{"id":420,"date":"2018-09-25T21:33:49","date_gmt":"2018-09-26T00:33:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=420"},"modified":"2018-09-25T21:33:49","modified_gmt":"2018-09-26T00:33:49","slug":"nao-finja-estar-preocupado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=420","title":{"rendered":"N\u00e3o finja estar preocupado"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quatro anos, ele decidiu ir embora. E ao ir embora, abandonou um posto que jamais deveria ser deixado. N\u00e3o contente com todas as merdas que fez, ainda se sentiu no direito de fazer mais. De se fazer de v\u00edtima numa hist\u00f3ria em que era, majoritariamente, algoz. Mas voc\u00eas sabem que o mundo n\u00e3o \u00e9 manique\u00edsta, e como tal, muitos lados existem. Me permitirei falar do meu.<\/p>\n<p>Gostaria que essa hist\u00f3ria fosse sobre um homem que amei como um parceiro, mas, infelizmente, n\u00e3o \u00e9. Ele era meu pai. E veja bem, eu digo \u201cera\u201d porque parei de cont\u00e1-lo como um pai\u2026 Me refiro \u00e0quele homem com essa palavra apenas para fins de esclarecimento. Esclarecimento para os que n\u00e3o conhecem a hist\u00f3ria por dentro, que n\u00e3o viveram, viram e ouviram os absurdos que eu vivi. \u00c0queles que, felizmente, n\u00e3o sabem como \u00e9 conhecer um \u201cex-pai\u201d, porque t\u00eam no pai uma figura que confiam e que podem recorrer quando o cinto apertar, quando a saudade vier e quando o mundo os maltratar. Eu s\u00f3 poderia dizer que n\u00e3o o perdi se, apesar de tudo, eu pudesse contar com ele. E eu n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nos \u00faltimos anos, eu mergulhei em diversas camadas internas que, aparentemente, n\u00e3o acabam. Acredito, inclusive, que parte desse processo \u00e9 semelhante \u00e0s cinco fases do luto. Sim. Aceitar isso tudo \u00e9 aceitar que ele morreu. De alguma forma, em algum grau, ele morreu pra mim. Porque o homem que eu conheci n\u00e3o est\u00e1 mais presente nessa realidade.<\/p>\n<p>Para voc\u00ea que talvez n\u00e3o saiba, segundo uma s\u00e9rie de estudiosos da psicologia, o luto tem cinco fases: Nega\u00e7\u00e3o, Raiva, Barganha, Depress\u00e3o e Aceita\u00e7\u00e3o. A primeira, Nega\u00e7\u00e3o, \u00e9 a fase em que n\u00e3o conseguimos aceitar que a pessoa que am\u00e1vamos morreu e que n\u00e3o vai voltar. A nossa mente \u00e9 t\u00e3o profundamente complexa que cria desculpas, acredita que \u00e9 tudo um sonho, espera o momento em que aquele aparente circo vai desabar e descobriremos que foi uma grande brincadeira de mau gosto. Obviamente, isso n\u00e3o acontece e, por esse motivo, mais dia menos dia, n\u00f3s desembocamos na segunda fase: a Raiva. Nos inflamos, nos rebelamos, atacamos qualquer um porque estamos feridos e, como animais que somos, nosso instinto grita para que possamos nos defender. \u00c9 como dizem por a\u00ed: \u201ca melhor defesa \u00e9 o ataque\u201d.<\/p>\n<p>Questionamos ao Universo o porqu\u00ea de n\u00f3s, que sempre fomos bons meninos e meninas, perdemos algu\u00e9m amado. Inutilmente nos debatemos de ira e dor\u2026 E cansados de estar assim, passamos ao terceiro est\u00e1gio, tamb\u00e9m conhecido como Barganha. \u00c9 nessa fase que a gente percebe que n\u00e3o adianta tentar no grito. Se existe um ser divino que guia nossos caminhos, este ser quer que sejamos melhores e por isso \u00e9 que passamos a negociar.<\/p>\n<p>Promessas de melhoramento interno ou externo, mudan\u00e7a de h\u00e1bitos, o encontro de novos rumos, novos sonhos, tudo isso passa a ser moeda de troca pra que de alguma forma a situa\u00e7\u00e3o volte ao \u201cnormal\u201d (como se a morte n\u00e3o o fosse). Como j\u00e1 \u00e9 de se imaginar, a Barganha n\u00e3o funciona e \u00e9 por isso que damos de cara com a quarta e mais intensa fase: Depress\u00e3o. A consci\u00eancia da perda nos alcan\u00e7a e tudo o que resta \u00e9 um sofrimento latente e duradouro, ao passo que o \u00e2nimo para avan\u00e7ar vai morrendo. A dor e a apatia se tornam profundas. \u201cComo eu vou conseguir viver depois disso?\u201d. Mas \u00e9 necess\u00e1rio viver, n\u00e3o \u00e9? Por isso chegamos \u00e0 \u00faltima parte, a Aceita\u00e7\u00e3o. A chuva de sentimentos serena e o vazio se torna solo f\u00e9rtil para o surgimento do novo. N\u00e3o d\u00e1 pra ficar aqui se debatendo e sofrendo durante toda a vida, ent\u00e3o decidimos apenas seguir\u2026<\/p>\n<p>Gostaria de dizer para todo mundo que, ap\u00f3s quatro anos, eu passei pelas cinco fases e as superei. N\u00e3o, infelizmente n\u00e3o. As constantes atitudes de ofensa e desvaloriza\u00e7\u00e3o a mim e aos meus, bem como a agress\u00e3o f\u00edsica a uma mulher (ou o ass\u00e9dio sexual a outra) foram os combust\u00edveis que me trouxeram a uma perpetua\u00e7\u00e3o doentia da Raiva, Barganha e Depress\u00e3o. Quero deixar claro que n\u00e3o barganho mais em nome do meu \u201cpai\u201d, mas em nome da minha melhoria interna. Seguir o processo crist\u00e3o de perd\u00e3o. Infelizmente, todo esse processo remonta a quest\u00f5es profundas demais, extensas demais.<\/p>\n<p>Enfim, eu precisei mergulhar para que o tsunami que veio de todos os lados n\u00e3o me carregasse para longe daqueles que eu amo (e que sei que me amam). Lutei em meu nome e no de todos os que ele machucou. N\u00e3o sou santo, disso voc\u00eas podem ter certeza. Me inflamei, gritei e ofendi aquele que me criou. Repetindo, \u201ca melhor defesa \u00e9 o ataque\u201d. Ataquei demais, reagi demais. Cansei. Meu foco agora \u00e9 algum tipo de busca pessoal. Barganha? N\u00e3o sei. A realidade \u00e9 que hoje eu decidi lutar em nome da minha paz de esp\u00edrito. Mergulhei no mar profundo de emo\u00e7\u00f5es que vivem em minha mente.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o encontrei o que eu decidi buscar dentro de mim. Na verdade, ainda n\u00e3o sei qual a forma do que estou procurando. Eu apenas decidi que a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 no meu interior. Me recuso a esperar mais um instante pela mudan\u00e7a dele\u2026 Ali\u00e1s, por que eu ainda espero? Sabe por que tememos a morte? Porque ela \u00e9 o sinal claro de que nossas chances acabaram. Se o homem que eu chamava de \u201cpai\u201d morreu para mim, suas chances tamb\u00e9m acabaram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quatro anos, ele decidiu ir embora. E ao ir embora, abandonou um posto que jamais deveria ser deixado. N\u00e3o contente com todas as merdas que fez, ainda se sentiu no direito de fazer mais. 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