{"id":3633,"date":"2026-01-20T06:50:20","date_gmt":"2026-01-20T09:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3633"},"modified":"2026-01-20T06:56:46","modified_gmt":"2026-01-20T09:56:46","slug":"faculdade-nao-da-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3633","title":{"rendered":"Faculdade n\u00e3o d\u00e1 futuro?"},"content":{"rendered":"\n<p>Um discurso que se tornou popular nos \u00faltimos anos foi que \u201cfaculdade n\u00e3o d\u00e1 futuro\u201d que \u201cn\u00e3o paga as contas\u201d e outras falas desse tipo. Afinal, isso \u00e9 verdade ou n\u00e3o? Antes de responder a pergunta inicial, \u00e9 necess\u00e1rio compreender o contexto da educa\u00e7\u00e3o no Brasil. O presente artigo realiza um debate sobre como esse discurso que busca desvalorizar o ensino superior faz parte de um contexto hist\u00f3rico que est\u00e1 enraizado no pa\u00eds, onde a elite se privilegiou do monop\u00f3lio da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os portugueses chegaram aqui em 1500, os jesu\u00edtas aculturaram os ind\u00edgenas. Nesse per\u00edodo inicia-se o dualismo educacional, porque os jesu\u00edtas tamb\u00e9m eram respons\u00e1veis pela educa\u00e7\u00e3o dos filhos dos nobres que viviam no Brasil. Mas enquanto catequizavam e colonizavam os ind\u00edgenas, aos nobres era ensinada gram\u00e1tica, filosofia, latim, com o intuito formar l\u00edderes religiosos e preparar aqueles que posteriormente iriam para outro pa\u00eds. Nas Reformas Pombalinas, houve a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas. O modelo de ensino seriam as aulas r\u00e9gias, com professores pagos pela Coroa, visando uma educa\u00e7\u00e3o laica e sem interfer\u00eancia da igreja, mas quem continuava se beneficiando desse modelo de ensino? Para a surpresa de ningu\u00e9m, as elites.<\/p>\n\n\n\n<p>Negros que eram livres n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de pagar pelas aulas e precisavam trabalhar desde cedo para se manter, os escravizados n\u00e3o tinham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o pois eram vistos apenas como m\u00e3o de obra, e para os ind\u00edgenas o ensino se tratava de um ato de submiss\u00e3o, eram proibidos de falar a l\u00edngua materna e o estado queria integrar eles a sociedade e aos costumes portugueses. Portugal n\u00e3o estava interessado em investir na educa\u00e7\u00e3o da sua col\u00f4nia, queria manter a elite com o monop\u00f3lio do saber. At\u00e9 a chegada da Fam\u00edlia Real, em 1808, o Brasil era proibido de ter universidades, quem estava interessado em fazer ensino superior precisava atravessar o atl\u00e2ntico para estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por quest\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas a Fam\u00edlia Real e um grande n\u00famero de portugueses vieram para o Brasil, e o imperador precisou investir no desenvolvimento do pa\u00eds, foi assim que a primeira institui\u00e7\u00e3o de ensino superior foi constru\u00edda em 1808. Ainda sim o ensino privilegiou majoritariamente homens brancos de fam\u00edlia rica. J\u00e1 no s\u00e9culo XX, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1936 garantia um ensino prim\u00e1rio obrigat\u00f3rio e gratuito, um avan\u00e7o para as pessoas da \u00e9poca, mas ainda era uma barreira para acessar o ensino superior. No per\u00edodo da Quarta Rep\u00fablica, o dualismo educacional deixou claro a neglig\u00eancia do estado com o ensino das classes mais baixas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1909, se oficializou o ensino profissionalizante no Brasil, que formava a m\u00e3o de obra necess\u00e1ria para suprir necessidades do sistema econ\u00f4mico, e o ensino acad\u00eamico, direcionado a elite que aprendia sobre filosofia, sociologia e conte\u00fados que estimulavam pensamento cr\u00edtico. Com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e as emendas constitucionais de 2009, que foram mudan\u00e7as feitas na Constitui\u00e7\u00e3o, o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ficou mais acess\u00edvel e ampliou o ensino gratuito dos 4 aos 17 anos de idade. Agora temos universidades p\u00fablicas e programas como o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem), o vestibular, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que concederam maior acesso \u00e0s universidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Contextualizados a respeito da educa\u00e7\u00e3o no Brasil, retomamos a pergunta feita no in\u00edcio. Faculdade n\u00e3o d\u00e1 futuro? Acredito que a resposta apropriada seja n\u00e3o, afinal, a faculdade pode ser o motivo de voc\u00ea conseguir um emprego melhor e ter mais oportunidades na carreira. Esse tipo de fala \u00e9 de certo modo ir\u00f4nico, porque, se faculdade n\u00e3o importa, por que a elite sempre fez quest\u00e3o de colocar seus filhos nas melhores escolas, melhores faculdades, fizeram interc\u00e2mbios para aprender o m\u00e1ximo sobre outras l\u00ednguas, pol\u00edticas, economias. Por que tentaram privar as classes mais baixas de ter acesso a esse estudo. Segundo o relat\u00f3rio Education at a Glance 2025, feito pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), brasileiros de 25 a 64 anos que possuem o ensino superior completo ganham em m\u00e9dia 148% a mais do que aqueles que possuem ensino m\u00e9dio completo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fato \u00e9 que, a faculdade n\u00e3o garante emprego, ter um diploma n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de carreira bem sucedida ou contas pagas, mas se com a faculdade as coisas j\u00e1 est\u00e3o dif\u00edceis, sem, fica pior. Fazer uma faculdade vai al\u00e9m de ter um diploma. Em concursos p\u00fablicos quanto maior o grau de escolaridade, maior o sal\u00e1rio. Estar em uma universidade pode proporcionar oportunidades de conhecer pessoas que futuramente ser\u00e3o capazes de ajudar voc\u00ea, o famoso networking. Ela possibilita voc\u00ea sair da bolha e observar a sociedade por uma perspectiva diferente, amplia as suas chances de entrar em um mercado de trabalho e oferta conhecimento, algo que tentaram negar a classe baixa por muito tempo. Existem pessoas que sem estudo conseguiram mudar de vida, e fizeram isso com muito esfor\u00e7o, mas elas s\u00e3o as exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o a regra. Essas mesmas pessoas v\u00e3o garantir que seus filhos tenham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, v\u00e3o incentiv\u00e1-los a estudar, fazer faculdade, porque elas sabem a import\u00e2ncia do estudo.<\/p>\n\n\n\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do ensino superior \u00e9 proposital, as universidades ficaram acess\u00edveis \u00e0 classe popular, deixando de ser algo exclusivo dos ricos nas \u00faltimas d\u00e9cadas. A elite est\u00e1 interessada em m\u00e3o de obra, n\u00e3o em uma popula\u00e7\u00e3o que pense por si mesma. Um discurso popular atualmente \u00e9 de coachs minimizando a import\u00e2ncia do ensino superior para vender cursos que visam o empreendedorismo e o ganho r\u00e1pido, combinando com o discurso de alguns influencers digitais. Em um levantamento feito pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos precisaram adiar o plano de iniciar um curso superior em 2025 por estar endividado com bets e plataformas de cassino virtuais. Por lei, o Estado n\u00e3o pode proibir o acesso ao ensino superior, mas pode dificultar. Esses s\u00e3o alguns meios de fazer a faculdade se tornar menos popular, desvalorizada aos olhos da popula\u00e7\u00e3o, assim ela pode se tornar elitizada novamente e a massa popular volta a ser facilmente manipulada e com menos chances de ter uma vida fora do trabalho explorat\u00f3rio que sempre ofereceram.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de discurso, que faculdade n\u00e3o d\u00e1 dinheiro, \u00e9 dif\u00edcil de ser debatido, porque em um pa\u00eds onde a taxa de pobreza \u00e9 de 23,4%, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil convencer as pessoas a desistirem de investir na educa\u00e7\u00e3o. Quando algu\u00e9m que trabalha oito horas por dia, estuda de noite, precisa se alimentar e pagar o aluguel com um sal\u00e1rio m\u00ednimo, discursos desse tipo s\u00e3o o estopim para abandonarem o sonho da faculdade e acreditarem que n\u00e3o v\u00e3o conseguir mudar de vida seguindo esse caminho. Eu diria que a pergunta certa n\u00e3o \u00e9 se a faculdade d\u00e1 futuro, e sim quem s\u00e3o as pessoas que se beneficiam com uma popula\u00e7\u00e3o que acredita nisso. Paulo Freire tinha consci\u00eancia dessa realidade ao dizer &#8220;o sistema n\u00e3o teme o pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um discurso que se tornou popular nos \u00faltimos anos foi que \u201cfaculdade n\u00e3o d\u00e1 futuro\u201d que \u201cn\u00e3o paga as contas\u201d e outras falas desse tipo. Afinal, isso \u00e9 verdade ou n\u00e3o? Antes de responder a pergunta inicial, \u00e9 necess\u00e1rio compreender o contexto da educa\u00e7\u00e3o no Brasil. 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