{"id":3653,"date":"2026-01-20T20:49:22","date_gmt":"2026-01-20T23:49:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3653"},"modified":"2026-01-20T20:49:24","modified_gmt":"2026-01-20T23:49:24","slug":"ensino-publico-ponte-ou-barreira-ao-ensino-superior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3653","title":{"rendered":"Ensino p\u00fablico: Ponte ou barreira ao ensino superior?"},"content":{"rendered":"\n<p>Historicamente, a universidade p\u00fablica tem sido um espa\u00e7o ocupado pelas elites, que utilizam dela para reafirmar sua posi\u00e7\u00e3o social e ampliar seu poder. No Brasil, o sistema educacional de base \u00e9 caracterizado por um dualismo estrutural: escola gratuita para os pobres e paga para os ricos. Entretanto, ao alcan\u00e7ar o ensino superior, essa ordem se inverte, os ricos passam a ocupar as universidades p\u00fablicas e os pobres ficam na rede privada de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A discrimina\u00e7\u00e3o, no entanto, come\u00e7a muito antes dos processos de admiss\u00e3o para as universidades. Na grande maioria das vezes, os alunos da rede p\u00fablica de ensino nem mesmo tentam esse ingresso por falta de preparo e incentivo. Isso acontece porque o ensino regular p\u00fablico, em sua maioria, \u00e9 extremamente defasado, passando por problemas que v\u00e3o desde a falta de recursos pedag\u00f3gicos at\u00e9 as p\u00e9ssimas infraestruturas. J\u00e1 o ensino privado, prepara, desde sempre, o aluno para ser aprovado em provas de ingresso para o ensino superior, principalmente em universidades p\u00fablicas. Essa discrep\u00e2ncia no ensino, seja por uma grade curricular inadequada ou at\u00e9 mesmo um ensino de m\u00e1 qualidade, impossibilita que estudantes de baixa renda consigam ocupar espa\u00e7os nessas universidades.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Em 2001, Eliane Maria Vani Ortega, na \u00e9poca professora da Faculdade de Ci\u00eancias, Letras e Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE), publicou um artigo intitulado <a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/scholar?hl=pt-BR&amp;as_sdt=0%2C5&amp;authuser=1&amp;q=ORTEGA%2C+Eliane+Maria+Vina.+O+Ensino+M%C3%A9dio+P%C3%BAblico+e+o+Acesso+ao+Ensino+Superior.+Novos+Estudos+Cebrap%2C+Editora+Brasileira+de+Ci%C3%AAncias.+S%C3%A3o+Paulo%2C+2001.+p.+153+-+176&amp;btnG=\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/scholar.google.com\/scholar?hl=pt-BR&amp;as_sdt=0%2C5&amp;authuser=1&amp;q=ORTEGA%2C+Eliane+Maria+Vina.+O+Ensino+M%C3%A9dio+P%C3%BAblico+e+o+Acesso+ao+Ensino+Superior.+Novos+Estudos+Cebrap%2C+Editora+Brasileira+de+Ci%C3%AAncias.+S%C3%A3o+Paulo%2C+2001.+p.+153+-+176&amp;btnG=\">\u201cO Ensino P\u00fablico e o Acesso ao Ensino Superior\u201d.<\/a> Nele, ela defendeu uma an\u00e1lise cr\u00edtica sobre a discrimina\u00e7\u00e3o que poderia estar ocorrendo contra os alunos que frequentavam o ensino m\u00e9dio p\u00fablico no in\u00edcio dos anos dois mil, afirmando que as escolas p\u00fablicas precisavam se reorientar e se responsabilizar em prover uma forma\u00e7\u00e3o que possibilitasse aos alunos das camadas mais populares competir e prosseguir seus estudos. Vinte e cinco anos se passaram desde sua publica\u00e7\u00e3o e o problema ainda \u00e9 o mesmo, alunos que concluem o ciclo b\u00e1sico na rede p\u00fablica n\u00e3o saem em p\u00e9 de igualdade com aqueles que tiveram forma\u00e7\u00e3o na rede privada. Muito pelo contr\u00e1rio, enquanto as escolas particulares de elite trabalham intencionalmente para preparar o aluno, oferecendo professores qualificados, materiais did\u00e1ticos, laborat\u00f3rios e bibliotecas para dominar os conte\u00fados cobrados, as escolas p\u00fablicas geralmente n\u00e3o apresentam nenhuma orienta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para os instrumentos de sele\u00e7\u00e3o. Essa car\u00eancia de recursos b\u00e1sicos faz com que alunos que n\u00e3o podem pagar por escolas privadas ou cursinhos preparat\u00f3rios se sintam inseguros e despreparados, se autosabotando nos processos de admiss\u00e3o. Al\u00e9m de que, existem os desafios econ\u00f4micos, como taxas de inscri\u00e7\u00e3o nos processos seletivos e a necessidade de trabalhar para o sustento, que reduz o tempo e as condi\u00e7\u00f5es de estudo.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Al\u00e9m disso, o problema central, como aponta Cassiano Bezerra, diretor de Assist\u00eancia Estudantil da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), em artigo para o jornal <a href=\"https:\/\/averdade.org.br\/2023\/12\/vestibular-uma-barreira-para-o-acesso-a-educacao\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/averdade.org.br\/2023\/12\/vestibular-uma-barreira-para-o-acesso-a-educacao\/\">\u201cA Verdade\u201d<\/a>, \u00e9 que o ENEM e outros vestibulares funcionam como &#8220;verdadeiras peneiras dos jovens pobres\u201d, n\u00e3o levando em conta as particularidades e contexto de cada estudante. Por isso, o acesso \u00e0s universidades por jovens de origem popular ocorre n\u00e3o por um sucesso do Estado em promover educa\u00e7\u00e3o de qualidade, mas por um esfor\u00e7o de si mesmo, uma mobiliza\u00e7\u00e3o que envolve ren\u00fancias e sacrif\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A persist\u00eancia desse modelo escancara uma contradi\u00e7\u00e3o central no sistema educacional brasileiro: enquanto a universidade p\u00fablica se mant\u00e9m como s\u00edmbolo de excel\u00eancia, o ensino b\u00e1sico continua sendo o elo mais fr\u00e1gil. Sem enfrentar essa raiz da desigualdade, o pa\u00eds seguir\u00e1 reproduzindo um ciclo no qual poucos t\u00eam acesso real \u00e0s oportunidades que a educa\u00e7\u00e3o superior pode proporcionar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historicamente, a universidade p\u00fablica tem sido um espa\u00e7o ocupado pelas elites, que utilizam dela para reafirmar sua posi\u00e7\u00e3o social e ampliar seu poder. 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