{"id":3627,"date":"2026-01-19T22:27:06","date_gmt":"2026-01-20T01:27:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3627"},"modified":"2026-01-19T22:27:07","modified_gmt":"2026-01-20T01:27:07","slug":"o-apagamento-da-dor-e-a-espetacularizacao-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3627","title":{"rendered":"O apagamento da dor e a espetaculariza\u00e7\u00e3o do crime"},"content":{"rendered":"\n<p>A viol\u00eancia nas periferias brasileiras tem rosto, nome e endere\u00e7o. Ela est\u00e1 no olhar apreensivo de quem volta tarde do trabalho, no som das sirenes que cortam a noite, nas m\u00e3es que esperam os filhos com o cora\u00e7\u00e3o apertado. \u00c9 uma rotina marcada pelo medo e pela resist\u00eancia, na qual sobreviver j\u00e1 \u00e9 um gesto de coragem. Nessas regi\u00f5es, distantes dos centros e das prioridades do poder p\u00fablico, a desigualdade se faz presente em cada esquina. Faltam oportunidades, servi\u00e7os b\u00e1sicos, transporte digno, escolas estruturadas. O que sobra \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de abandono e a necessidade de se proteger todos os dias.<br>Em lugares como o Cap\u00e3o Redondo, na zona sul de S\u00e3o Paulo, a viol\u00eancia se tornou parte do cotidiano. <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/sudeste\/sp\/capao-redondo-lidera-maior-numero-de-roubos-registrados-em-sp-diz-ssp\/\">Segundo dados da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo, o bairro lidera o n\u00famero de roubos na capital, com mais de 2,6 mil roubos apenas em 2025.<\/a> Por tr\u00e1s das estat\u00edsticas, h\u00e1 hist\u00f3rias de vida que raramente chegam aos jornais. S\u00e3o trabalhadores que acordam antes do sol, jovens que sonham em mudar a pr\u00f3pria realidade, fam\u00edlias que constroem suas casas tijolo por tijolo, enfrentando medos que nunca deveriam fazer parte de suas rotinas.<br>No entanto, quando a m\u00eddia retrata a periferia, quase sempre \u00e9 pela lente da trag\u00e9dia. As manchetes estampam crimes, pris\u00f5es e mortes. As c\u00e2meras chegam depois do sangue no ch\u00e3o, e o notici\u00e1rio vai embora antes de ouvir quem ficou. A dor vira espet\u00e1culo, e a viol\u00eancia \u00e9 tratada como se fosse algo natural. Pouco se fala sobre o que est\u00e1 por tr\u00e1s: a aus\u00eancia do Estado, a falta de oportunidades, o racismo estrutural, a neglig\u00eancia hist\u00f3rica. A cobertura rasa transforma pessoas em estat\u00edsticas e territ\u00f3rios em sin\u00f4nimos de perigo.<br>O jornalismo policial brasileiro se consolidou ao transformar o sofrimento em produto, usando de uma l\u00f3gica sensacionalista que privilegia aquilo que choca e prende o p\u00fablico. Segundo o artigo cient\u00edfico <a href=\"https:\/\/static.casperlibero.edu.br\/uploads\/2022\/12\/BARBARA-VETOS_ArtigoCientifico_CIP2022.pdf\">\u201cM\u00eddia, periferia e legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia policial: an\u00e1lise dos casos da Chacina da Penha e Assassinato da PRF, pelos jornais Alerta Nacional e Brasil Urgente\u201d<\/a>, a cobertura utilizada por estes programas se estrutura como uma esp\u00e9cie de dramaturgia cotidiana, com vil\u00f5es, mocinhos, persegui\u00e7\u00f5es, revela\u00e7\u00f5es e desfechos. Esse tipo de constru\u00e7\u00e3o narrativa apaga a complexidade do cotidiano perif\u00e9rico e refor\u00e7a estere\u00f3tipos de criminalidade que recaem sobre os mesmos corpos: jovens, negros, pobre e moradores de regi\u00f5es marginalizadas.<br>O artigo \u201c<a href=\"https:\/\/ojs.revistacontemporanea.com\/ojs\/index.php\/home\/article\/view\/6057\">O papel da m\u00eddia na rotula\u00e7\u00e3o e estigmatiza\u00e7\u00e3o de criminosos: impactos sobre os direitos fundamentais e desafios para o direito processual penal\u201d<\/a> complementa. A constru\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos, segundo o estudo, funciona como um mecanismo de controle social. Ao retratar a periferia como um espa\u00e7o de viol\u00eancia constante, a m\u00eddia legitima pol\u00edticas punitivas e refor\u00e7a a ideia de que a solu\u00e7\u00e3o adv\u00e9m de mais repress\u00e3o, nunca por direitos.<br>Devido a isso, hist\u00f3rias de luta que nascem nesses lugares s\u00e3o silenciadas. S\u00e3o muitas as iniciativas que resistem \u00e0 viol\u00eancia: grupos culturais, projetos sociais, mulheres que se unem para cuidar umas das outras, jovens que transformam becos em espa\u00e7os de arte. Essas vozes existem, mas raramente encontram espa\u00e7o para serem ouvidas.<br>H\u00e1 mais vida do que viol\u00eancia nas periferias. O jornalismo precisa olhar para essas pessoas como cidad\u00e3os que enfrentam diariamente as consequ\u00eancias da desigualdade. Romper o sil\u00eancio \u00e9 um ato de justi\u00e7a. \u00c9 reconhecer que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 destino, mas resultado de escolhas pol\u00edticas e sociais. Contar essas hist\u00f3rias com empatia \u00e9 o primeiro passo para transformar o que parece imposs\u00edvel numa mudan\u00e7a real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia nas periferias brasileiras tem rosto, nome e endere\u00e7o. 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