{"id":3662,"date":"2026-02-26T13:30:44","date_gmt":"2026-02-26T16:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3662"},"modified":"2026-02-26T13:30:45","modified_gmt":"2026-02-26T16:30:45","slug":"a-persistencia-do-racismo-no-futebol-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=3662","title":{"rendered":"A persist\u00eancia do racismo no futebol brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p>O futebol \u00e9 uma das maiores paix\u00f5es do&nbsp;povo&nbsp;brasileiro,&nbsp;isso \u00e9 incontest\u00e1vel. Nos est\u00e1dios,&nbsp;n\u00f3s&nbsp;celebramos&nbsp;vit\u00f3rias&nbsp;e sentimos&nbsp;as derrotas, mostramos&nbsp;nossa alegria&nbsp;e emo\u00e7\u00e3o&nbsp;e torcemos&nbsp;junto, levantando o time em momentos complicados do jogo, somos verdadeiramente o camisa 12&nbsp;mesmo fora de campo. Mas existe um lado triste e&nbsp;desprez\u00edvel&nbsp;que teima em n\u00e3o desaparecer: o racismo. Ainda que&nbsp;vejamos&nbsp;o pa\u00eds como um lugar de mistura e conviv\u00eancia harmoniosa, a realidade nos est\u00e1dios&nbsp;conta outra hist\u00f3ria, e que muitas vezes s\u00e3o abafadas pela m\u00eddia e pelo pr\u00f3prio p\u00fablico. Longe de ser um problema passado&nbsp;e&nbsp;superado, o racismo&nbsp;infelizmente&nbsp;se mant\u00e9m vivo, principalmente em um local que deveria ser repleto&nbsp;de&nbsp;bondade e conex\u00e3o com o pr\u00f3ximo, ele se esconde em coment\u00e1rios disfar\u00e7ados de brincadeira, em xingamentos baixos, imita\u00e7\u00f5es de macaco&nbsp;e em ataques diretos contra jogadores e torcedores. Apesar de existirem leis e campanhas contra o racismo, essa pr\u00e1tica&nbsp;abomin\u00e1vel ainda&nbsp;n\u00e3o foi eliminada, ela se adapta e reaparece mostrando que o preconceito \u00e9 um problema profundo&nbsp;e&nbsp;que vai muito al\u00e9m do futebol, \u00e9 algo estrutural e est\u00e1 enraizado na hist\u00f3ria.&nbsp;Precisamos ent\u00e3o olhar&nbsp;para&nbsp;essa situa\u00e7\u00e3o&nbsp;e&nbsp;entender&nbsp;que o&nbsp;racismo n\u00e3o acabou,&nbsp;e que \u00e9&nbsp;uma ferida que permanece aberta, mostrando que nossa sociedade ainda precisa evoluir muito para ser&nbsp;de fato&nbsp;um lugar de respeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A forma como&nbsp;o futebol e as quest\u00f5es raciais se misturam no Brasil \u00e9 bem complexa, pois embora o esporte tenha sido uma grande chance para muitos jogadores negros melhorarem&nbsp;suas condi\u00e7\u00f5es de&nbsp;vida, essa integra\u00e7\u00e3o nunca foi de fato igual para todo mundo. Segundo&nbsp;Carlos Alberto Jr. (2018),&nbsp;pesquisador&nbsp;da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em seus estudos&nbsp;sobre a imprensa e&nbsp;os negros&nbsp;no esporte,&nbsp;a ideia de que o Brasil \u00e9 uma &#8220;democracia racial&#8221; (onde as ra\u00e7as convivem sem problemas) sempre serviu para esconder o racismo de verdade&nbsp;que est\u00e1&nbsp;estruturado&nbsp;na&nbsp;nossa sociedade, e&nbsp;que&nbsp;no mundo do futebol&nbsp;isso fez com que se contasse&nbsp;uma hist\u00f3ria de que o esporte era um lugar&nbsp;supertranquilo.&nbsp;Criou-se uma ilus\u00e3o de perfeita harmonia entre as ra\u00e7as que acabou sufocando quem tentava denunciar o racismo. O resultado foi a banaliza\u00e7\u00e3o de preconceitos e de agress\u00f5es psicol\u00f3gicas\/f\u00edsicas,&nbsp;que passaram a serem&nbsp;vistas como algo \u201ccomum\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo no futebol mudou de cara com o tempo, mas nunca parou de acontecer de verdade, e ele foi se manifestando tanto de forma expl\u00edcita,&nbsp;com&nbsp;xingamentos e imita\u00e7\u00f5es&nbsp;pejorativas de&nbsp;primatas,&nbsp;quanto de maneira disfar\u00e7ada.&nbsp;Como&nbsp;o epis\u00f3dio do goleiro Aranha em 2014, que levou o Gr\u00eamio a ser exclu\u00eddo da Copa do Brasil&nbsp;daquele mesmo ano, marcando uma&nbsp;das poucas&nbsp;puni\u00e7\u00f5es&nbsp;esportivas&nbsp;severas,&nbsp;e o caso Edenilson&nbsp;(Internacional)&nbsp;vs&nbsp;Rafael Ramos&nbsp;(Corinthians)&nbsp;em 2022, que evidenciou a dificuldade de provar as ofensas dentro de campo, al\u00e9m de agress\u00f5es a torcedores nas arquibancadas, o que prova que&nbsp;apesar das den\u00fancias e c\u00e2meras, o problema persiste e s\u00f3 tem aumentado nos \u00faltimos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Instituto Claro (2024), que cita an\u00e1lises de especialistas no tema, as a\u00e7\u00f5es do Estado e dos clubes de futebol, como a\u00a0falta de multas financeiras altas, perda de pontos ou banimento\u00a0do clube e dif\u00edcil identifica\u00e7\u00e3o do culpado,\u00a0ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientes para resolver o problema por completo, uma vez que as san\u00e7\u00f5es brandas refor\u00e7am a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade. A Lei n\u00ba 14.559 de 2023 foi um grande avan\u00e7o porque tornou o racismo um crime\u00a0inafian\u00e7\u00e1vel e imprescrit\u00edvel. Mas colocar essa lei em pr\u00e1tica nos est\u00e1dios \u00e9 dif\u00edcil\u00a0pois\u00a0os\u00a0agressores na multid\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de\u00a0serem\u00a0identificados, al\u00e9m\u00a0dos processos na justi\u00e7a\u00a0que\u00a0s\u00e3o lentos e ainda h\u00e1 uma cultura de impunidade. Nessa situa\u00e7\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil s\u00e3o muito importantes\u00a0e o\u00a0<a href=\"https:\/\/observatorioracialfutebol.com.br\/\">Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol<\/a> faz um trabalho essencial\u00a0nessa luta,\u00a0seus\u00a0relat\u00f3rios anuais detalhados n\u00e3o s\u00f3 mostram o n\u00famero de casos de racismo, mas tamb\u00e9m explicam como esses ataques acontecem e\u00a0quais s\u00e3o\u00a0seus impactos. Esse trabalho \u00e9 uma fonte de informa\u00e7\u00e3o vital para pesquisadores e para a cria\u00e7\u00e3o de novas pol\u00edticas p\u00fablicas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo resistir nas arquibancadas e no campo&nbsp;s\u00f3 mostra que o Brasil ainda carrega um passado de exclus\u00e3o e que n\u00e3o superou por completo sua hist\u00f3ria escravista. Os est\u00e1dios, onde todos os f\u00e3s de esporte&nbsp;se re\u00fanem, funcionam&nbsp;como um espelho da sociedade&nbsp;e&nbsp;mostram&nbsp;claramente as tens\u00f5es raciais que&nbsp;vemos&nbsp;no&nbsp;nosso&nbsp;dia a dia. A verdade \u00e9 que n\u00e3o adianta s\u00f3 ficar apagando inc\u00eandio&nbsp;e&nbsp;punindo caso a caso, \u00e9 preciso&nbsp;ter um plano s\u00e9rio que una&nbsp;os&nbsp;clubes,&nbsp;o&nbsp;governo,&nbsp;a justi\u00e7a e a sociedade.&nbsp;Para isso, s\u00e3o necess\u00e1rias&nbsp;educa\u00e7\u00e3o&nbsp;de qualidade que aborde esse tema de forma branda, tecnologia para identificar os agressores&nbsp;em meio \u00e0 multid\u00e3o&nbsp;e justi\u00e7a r\u00e1pida,&nbsp;s\u00e3o medidas&nbsp;essenciais e&nbsp;que n\u00e3o podem mais esperar. Enquanto atletas e torcedores forem humilhados pela cor da pele, o jogo mais importante&nbsp;que \u00e9&nbsp;o de construir um pa\u00eds verdadeiramente justo&nbsp;e igualit\u00e1rio&nbsp;vai continuar empatado.&nbsp;Como disse o brasileiro Vin\u00edcius J\u00fanior,&nbsp;jogador&nbsp;do Real Madrid, em um&nbsp;v\u00eddeo publicado em suas redes sociais&nbsp;ap\u00f3s um epis\u00f3dio de racismo sofrido pelo mesmo: \u201cenquanto a cor da pele for mais importante&nbsp;que o brilho nos olhos, haver\u00e1 guerra.\u201d&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futebol \u00e9 uma das maiores paix\u00f5es do&nbsp;povo&nbsp;brasileiro,&nbsp;isso \u00e9 incontest\u00e1vel. Nos est\u00e1dios,&nbsp;n\u00f3s&nbsp;celebramos&nbsp;vit\u00f3rias&nbsp;e sentimos&nbsp;as derrotas, mostramos&nbsp;nossa alegria&nbsp;e emo\u00e7\u00e3o&nbsp;e torcemos&nbsp;junto, levantando o time em momentos complicados do jogo, somos verdadeiramente o camisa 12&nbsp;mesmo fora de campo. Mas existe um lado triste e&nbsp;desprez\u00edvel&nbsp;que teima em n\u00e3o desaparecer: o racismo. 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