhoso, passei tanto tempo aqui que esse m\u00e9dico se tornou um amigo, fazemos piadas e toques de m\u00e3os, vou me lembrar disso quando deixar este lugar. O carrinho de caf\u00e9 da manh\u00e3 aponta no fim do corredor, e logo me preparo para receber de bom grado o pouco de comida que \u00e9 ofertado para os pacientes. Tem uma mulher do leito que fica a minha frente que sofre de diabetes e recebe o mesmo tipo de caf\u00e9 da manh\u00e3 que todos. Ela n\u00e3o recebe nenhum tipo de aten\u00e7\u00e3o dada a sua condi\u00e7\u00e3o, e por isso, sofre com o aumento de glicose e passa mal. Tudo aqui \u00e9 t\u00e3o decadente, e n\u00e3o h\u00e1 o m\u00ednimo de respeito com a pessoa que est\u00e1 enferma.<br>Me preparo para minha caminhada matinal habitual, e vejo o senhorzinho que todos os dias faz o mesmo exerc\u00edcio que eu, sentado nas cadeiras perto da passarela. Ele est\u00e1 aqui h\u00e1 semanas e n\u00e3o tem previs\u00e3o nenhuma de quando vai ser operado da ves\u00edcula. Estive pensando sobre como o tempo dentro do hospital parece ser a coisa mais importante, tirando a pr\u00f3pria sa\u00fade. Quantos dias para sair, quando vai operar, a hora das refei\u00e7\u00f5es e rem\u00e9dios e o anseio pelo t\u00e9rmino do dia, para ent\u00e3o come\u00e7ar tudo de novo, como sempre. Acho que as horas mais longas para mim s\u00e3o quando minha m\u00e3e vai para casa trocar de roupa e pegar umas coisas. S\u00e3o apenas duas horas, mas parece que s\u00e3o as horas mais solit\u00e1rias e sofridas do dia. Me sinto t\u00e3o sozinha, tento me distrair com palavras cruzadas, livros e m\u00fasicas, mas tudo o que eu quero \u00e9 sair daqui. Olho para a janela e escuto o som de carros, pessoas conversando e a cidade viva. Me sinto morta. Penso nas coisas que vou fazer quando estiver l\u00e1 fora, e nas que vou deixar de fazer, mas tudo parece t\u00e3o distante\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou a \u00faltima pessoa acordada do pronto-socorro. Sempre sou. Entre bipes de m\u00e1quinas respirat\u00f3rias e o corre-corre dos enfermeiros para colocar rem\u00e9dios nas veias dos pacientes, reflito sobre quem eu sou, ou quem eu era antes de estar aqui. \u00c9 estranho como quando estamos no hospital simplesmente paramos. 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