{"id":3620,"date":"2026-01-16T09:11:33","date_gmt":"2026-01-16T12:11:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3620"},"modified":"2026-01-16T09:11:33","modified_gmt":"2026-01-16T12:11:33","slug":"dignidade-das-pessoas-transgenero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3620","title":{"rendered":"Dignidade das pessoas transg\u00eanero"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/FOTO-EQUIPE-IGOR-SANTOS-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3621\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Maria Aparecida Agostinho, representante da diretoria da Casa Renascer. Foto: Rebecca Di Pardi\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Ao longo de 16 anos, o Brasil lidera o ranking de pa\u00edses que mais matam pessoas LGBTQIAPN+, sendo a maioria delas, pessoas transg\u00eanero. Segundo o dossi\u00ea da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram 122 mortes registradas em 2024. Na Bahia, foram 8 casos s\u00f3 no ano, mas independente da quantidade, \u00e9 inaceit\u00e1vel para a comunidade. Por\u00e9m, ainda h\u00e1 Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONGs) que acolhem essas pessoas, sendo uma delas, a Associa\u00e7\u00e3o Renascer, que fica em Vit\u00f3ria da Conquista, e tem como representante da diretoria, Maria Aparecida Agostinha. A Casa Renascer \u00e9 um espa\u00e7o seguro e de refer\u00eancia para a comunidade trans e pessoas portadoras do V\u00edrus da Imunodefici\u00eancia Humana (HIV) da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Qual sua percep\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia em existir um espa\u00e7o como a Casa Renascer, principalmente para a comunidade de mulheres trans e travestis?<br>Maria Aparecida Agostinha:<\/strong> \u00c9 de muito import\u00e2ncia porque assim, eu vejo como \u00e9 o dia a dia delas. \u00c9 muita discrimina\u00e7\u00e3o! Acolhemos todas as pessoas da comunidade. E a gente v\u00ea a tristeza de muitas vezes, n\u00e3o serem inclu\u00eddos na sociedade. E por aqui, eu tenho muita intimidade com &#8220;meus meninos&#8221;! Chamo de &#8220;viadinho&#8221;, &#8220;sapatona&#8221;. Eu chamo assim, eles t\u00eam um relacionamento muito aberto comigo! E a\u00ed, muitas das vezes, eles passam por situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 algumas travestis, que s\u00e3o portadoras do v\u00edrus HIV, outras com pouco acesso econ\u00f4mico, que n\u00e3o t\u00eam o que comer. Outras que a m\u00e3e exclui da fam\u00edlia. E a\u00ed, n\u00f3s acolhemos aqui, eu abra\u00e7o! Grande maioria s\u00e3o pessoas negras que sofrem outra discrimina\u00e7\u00e3o. E fazemos esse acolhimento, pela falta de oportunidade que essas pessoas carecem. Eu sou soropositiva a 25 anos, e quando eu descobri que eu sou soropositiva, eu fiquei muito assim, querendo saber de tudo. Fui pra internet e me informei sobre muitas coisas referente a minha condi\u00e7\u00e3o. Tanto que, naquela \u00e9poca a secretaria de sa\u00fade, havia uma ONG, o Programa de Educa\u00e7\u00e3o para a Vida (PEV) que era da Dr\u00aa Monaliza Barros, que \u00e9 psic\u00f3loga, que cuidava dessa ONG e acolhia. E a\u00ed, eu senti a necessidade de n\u00e3o deixar o projeto acabar! Mas acabou resultando pelo fim do projeto. Logo depois, juntamos uma equipe de advogados, infectologistas, bioqu\u00edmicos e usu\u00e1rios do servi\u00e7o, pois a gente n\u00e3o podia ficar sem esse local, pois tem muita gente de fora, de outras cidades, e regi\u00e3o que a gente acolhia e eu percebi que o projeto poderia acabar, que muitas pessoas ficaram sem os atendimentos da PEV. E eu senti muita necessidade de n\u00e3o deixar esse projeto morrer. N\u00f3s come\u00e7amos e fizemos todas as documenta\u00e7\u00f5es, estatuto, regime interno, CNPJ, do Conselho Municipal de Sa\u00fade de Vit\u00f3ria da Conquista, no conselho de assistencialismo e no desenvolvimento social, e fizemos as inscri\u00e7\u00f5es de muitas pessoas LGBTs e outras que passavam pela Casa! E a\u00ed, n\u00f3s estamos no aguardo desses cadastros que fizemos! Porque, muitas das vezes, elas (travestis) moram em prost\u00edbulos, tem que pagar, h\u00e1 taxas. Muitas vezes eu as vejo pelas ruas, &#8220;fazendo a vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: J\u00e1 enfrentou preconceito ou resist\u00eancia por atender majoritariamente pessoas da comunidade trans? Se sim, como lidou com isso?<br>Maria Aparecida Agostinha:<\/strong> Sim, quase todos os dias. Uma pessoa mesmo falou assim para mim: &#8220;A casa t\u00e1 cheia de viado, n\u00e9\u201d. E eu falei: &#8221; Sim, est\u00e1 cheio! Mas ainda h\u00e1 muito viado solto por a\u00ed dentro do arm\u00e1rio&#8221;. Falei pra ele, n\u00e9, porque quando a pessoa chega a falar isso, porque ele t\u00e1 escondido ainda. N\u00e3o tem coragem de mostrar a cara. Mas eu fiquei muito triste, n\u00e3o imaginava isso da pessoa. Mas eu n\u00e3o ligo, sempre fa\u00e7o meu trabalho!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Existe alguma mem\u00f3ria marcante que voc\u00ea gostaria de compartilhar?<br>Maria Aparecida Agostinha: <\/strong>Sim, envolvendo um problema de sa\u00fade. Chegou um paciente aqui que ele adquiriu HIV, atrav\u00e9s de seu parceiro, s\u00f3 que o parceiro dele tinha escondido a situa\u00e7\u00e3o. Quando ele descobriu, ele j\u00e1 estava doente da S\u00edndrome da Imunodefici\u00eancia Adquirida (AIDS) mesmo! E quando chegou aqui na casa, ele n\u00e3o conseguia nem andar. Nessa \u00e9poca, a gente acolhia pra pessoa ficar aqui na casa, hoje n\u00e3o fazemos pois, infelizmente \u00e9 muita despesa. E arranjamos um chinelinho para ele, ele estava muito doente mesmo, muito magro e sempre falava com medo que tinha certeza que iria morrer. Mas com sorte, ele est\u00e1 muito bem atualmente, se recuperou. Hoje em dia, ele \u00e9 um dos nossos volunt\u00e1rios. E eu vejo muito o carinho dele, \u00e9 muito gratificante! E hoje ele \u00e9 aposentado. Aposentou em raz\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Voc\u00ea j\u00e1 tinha liga\u00e7\u00e3o com a comunidade trans antes de abrir o espa\u00e7o?<br>Maria Aparecida Agostinha:<\/strong> Ent\u00e3o\u2026 eu comecei a ajudar pessoas LGBTs e tamb\u00e9m pessoas que vivem com HIV e AIDS porque eu entendo, sabe? Eu entendo a car\u00eancia que muitas delas t\u00eam. Falta afeto, falta oportunidade\u2026 e eu senti que podia fazer alguma coisa pra mudar isso. A\u00ed eu decidi oferecer cursos na \u00e1rea da beleza, pra que elas pudessem aprender uma profiss\u00e3o e ter uma renda. A gente v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o deles, a necessidade de trabalho, mas eu tamb\u00e9m tive que adaptar os hor\u00e1rios, porque muitas dessas pessoas se prostituem pra sobreviver, e a tarde \u00e9 o \u00fanico momento que elas t\u00eam livre. Ent\u00e3o, pensei: se \u00e9 o hor\u00e1rio que elas podem, \u00e9 o hor\u00e1rio que eu vou fazer. E sim, junto com os cursos, eles t\u00eam o dinheiro da passagem de \u00f4nibus, n\u00e9? Se eles assistirem 16 aulas em dois meses, eles t\u00eam R$ 100,00, e no final do curso, tem um sorteio de R$ 1000,00, e um kit, da oficina pra eles quando aprenderem, terem uma alternativa al\u00e9m da prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: E voc\u00ea faz esse trabalho de acolher desde quando?<br>Maria Aparecida Agostinha: <\/strong>Desde de quando eu adquiri o v\u00edrus. Em 2000, eu descobri que eu tive HIV! E a\u00ed, n\u00f3s fundamos a casa em 25\/01\/2002. Depois nessa \u00e9poca, a secretaria de sa\u00fade redirecionava a gente para congressos e a\u00ed eu fiquei representante do v\u00edrus HIV aqui de Conquista, eu fiz 4 conex\u00f5es de avi\u00e3o, o primeiro congresso que n\u00f3s fizemos foi na Para\u00edba, conheci muitas pessoas de v\u00e1rios pa\u00edses. Mas estamos caminhando, Deus cuida da gente! Tem vez que n\u00e3o temos nada, a prefeitura n\u00e3o disponibiliza uma ajuda, tudo o que temos \u00e9 de doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: Que mensagem voc\u00ea deixaria para quem nunca entrou em contato com iniciativas como a sua?<br>Maria Aparecida Agostinha: <\/strong>Eu falo que quem precisar ser acolhido, ser abra\u00e7ado. A gente abra\u00e7a a causa da pessoa. E procure a gente aqui na Rua Sinhazinha Santos, n\u00famero 347, Centro de Vit\u00f3ria da Conquista. Ou pelo Instagram &#8211; @casarenascer.vca, onde voc\u00ea pode saber como doar para a nossa Casa. Sou representante da diretoria aqui da Renascer. Fui presidente 8 vezes. Hoje \u00e9 meu esposo que \u00e9 o presidente, pois \u00e9 dif\u00edcil achar pessoas que queiram assumir a Casa.<br>Legenda:<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de 16 anos, o Brasil lidera o ranking de pa\u00edses que mais matam pessoas LGBTQIAPN+, sendo a maioria delas, pessoas transg\u00eanero. Segundo o dossi\u00ea da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram 122 mortes registradas em 2024. 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