{"id":451,"date":"2018-09-25T21:21:10","date_gmt":"2018-09-26T00:21:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=451"},"modified":"2018-09-25T21:21:10","modified_gmt":"2018-09-26T00:21:10","slug":"ultima-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=451","title":{"rendered":"\u00daltima vez"},"content":{"rendered":"<p>Eu comia os cantos dos dedos, porque unhas j\u00e1 n\u00e3o mais me restavam. Decidi tocar meu viol\u00e3o para ter um momento de calma, mas me frustrei. As cordas de a\u00e7o do meu velho amigo, ao inv\u00e9s de consolo, me fizeram doer as pontas dos dedos carcomidos. Bem prov\u00e1vel que eu n\u00e3o conseguiria cantar nem uma nota sequer para acompanhar, pois as l\u00e1grimas j\u00e1 estavam engatilhadas em meus olhos e o peso na garganta se moveria por um triz para fora ao som dos acordes. A verdade \u00e9 que eu choraria de um jeito ou de outro. E o fiz.<\/p>\n<p>Fui ao banheiro lavar meu rosto. As manchas de ferrugem da pel\u00edcula de prata do espelho se misturaram com minha imagem. Meus olhos umedecidos deixaram ainda mais turvo o meu reflexo. No espelho manchado, o peso dram\u00e1tico de um olhar vazio. De luz, s\u00f3 a da l\u00e2mpada incandescente, que dava um tom amarelado \u00e0 minha dor. Eram as \u00faltimas l\u00e1grimas dedicadas para isso que eu sentia. Choraria por outras dores depois, mas jamais novamente por esta. Estava decidido a mudar de vida.<\/p>\n<p>Tempos atr\u00e1s, como quem quisesse experimentar um novo gosto, abri o peito para a paix\u00e3o. Acreditava muito no que os olhares das pessoas me diziam e, se conversasse com voc\u00ea, te olharia nos olhos e alimentaria minha cren\u00e7a. Se voc\u00ea mentisse, sairia da conversa depois com as duas vers\u00f5es criadas em minha paranoica cabe\u00e7a s\u00f3 pela observa\u00e7\u00e3o, a verdadeira e a falsa, mesmo isto n\u00e3o sendo exato.<\/p>\n<p>Isso at\u00e9 chegar o dia em que um olhar feminino me disse uma mentira. Boca e olhos mentindo sobre uma promessa de amor. Ou, qui\u00e7\u00e1, eu n\u00e3o tenha sabido ouvir direito o que aqueles malditos olhos me disseram.<\/p>\n<p>Criou-se uma sintonia. Criada por mim, porque n\u00e3o existia. Inventada pela minha cegueira. A mulher do olhar traidor ouvia as mesmas m\u00fasicas que eu, de Caetano Veloso \u00e0 C\u00edcero Rosa Lins. Falava das flores que, por coincid\u00eancia, eram tamb\u00e9m as minhas favoritas. Das margaridas e das orqu\u00eddeas. Me ligava no exato momento em que eu estava pensando nela, mas eu nem tinha me dado conta que pensar nela o dia todo n\u00e3o era incomum. Qualquer liga\u00e7\u00e3o seria uma surpresa. Enfim, para mim existia uma conex\u00e3o, uma liga\u00e7\u00e3o, o universo a favor do amor de dois. Merda nenhuma.<\/p>\n<p>Um dia, me chamou para sair. Olhou em meus olhos (ela sabia que assim atingiria seu objetivo com maior facilidade) e disse que n\u00e3o dava mais para continuar. Que n\u00e3o estava pronta. Que o problema estava nela, n\u00e3o em mim. Me desejou sorte, e disse para eu ficar bem. Na hora, me estatelei. Somente fiquei a observ\u00e1-la, sem rea\u00e7\u00e3o, levantando-se da cadeira amarela do bar enquanto minha garganta j\u00e1 preparava o n\u00f3. E se foi. Nem do perfume sei mais.<\/p>\n<p>Duas coisas que odeio: despedidas e t\u00e9rminos. Palavras que parecem sin\u00f4nimas se desconsiderarmos as coisas que v\u00e3o embora, mas que insistem em n\u00e3o findar. Desse dia para c\u00e1, eu n\u00e3o fiquei bem. Nada bem. A ansiedade, patol\u00f3gica, tinha j\u00e1 feito casa em meu espa\u00e7o. Eu n\u00e3o era mais s\u00f3 meu, era tamb\u00e9m das minhas dores. A mente trabalhava em sofrimentos que sofri, que sofria no momento e nos que iria sofrer. Tinha dias que eu era fervura, o suor descia por cada peda\u00e7o de corpo. Eu tremia. As m\u00e3os, as pernas, as p\u00e1lpebras, os l\u00e1bios. Tudo tremia. No peito, o cora\u00e7\u00e3o pesado. E tudo ao redor parecia virar meu inimigo: os gestos, os olhares, as falas, qualquer movimento, inclusive os meus.<\/p>\n<p>Tr\u00eas longos meses assim, at\u00e9 hoje, o \u00faltimo dia. \u00daltima vez que meu espelho ter\u00e1 a imagem turva dessa dor. Seguirei acreditando em olhares, mas ciente que nem todos os olhos s\u00e3o janelas para a alma. Aquilo que insistia em n\u00e3o ter fim, hoje morre. Eu vivo. Pretendo resgatar o brilho em meu olhar, hoje ainda pesado e vazio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu comia os cantos dos dedos, porque unhas j\u00e1 n\u00e3o mais me restavam. Decidi tocar meu viol\u00e3o para ter um momento de calma, mas me frustrei. 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