{"id":390,"date":"2018-09-25T22:10:10","date_gmt":"2018-09-26T01:10:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=390"},"modified":"2018-09-25T22:10:10","modified_gmt":"2018-09-26T01:10:10","slug":"a-ultima-carta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=390","title":{"rendered":"A \u00faltima carta"},"content":{"rendered":"<p>Querido di\u00e1rio,<\/p>\n<p>\u00c9 mais um s\u00e1bado frio de outubro. Levantei meio sonolenta, chequei os e-mails como de costume, sentei na cama e peguei um livro meio surrado. Na sua contracapa, eu anotava h\u00e1 quantos dias eu estava sobrevivendo.<\/p>\n<p>247 dias em que estou perdida, sozinha e sentindo falta dele. Espero que ele esteja bem, mas n\u00e3o serei hip\u00f3crita, rezo para n\u00e3o estar t\u00e3o bem quanto estaria se estivesse comigo. Parece ego\u00edsmo de minha parte, eu sei, mas acredite, n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Tomei o ch\u00e1 que ele sempre fazia para mim: camomila e erva doce. Lembro que ele dizia que eu deveria tomar pelo menos um litro por dia, para que o ch\u00e1 acalmasse meu jeito rude de ser. \u00c9, onde estiver, eu sei que ele est\u00e1 feliz, pois conseguiu concluir a sua meta de me acalmar. Na verdade, tudo est\u00e1 mais calmo: a minha vida, o meu jeito e, principalmente, o meu amor.<\/p>\n<p>M\u00eas passado, exatamente no dia onze de julho, eu voltei a procurar o perfil dele na internet.\u00a0 Voltei a olhar as fotos, voltei a ver o que ele tinha publicado. \u00c0s vezes eu fa\u00e7o isso, sinto uma enorme dor corroer meu cora\u00e7\u00e3o, como se uma l\u00e2mina estivesse fatiando-o lentamente, dizem que essa dor se chama saudade. Talvez seja isso mesmo: saudade de um tempo que nunca mais vai voltar.<\/p>\n<p>Quando tudo aconteceu, eu quis poder ter uma conversa s\u00e9ria com Deus e perguntar: Por que comigo? Ser\u00e1 que eu merecia tanta dor? Queria perguntar por que ele e n\u00e3o a mim. Era para ser eu ali no ch\u00e3o, baleada, sangrando e implorando por socorro. Ele deu a vida por mim e agora estou prestes a devolver o presente.<\/p>\n<p>Escrevo este \u00faltimo texto no meu di\u00e1rio para que todos saibam que eu tentei, mas a dor da solid\u00e3o me devastou um pouquinho a mais todo dia. Foi me corroendo e agora j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais. N\u00e3o fiquem tristes por mim, essa morte de agora s\u00f3 foi a consuma\u00e7\u00e3o do que aconteceu h\u00e1 oito meses. Um anjo deu a vida por mim. Na sa\u00edda de um cinema, fomos abordados por um assaltante. Ele se atirou na frente de uma bala destinada a me matar. Ele me salvou.<\/p>\n<p>Di\u00e1rio, escrevo isso como relato: hoje o meu amor transcendeu, e com essa l\u00e2mina, eu corto o la\u00e7o que ainda me mantinha aqui. Porque agora eu n\u00e3o sobrevivo mais. Agora eu vivo. N\u00e3o em carne, reconhe\u00e7o, mas em alma e com amor, com o meu amor. Acho que agora n\u00e3o preciso mais de ch\u00e1 para me acalmar. Acho que meu cora\u00e7\u00e3o encontrou a paz que tanto procurava: voc\u00ea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Querido di\u00e1rio, \u00c9 mais um s\u00e1bado frio de outubro. Levantei meio sonolenta, chequei os e-mails como de costume, sentei na cama e peguei um livro meio surrado. Na sua contracapa, eu anotava h\u00e1 quantos dias eu estava sobrevivendo. 247 dias em que estou perdida, sozinha e sentindo falta dele. 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