{"id":3646,"date":"2026-01-20T19:57:11","date_gmt":"2026-01-20T22:57:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3646"},"modified":"2026-01-20T19:57:12","modified_gmt":"2026-01-20T22:57:12","slug":"o-fast-fashion-nas-passarelas-do-deserto-do-atacama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3646","title":{"rendered":"O fast fashion nas passarelas do Deserto do Atacama"},"content":{"rendered":"\n<p>Roupas trocadas todos os meses, t\u00eanis de marcas falsificadas e um consumo cada vez mais acelerado fazem parte da rotina de grande parcela da sociedade contempor\u00e2nea. Para muitos, isso parece ser apenas um h\u00e1bito comum, quase banalizado. Para outros, no entanto, essa l\u00f3gica se converte em um grave problema ambiental que ganha dimens\u00f5es globais. A moda, frequentemente vista como fr\u00edvola, \u00e9, na verdade, um term\u00f4metro social poderoso, revelando os impactos de um sistema produtivo moldado pela velocidade e pela obsolesc\u00eancia. Este artigo analisa como o Deserto do Atacama se tornou o s\u00edmbolo das consequ\u00eancias do fast fashion e dos danos ambientais que acompanham esse modelo de vestu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o acelerada n\u00e3o surgiu do nada. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial marcou o in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o de roupas em larga escala, permitindo que tecidos e pe\u00e7as fossem fabricados rapidamente e a custos cada vez menores. D\u00e9cadas mais tarde, durante a crise do petr\u00f3leo dos anos 1970, esse cen\u00e1rio se intensificou, abrindo caminho para o modelo de consumo que hoje conhecemos como fast fashion. Esse sistema se popularizou pelo mundo e, no Brasil, ganhou for\u00e7a sobretudo por meio de grandes varejistas, que oferecem roupas com pre\u00e7os acess\u00edveis, variedade constante e cole\u00e7\u00f5es que mudam semanalmente. A promessa de \u201cestar sempre atualizado\u201d com tend\u00eancias recentes contribuiu para que o h\u00e1bito de compra se tornasse mais frequente, alimentando um ciclo que depende diretamente da produ\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, do baixo custo e do descarte acelerado.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a ind\u00fastria da moda \u00e9 uma das que mais crescem no mundo e tamb\u00e9m uma das que mais poluem. \u00c9 considerado o segundo setor mais poluidor do planeta, perdendo apenas para a ind\u00fastria petrol\u00edfera. No Brasil, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria T\u00eaxtil (ABIT) aponta que, somente em 2019, foram produzidas entre 1 milh\u00e3o e 32 mil toneladas de vestu\u00e1rio, refletindo o alto consumo nacional e evidenciando a magnitude desse mercado.<br>Segundo uma publica\u00e7\u00e3o feita pelo Jornal da USP no Ar, a professora Francisca Dantas Mendes, da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades da USP e coordenadora do NAP T\u00eaxtil, explica que o fast fashion funciona como um ciclo de fabrica\u00e7\u00e3o acelerado, em que produtos s\u00e3o feitos, consumidos e descartados em pouqu\u00edssimo tempo, resultado tanto da baixa qualidade das pe\u00e7as quanto das mudan\u00e7as constantes nas tend\u00eancias de moda. Ela destaca: \u201cComo n\u00e3o h\u00e1 garantia de volume de produ\u00e7\u00e3o, as empresas terceirizadas mant\u00eam poucos funcion\u00e1rios. Quando a demanda aumenta, ocorre a quarteiriza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a quinteiriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, muitas vezes de forma informal e com remunera\u00e7\u00e3o ainda mais baixa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o do ciclo de vida das roupas est\u00e1 diretamente ligada \u00e0s mat\u00e9rias-primas utilizadas. Para baratear a produ\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria depende majoritariamente de fibras qu\u00edmicas, como o poli\u00e9ster, derivado do petr\u00f3leo e amplamente usado na fabrica\u00e7\u00e3o de tecidos. Essa fibra, no entanto, leva cerca de 200 anos para se decompor, o que significa que a maior parte das roupas que descartamos hoje continuar\u00e1 existindo muito depois de n\u00f3s. Durante o uso cotidiano e principalmente nas lavagens, part\u00edculas microsc\u00f3picas desses materiais se desprendem, viajando por mares at\u00e9 alcan\u00e7arem animais marinhos e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, seres humanos, j\u00e1 que micropl\u00e1sticos v\u00eam sendo encontrados inclusive na \u00e1gua que consumimos diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O ciclo acelerado de produ\u00e7\u00e3o e descarte do fast fashion gera enormes quantidades de res\u00edduos t\u00eaxteis, e o Deserto do Atacama tornou-se o exemplo mais vis\u00edvel desse problema. Toneladas de roupas descartadas, sobretudo vindas dos EUA, Europa e \u00c1sia, chegam ao porto de Iquique e, quando n\u00e3o s\u00e3o revendidas, acabam despejadas no deserto, formando uma montanha de mais de 60 mil toneladas j\u00e1 identificadas por sat\u00e9lites. Esse ac\u00famulo afeta diretamente comunidades vulner\u00e1veis da regi\u00e3o, provoca inc\u00eandios de fibras sint\u00e9ticas e libera gases t\u00f3xicos, o que levou a Organiza\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) a classificar ,em 2021, a situa\u00e7\u00e3o como uma \u201cemerg\u00eancia ambiental e social\u201d. Por ser zona franca, Iquique \u00e9 uma cidade costeira no norte do Chile que recebe grande volume de pe\u00e7as usadas sem controle adequado, o que intensifica o problema e exp\u00f5e fam\u00edlias \u00e0 polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O cen\u00e1rio mostra a urg\u00eancia de repensar o consumo e a produ\u00e7\u00e3o de moda, exigindo responsabilidade coletiva, pol\u00edticas p\u00fablicas e mudan\u00e7as de h\u00e1bitos para evitar que o Atacama continue sendo transformado em um dep\u00f3sito de res\u00edduos do fast fashion.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roupas trocadas todos os meses, t\u00eanis de marcas falsificadas e um consumo cada vez mais acelerado fazem parte da rotina de grande parcela da sociedade contempor\u00e2nea. Para muitos, isso parece ser apenas um h\u00e1bito comum, quase banalizado. Para outros, no entanto, essa l\u00f3gica se converte em um grave problema ambiental que ganha dimens\u00f5es globais. 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