{"id":3572,"date":"2026-01-11T20:03:52","date_gmt":"2026-01-11T23:03:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3572"},"modified":"2026-01-11T20:03:53","modified_gmt":"2026-01-11T23:03:53","slug":"o-esquecimento-e-um-ladrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3572","title":{"rendered":"O esquecimento \u00e9 um ladr\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Abigail Maria, \u00e9 assim que ela se chama. Desde nova, sua alma me contagia. Quem por ali passou, guarda na mem\u00f3ria a suavidade da sua risada e a simplicidade com que enxergava a vida. Para ela, o tempo nunca foi inimigo. Sempre existiu a urgente e preciosa vontade de viver. Nunca me poupou hist\u00f3rias da sua inf\u00e2ncia em Ilh\u00e9us, das viagens, do momento em que conquistou o Sr. Antonio Fernandes, ent\u00e3o presidente do Instituto do Cacau, homem que eu, por triste ironia, jamais conheci. Foi por ela que a praia se tornou meu ref\u00fagio favorito. Seu passado me traz a saudade de algo que nem sequer cheguei a viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, vivi um pouco, de certo modo. Lembro-me das viagens na inf\u00e2ncia, dos nossos natais em Salvador, quando a insist\u00eancia dela ecoava. \u201cVolte para o carnaval\u201d, pedia ela. \u201cSe seu pai n\u00e3o quiser lhe trazer, se enfie dentro do \u00f4nibus. A gente te busca na rodovi\u00e1ria\u201d, ela dizia ignorando que eu era uma crian\u00e7a de seis anos. Naquela casa de tr\u00eas pessoas, um cachorro e uma gata, o final do ano ganhava dimens\u00e3o pr\u00f3pria com a chegada da fam\u00edlia. Muitos nem mesmo se gostavam, mas sua energia nos juntava em um prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu jeito \u00e9 \u00fanico, seu tempo, singular. Todas as vezes em que ela assumia o almo\u00e7o, se tornava janta. Ligava a sua vitrola e girava-se dan\u00e7ando no meio da cozinha, fazendo o cheiro da comida encontrar o ritmo dos seus passos. Almo\u00e7\u00e1vamos \u00e0s cinco da tarde. Hoje, gostaria de repetir esse ritual, s\u00f3 para sentir esse desejo de viver pulsando em seu corpo outra vez. Sua idade n\u00e3o lhe pesava, sa\u00eda pelo centro da cidade, sempre querendo resolver tudo sozinha. Se deixasse, pulava o carnaval inteiro. Embora firme em suas cr\u00edticas, talvez seja a pessoa mais velha com a mente mais livre que j\u00e1 conheci. J\u00e1 n\u00e3o me recordo o \u00faltimo Natal passado ali. O cachorro e a gata j\u00e1 se foram. Naquela casa, ainda habitam tr\u00eas pessoas. Dif\u00edcil mesmo \u00e9 deix\u00e1-la cheia de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Abigail Maria, \u00e9 assim que se chama a minha av\u00f3 paterna. Os tr\u00eas naquela casa eram ela, minha tia e meu primo. Sr. Antonio \u00e9 meu av\u00f4 que partiu bem antes que eu chegasse ao mundo. Hoje, a diabetes roubou da minha av\u00f3 quase todas as lembran\u00e7as. Os rem\u00e9dios a fazem repousar quase o dia inteiro. A disposi\u00e7\u00e3o se foi, o \u00e2nimo se escondeu. J\u00e1 n\u00e3o pode mais comer o que ama. A voz da mem\u00f3ria falha. \u00c0s vezes, se esfor\u00e7a para lembrar at\u00e9 mesmo o nome dos netos. Maldito esquecimento, ladr\u00e3o cruel que roubou de n\u00f3s uma parte dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse esquecimento nos levou parte da alma. S\u00f3 restou o sil\u00eancio no lugar do riso. S\u00f3 restou o amor que preenche esse vazio. Nesse amor, guardamos o que nunca poder\u00e1 se perder. Filhos, sobrinhos e netos, que sentem saudades da Abigail Maria cheia de sede de viver. Cheia de mem\u00f3rias. Os Natais juntos se perderam no tempo. O carnaval j\u00e1 n\u00e3o tem o seu convite. Nela, existe ainda a inoc\u00eancia de que nada se perdeu. A cren\u00e7a de que tudo est\u00e1 como era um dia. A vontade de ser de novo quem j\u00e1 foi no passado. Privil\u00e9gio \u00e9 nosso de ainda t\u00ea-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abigail Maria, \u00e9 assim que ela se chama. Desde nova, sua alma me contagia. Quem por ali passou, guarda na mem\u00f3ria a suavidade da sua risada e a simplicidade com que enxergava a vida. Para ela, o tempo nunca foi inimigo. Sempre existiu a urgente e preciosa vontade de viver. 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