{"id":357,"date":"2018-09-25T20:59:29","date_gmt":"2018-09-25T23:59:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=357"},"modified":"2018-09-25T20:59:29","modified_gmt":"2018-09-25T23:59:29","slug":"quando-o-medo-veio-na-sua-mala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=357","title":{"rendered":"Quando o medo veio na sua mala"},"content":{"rendered":"<p>A vida \u00e9 engra\u00e7ada. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que lhe espera ao virar uma esquina, pois n\u00e3o temos como premeditar o que de fato acontecer\u00e1. Se pensarmos em um espet\u00e1culo teatral, veremos que, mesmo com ensaios, na hora do ato, tudo pode mudar. Se ela soubesse que a decis\u00e3o de n\u00e3o morar com a av\u00f3 fosse mudar sua vida e de suas meninas, provavelmente, n\u00e3o teria feito as escolhas que fizera. Ao incentivar a mudan\u00e7a delas da casa da av\u00f3 para o s\u00edtio com um homem que se dizia maravilhoso, mal sabia que passaria por tr\u00eas anos de puro medo.<\/p>\n<p>O medo \u00e9 outra coisa engra\u00e7ada. Certa vez, um amigo lhe dissera que o medo \u00e9 produzido por uma parte do c\u00e9rebro chamada de am\u00edgdala e que, se retir\u00e1ssemos essa parte, n\u00e3o sentir\u00edamos medo. Esse era o desejo dela: parar de sentir. Quando se sente, pode-se colocar no lugar do outro e, assim, acaba por tomar dores que n\u00e3o lhe cabem ou que lhe cabem at\u00e9 demais.<\/p>\n<p>Quando se trata do medo, alguns sentem de altura \u2013 esse que por bastante tempo considerou como o dela \u2013 alguns sentem por ratos, aranhas, cobras, e afins. Mas o que ela descobriu nesses \u00faltimos tr\u00eas anos, foi o medo que se tem de algu\u00e9m. Esse de longe \u00e9 um dos piores. Um respirar diferente ou um agir diferente, qualquer m\u00ednima coisa que incite sequer uma fa\u00edsca de raiva nele, alimenta o medo dela, que se treme do dedinho do p\u00e9 ao \u00faltimo fio do cabelo.<\/p>\n<p>O come\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o foi muito bom. O medo n\u00e3o se mostra logo de cara, ele chega aos poucos, revelando-se nas pequenas coisas. Vai pedindo desculpas pelos trope\u00e7os e empurr\u00f5es, pelos pequenos epis\u00f3dios que podem ser tratados como normais. At\u00e9 que um belo dia o homem que se fazia de simp\u00e1tico e carinhoso, bate. Humilha. Grita. Tudo feito com a mais perfeita naturalidade. N\u00e3o h\u00e1 desculpas, mas ele trata como se o que mais existisse no mundo fossem desculpas, as mais banais poss\u00edveis. Foi assim que ele chegou.<\/p>\n<p>Ah! E para os de fora? As pessoas que n\u00e3o residem com o medo? Ele \u00e9, na verdade, seguran\u00e7a. A mais bondosa alma, que cuida, alimenta e traz felicidade. S\u00f3 veem a parte em que o medo se veste de bom marido e pai, bom homem e frequentador da igreja. E foi assim que o medo se instalou, trouxe seus pertences e ficou. Achando pouco, ainda amea\u00e7ou dizendo que, se sa\u00edsse, levaria tudo de bom que ali estava, come\u00e7ando pelo bem-estar. O mesmo bem-estar que ela j\u00e1 n\u00e3o mais sentia, e pior, n\u00e3o queria sentir. O medo fez com que ela mudasse h\u00e1bitos e desejos.<\/p>\n<p>Seria bom dizer que o medo foi embora e que a deixou em paz; que ela est\u00e1 bem porque foi forte e foi porto seguro para as suas meninas; que a ferida que foi aberta se fechou; que o trauma est\u00e1 sendo trabalhado; que as coisas ruins que ele trouxe em sua mala foram embora com ele para nunca mais voltarem. Mas seria muita ingenuidade, algo que ela perdera h\u00e1 muito tempo. A esperan\u00e7a tamb\u00e9m se faz quase inexistente, pois o medo ainda dorme ao seu lado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida \u00e9 engra\u00e7ada. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que lhe espera ao virar uma esquina, pois n\u00e3o temos como premeditar o que de fato acontecer\u00e1. Se pensarmos em um espet\u00e1culo teatral, veremos que, mesmo com ensaios, na hora do ato, tudo pode mudar. 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