{"id":3655,"date":"2026-01-20T21:16:38","date_gmt":"2026-01-21T00:16:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3655"},"modified":"2026-01-20T21:16:39","modified_gmt":"2026-01-21T00:16:39","slug":"violencia-contra-pessoas-trans-no-brasil-uma-reflexao-sobre-direitos-e-desumanizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3655","title":{"rendered":"Viol\u00eancia contra pessoas trans no Brasil: Uma reflex\u00e3o sobre direitos e desumaniza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>A falta de conhecimento sobre identidades trans contribui muito para a viol\u00eancia que essas pessoas sofrem. A desumaniza\u00e7\u00e3o do grupo transg\u00eanero \u00e9 um dos maiores fatores da discrimina\u00e7\u00e3o que essa comunidade ainda enfrenta no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Um exemplo hist\u00f3rico que ilustra bem isso aconteceu entre 27 de fevereiro e 10 de mar\u00e7o de 1987, quando a Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo realizou a Opera\u00e7\u00e3o Tar\u00e2ntula, comandada pelo delegado Jos\u00e9 Wilson Richetti. A justificativa oficial era \u201ccombater a Aids\u201d, mas, na pr\u00e1tica, tratou-se de uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica a travestis e mulheres trans em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Nos anos 80, a popula\u00e7\u00e3o trans viveu um per\u00edodo de intensa repress\u00e3o e viol\u00eancia. O uso de silicone industrial era comum entre travestis profissionais do sexo, mas havia tamb\u00e9m uma norma absurda que proibia mulheres transg\u00eanero de estarem em espa\u00e7os p\u00fablicos durante o dia. Algumas s\u00f3 conseguiam circular com o DRT de artista, o que mostra como a pr\u00f3pria sociedade empurrava essas pessoas para a prostitui\u00e7\u00e3o e alimentava estere\u00f3tipos. Al\u00e9m disso, praticamente n\u00e3o existiam estudos sobre transgeneridade, o que refor\u00e7ava ainda mais o imagin\u00e1rio transf\u00f3bico e a ridiculariza\u00e7\u00e3o dessas viv\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A coloniza\u00e7\u00e3o imp\u00f4s a ideia de g\u00eanero como instrumento de controle, apagando outras formas de existir e justificando opress\u00f5es. No artigo Gozo, viol\u00eancia e abje\u00e7\u00e3o aos corpos trans no Brasil, Puhl e Wenczenovicz (2025) explicam que, a partir da no\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7a colonial discutida por Maria Lugones, a sociedade passou a classificar quem \u00e9 considerado plenamente humano e quem \u00e9 tratado como objeto, l\u00f3gica que ainda impacta diretamente a forma como corpos trans s\u00e3o vistos e marginalizados na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Esses processos hist\u00f3ricos ajudam a entender por que, ainda hoje, o Brasil ocupa o triste primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans. No relat\u00f3rio Assassinatos e viol\u00eancia contra travestis e transexuais brasileiras em 2020, Benevides e Nogueira (2021) mostram que, naquele ano, o pa\u00eds liderou o ranking mundial, com 175 assassinatos registrados ap\u00f3s a an\u00e1lise de not\u00edcias e dados coletados. Os n\u00fameros se mantiveram acima da m\u00e9dia internacional, evidenciando a gravidade da viol\u00eancia enfrentada por essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Esses dados mostram que a viol\u00eancia contra pessoas trans n\u00e3o \u00e9 algo isolado ou pontual, mas parte de uma estrutura social que historicamente marginaliza e exclui essas pessoas. Al\u00e9m disso, a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas f\u00edsica: ela tamb\u00e9m se manifesta de forma simb\u00f3lica e institucional, atingindo a dignidade e os direitos b\u00e1sicos dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Muitas vezes, o modo como as mortes de pessoas trans s\u00e3o noticiadas pela m\u00eddia demonstra desrespeito \u00e0 identidade de g\u00eanero das v\u00edtimas. No mesmo relat\u00f3rio sobre assassinatos de pessoas trans no Brasil, Benevides e Nogueira (2021) explicam que \u00e9 comum que reportagens utilizem termos equivocados, ignorem o nome social ou classifiquem travestis e mulheres trans como \u201chomens vestidos de mulher\u201d. No caso de homens trans, ainda h\u00e1 registros em que s\u00e3o identificados de forma incorreta como \u201cl\u00e9sbicas\u201d. Esse tipo de abordagem contribui para a invisibiliza\u00e7\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es dos crimes, dificulta a padroniza\u00e7\u00e3o dos dados e aumenta a subnotifica\u00e7\u00e3o dos casos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Esse tipo de pr\u00e1tica \u00e9 grave porque refor\u00e7a a desumaniza\u00e7\u00e3o e o apagamento das identidades trans, al\u00e9m de alimentar estigmas e preconceitos que colocam essas pessoas em constante situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Essa viol\u00eancia simb\u00f3lica se soma a outras viola\u00e7\u00f5es de direitos, como a dificuldade em utilizar o nome social e os pronomes corretos em ambientes p\u00fablicos e em servi\u00e7os essenciais, como o acesso \u00e0 sa\u00fade. No ensaio Inclus\u00e3o ou ilus\u00e3o da identidade de g\u00eanero no pa\u00eds com o maior n\u00famero de assassinatos de transg\u00eaneros, Rafael e colaboradores (2023) apontam que os registros oficiais de \u00f3bitos no Brasil n\u00e3o incluem informa\u00e7\u00f5es sobre identidade de g\u00eanero. Isso faz com que o levantamento dessas mortes seja realizado, principalmente, por organiza\u00e7\u00f5es e coletivos da sociedade civil, como a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a partir de dados da imprensa e de unidades de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A nega\u00e7\u00e3o do direito ao uso do nome social e o uso incorreto de pronomes s\u00e3o formas recorrentes de viol\u00eancia que atingem diretamente a dignidade das pessoas trans. No mesmo estudo, Rafael e colaboradores (2023) destacam que essas pr\u00e1ticas dificultam o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade, afastam essa popula\u00e7\u00e3o do atendimento adequado e aprofundam o sentimento de exclus\u00e3o em espa\u00e7os que deveriam oferecer cuidado e acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u00c9 revoltante pensar que a transfobia est\u00e1 presente at\u00e9 mesmo nos servi\u00e7os p\u00fablicos que deveriam promover prote\u00e7\u00e3o, como hospitais e unidades de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A m\u00eddia tem um papel central na perpetua\u00e7\u00e3o da transfobia. A forma distorcida como casos de viol\u00eancia e assassinatos de pessoas trans s\u00e3o noticiados refor\u00e7a estere\u00f3tipos, apaga identidades e dificulta o reconhecimento do car\u00e1ter de \u00f3dio e discrimina\u00e7\u00e3o que motiva muitos desses crimes.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A transfobia tamb\u00e9m se manifesta no ambiente escolar. Crian\u00e7as e adolescentes transg\u00eaneros frequentemente enfrentam bullying, exclus\u00e3o e viol\u00eancia psicol\u00f3gica, o que impacta diretamente o rendimento escolar e contribui para o abandono dos estudos. Esse processo refor\u00e7a o ciclo de exclus\u00e3o social e dificulta o acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A falta de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas e eficazes voltadas para a popula\u00e7\u00e3o trans agrava ainda mais esse cen\u00e1rio. Embora existam leis que garantem direitos como o uso do nome social e o acesso \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a aplica\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas ainda \u00e9 falha, especialmente em regi\u00f5es perif\u00e9ricas e cidades do interior, onde o preconceito e a desinforma\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais evidentes.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Diante disso, o combate \u00e0 viol\u00eancia contra pessoas trans no Brasil exige medidas urgentes e profundas. \u00c9 necess\u00e1rio enfrentar a transfobia institucional e estrutural, investir em educa\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o social e desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam, de fato, o direito \u00e0 vida e \u00e0 cidadania para essa popula\u00e7\u00e3o.<br>Este texto buscou refletir sobre a viol\u00eancia contra pessoas trans no Brasil, entendendo que ela n\u00e3o se limita a agress\u00f5es f\u00edsicas ou assassinatos, mas tamb\u00e9m envolve viol\u00eancias simb\u00f3licas, institucionais e sociais. O apagamento de identidades, o desrespeito ao nome social e aos pronomes corretos e a abordagem transf\u00f3bica da m\u00eddia refor\u00e7am um cen\u00e1rio de exclus\u00e3o que precisa ser superado.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Os dados apresentados evidenciam a urg\u00eancia de combater a transfobia em todas as suas formas. Para isso, \u00e9 fundamental promover inclus\u00e3o, garantir o acesso a direitos b\u00e1sicos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e trabalho e respeitar as identidades e viv\u00eancias das pessoas trans.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Combater a viol\u00eancia passa, sobretudo, pela visibiliza\u00e7\u00e3o dessas exist\u00eancias, pelo reconhecimento de suas lutas e pela constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria, onde todas as pessoas tenham o direito de viver com dignidade, independentemente de sua identidade de g\u00eanero. \u00c9 necess\u00e1rio fazer mais. \u00c9 necess\u00e1rio fazer melhor. E \u00e9 necess\u00e1rio fazer agora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A falta de conhecimento sobre identidades trans contribui muito para a viol\u00eancia que essas pessoas sofrem. A desumaniza\u00e7\u00e3o do grupo transg\u00eanero \u00e9 um dos maiores fatores da discrimina\u00e7\u00e3o que essa comunidade ainda enfrenta no Brasil. 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