{"id":3569,"date":"2026-01-11T20:02:35","date_gmt":"2026-01-11T23:02:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3569"},"modified":"2026-01-11T20:02:37","modified_gmt":"2026-01-11T23:02:37","slug":"sobre-o-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3569","title":{"rendered":"Sobre o nada"},"content":{"rendered":"\n<p>Nunca soube como terminar as coisas, e francamente, acredito que as coisas nunca souberam como terminar para mim. Vivo absorto em uma espiral de acontecimentos j\u00e1 acontecidos, ofuscado do tempo presente, e por consequ\u00eancia, dos acontecimentos que, de fato, acontecem. Confesso, \u00e0s vezes, ainda me questionar se os \u201cacontecimentos j\u00e1 acontecidos\u201d s\u00e3o, de fato, acontecimentos. Ora, acontecimentos n\u00e3o s\u00e3o o que te factualmente acontece? E se minhas mem\u00f3rias, movidas por inten\u00e7\u00e3o, forem produto do meu imagin\u00e1rio? N\u00e3o basta pensar estar rico para se comprar o mundo, ent\u00e3o do que vale dizer que minhas interpreta\u00e7\u00f5es dos acontecimentos s\u00e3o o suficiente para afirmar que aquilo realmente me aconteceu? E se nada tiver acontecido, o que irei escrever? Quem serei? Agora, enquanto escrevo, contento-me em ser o momento. Mas, e amanh\u00e3 quando o momento j\u00e1 tiver passado, quem serei? Que garantia tenho de que ter\u00e1 um outro momento para eu ser, no dia seguinte? Os acontecimentos j\u00e1 acontecidos, turvos por minhas mem\u00f3rias? Bobagem. J\u00e1 que n\u00e3o sei de nada do meu passado, n\u00e3o tenho como discernir o meu futuro. Estou atordoado pelo presente, que nunca termina, mesmo porque, quando penso nele, s\u00f3 consigo expressar seus \u201cacontecimentos\u201d pelo que j\u00e1 passou.<br>Por isso, acho a arte de se concluir algo um processo muito ingrato, j\u00e1 que se torna imposs\u00edvel para mim registrar algo que simplesmente n\u00e3o consigo compreender em completude. Talvez o problema n\u00e3o seja o presente, nem seus acontecimentos indescrit\u00edveis, e sim, minha pr\u00f3pria soberba como aspirante cronista, j\u00e1 que por pensar demais em cotidianos que pudesse escrever, seja nos tempos de quando era garoto, nas frustra\u00e7\u00f5es que carrego comigo e por mim ou na mancha de caf\u00e9 que derramei em minha mesa ontem e que covardemente tive pregui\u00e7a de ir limpar, ofusco a real beleza de se encontrar e come\u00e7ar a narrar um acontecimento de verdade: um acontecimento gordo, roli\u00e7o, grande! Um acontecimento daqueles que ainda est\u00e1 acontecendo, que j\u00e1 aconteceu antes e que todos sabem que vai acontecer de novo.<br>Mas que garantia eu tenho de que foi um acontecimento t\u00e3o bem acontecido? Fui, h\u00e1 dias, em uma festa, encontrar amigos que n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. Trocamos risadas, suor, l\u00e1grimas, comemos bolo, falamos mal uns dos outros e ainda assim tivemos um \u00f3timo momento. Em volta de mim, se escutava tudo que se pode esperar ouvir em uma festa ao mesmo tempo. Acho que a saudade que sentia me fez sentir como se aquele fosse o acontecimento mais acontecido de minha vida! Mas, enquanto cogitava se escreveria ou n\u00e3o a respeito, me desanimei. \u201cO bolo nem era t\u00e3o bom!\u201d, pensei. \u201cN\u00e3o houve reviravoltas marcantes!\u201d, refleti. \u201cA camisa que estava usando era muito feia!\u201d, constatei. Lembrei-me tamb\u00e9m da vez que beijei minha garota pela terceira vez. Como me esquecer daquela noite escura? Da rua de pedrinhas cintilantes? Da brisa suave, do gosto \u00e1cido, por\u00e9m adocicado que senti correr a garganta logo antes de seu beijo? Da euforia t\u00edmida, quase neutra, que corro\u00eda meu peito. Por\u00e9m, logo tamb\u00e9m me desanimei. \u201cMuito sentimentalismo!\u201d, afirmei. \u201csentimentalismo de menos!\u201d, garanti. \u201cSeria sequer sentimental?\u201d Questionei, enquanto apagava os meus rascunhos e voltava para uma folha em branco, na qual n\u00e3o havia de ter conclu\u00eddo nada.<br>Francamente, como aspirante a cronista, sinto que n\u00e3o tenho cotidiano para contar. Sempre fui t\u00edmido demais, inseguro demais, questionador demais, e agora questionei tanto que nem sei ao menos o que de fato me aconteceu, ou pior, o que \u00e9 acontecimento acontecido, acontecendo, ou que acontecer\u00e1. Queria escrever sobre o passado, me frustrei. Pensei em escrever sobre o futuro, e n\u00e3o encontrei nada. No fim, s\u00f3 me resta escrever sobre o presente, ent\u00e3o, timidamente afirmo, aqui vai o melhor que tenho: eu escrevo sobre escrever. Escrevo sobre o porqu\u00ea do que eu escrevo n\u00e3o ser t\u00e3o bem escrito assim, escrevo como um pintor que pinta a si pintando um quadro j\u00e1 pintado, ou, em outras palavras, o suprassumo da falta de originalidade. Preencho uma lauda com o nada, exceto d\u00favidas que n\u00e3o saberei como responder e com cicatrizes de apag\u00f5es e falhas que admito em uma expectativa quase que infantil de entreter um p\u00fablico provavelmente j\u00e1 cansado pela aus\u00eancia de conte\u00fado em meus per\u00edodos. Agora, encaro atrav\u00e9s dos meus per\u00edodos com um olhar t\u00e3o confuso quanto o de quem est\u00e1 tentando buscar sentido neles, e me frustro por lembrar que a rude mancha do caf\u00e9 que derramei ainda est\u00e1 aqui. Nunca soube como terminar as coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca soube como terminar as coisas, e francamente, acredito que as coisas nunca souberam como terminar para mim. Vivo absorto em uma espiral de acontecimentos j\u00e1 acontecidos, ofuscado do tempo presente, e por consequ\u00eancia, dos acontecimentos que, de fato, acontecem. Confesso, \u00e0s vezes, ainda me questionar se os \u201cacontecimentos j\u00e1 acontecidos\u201d s\u00e3o, de fato, acontecimentos. 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