{"id":408,"date":"2018-09-25T21:01:14","date_gmt":"2018-09-26T00:01:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=408"},"modified":"2018-09-25T21:01:14","modified_gmt":"2018-09-26T00:01:14","slug":"as-varias-marias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=408","title":{"rendered":"As v\u00e1rias Marias"},"content":{"rendered":"<p>Maria foi brutalmente violentada ao voltar da universidade. O caso repercutiu no notici\u00e1rio e tudo mais. No dia seguinte, antes de qualquer coisa, a vizinha me questionava: \u201cque roupa ela vestia?\u201d. Como se a crueldade do ato e todo o resto n\u00e3o importasse, porque, se ela estivesse com uma roupa muito curta, talvez estivesse pedindo e tenha merecido o que quer que tenha lhe acontecido.<\/p>\n<p>Chamei a vizinha para tomar uma x\u00edcara de caf\u00e9 e conversa vai, conversa vem, questionei-a se ela podia compreender a sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio ao olhar para tr\u00e1s, tarde da noite, numa rua deserta, e ver outra mulher. Para o meu espanto, ela disse que n\u00e3o; que mulher nenhuma devia sair sozinha \u00e0 noite. Eu me lembro de ter me sentido triste, pois ao contr\u00e1rio dela, eu podia compreender o sentimento de medo ao ver um homem vindo atr\u00e1s de mim tarde da noite, e n\u00e3o somente em um lugar ou apenas uma vez. Voltando da universidade, mas tamb\u00e9m do supermercado.<\/p>\n<p>Ela me disse que embora soubesse que mulheres tamb\u00e9m podiam ser potencialmente perigosas, desde cedo haviam lhe ensinado a temer os homens. Sua m\u00e3e sempre lhe disse para n\u00e3o ficar sozinha com eles, a menos que fosse o seu marido; na igreja, n\u00e3o podia nem se pensar em usar um vestido acima do joelho e se pensasse, o pai tamb\u00e9m n\u00e3o aceitaria de forma alguma. Al\u00e9m disso, ao contr\u00e1rio de mim, nem p\u00f4de entrar na universidade, pois fora criada para ser do lar e aprendeu que lugar de mulher era mesmo em casa.<\/p>\n<p>Ao ir embora, toda a conversa n\u00e3o havia sa\u00eddo da minha cabe\u00e7a e fiquei ainda mais triste. Comecei a pensar sobre a necessidade de mudar e sobre o quanto, mesmo muitos anos depois do nascimento da vizinha, a sociedade ainda age exatamente igual. Digo, eu ainda escuto sobre que roupa a v\u00edtima usava quando foi estuprada; sobre onde estava ou como a m\u00eddia continua a sexualizar as mulheres. Exatamente com a mesma culpa que atribu\u00edam \u00e0s mulheres em sua \u00e9poca, como ela havia me contado.<\/p>\n<p>No dia seguinte, cartazes estavam espalhados por todo o campus e Maria havia se tornado s\u00edmbolo de resist\u00eancia. A campanha, que fora engajada por colegas dela, estampava as v\u00e1rias faces de mulheres e Marias espalhadas pelo mundo: A Maria, que mesmo com o corpo coberto da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, foi estuprada por v\u00e1rios homens dentro de um \u00f4nibus; a Maria que recebeu cantadas e assobios de um professor nos corredores; a Maria que foi demitida porque se recusou a dormir com o chefe. Sem nos esquecermos da Maria que foi morta pelo namorado ciumento ap\u00f3s postar uma foto de biqu\u00edni no <em>Instagram<\/em>. \u00a0S\u00e3o v\u00e1rias as Marias. Inclusive eu, e a vizinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria foi brutalmente violentada ao voltar da universidade. O caso repercutiu no notici\u00e1rio e tudo mais. 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