{"id":455,"date":"2018-09-25T21:16:08","date_gmt":"2018-09-26T00:16:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=455"},"modified":"2018-09-25T21:16:08","modified_gmt":"2018-09-26T00:16:08","slug":"a-vida-e-seus-lances","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=455","title":{"rendered":"A vida e seus lances"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s \u00e9ramos como brinquedos. A vida era a crian\u00e7a. Mas o problema \u00e9 que \u00e9 essa crian\u00e7a adorava fazer traquinagens. Numa dessas andan\u00e7as, a vida escolheu brincar com a gente. Era final de 2000, in\u00edcio de 2001, quando M\u00e3e come\u00e7ou a sentir que algo n\u00e3o estava bem. Iniciava ali uma luta contra o maligno, miser\u00e1vel, destrut\u00edvel c\u00e2ncer. Eu e meus 7 irm\u00e3os, dois mais novos que eu e outros cinco mais velhos, n\u00e3o entend\u00edamos muito bem o que se passava naquele momento. Pra ser bem sincero, eu, pelo menos, n\u00e3o entendia. Tinha apenas 13 anos e pouco conhecimento a respeito daquela doen\u00e7a, ou de qualquer outra. N\u00e3o t\u00ednhamos muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o para nos informar. A minha irm\u00e3 mais velha foi a grande guerreira da hist\u00f3ria, travou uma grande batalha para cuidar de minha m\u00e3e, n\u00e3o a abandonou em nenhum momento, desde as consultas ali mesmo na nossa cidadezinha, at\u00e9 as dolorosas sess\u00f5es de quimioterapia.<\/p>\n<p>Essa luta durou mais ou menos dois anos, de muito sofrimento. Quando tudo parecia estar bem, ela piorou de vez e foi tudo muito r\u00e1pido. Vinha eu e meu pai chegando da pedreira onde trabalh\u00e1vamos, e no caminho comentei com ele que visitaria minha m\u00e3e, mesmo n\u00e3o gostando de v\u00ea-la naquela situa\u00e7\u00e3o. Para minha tristeza, ao chegar em casa, uma crian\u00e7a ainda inocente filho de um vizinho gritou: \u201cDona Zefa morreu\u201d. E eu retruquei: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 maluco menino, n\u00e3o fale besteira\u201d. N\u00e3o precisei chegar em casa para perceber que, infelizmente, aquele menino falava a verdade. O choro ecoou na casa, as l\u00e1grimas desceram nos meus olhos. Ali n\u00e3o entendia muito sobre a vida, mas sabia que um grande peda\u00e7o da minha fam\u00edlia se acabara. A minha m\u00e3e era tudo para n\u00f3s, mas o pior \u00e9 que isso s\u00f3 se tornou mais expl\u00edcito quando ela n\u00e3o mais existia.<\/p>\n<p>A vida era simples, n\u00e3o t\u00ednhamos luxo, mas t\u00ednhamos felicidade acima de qualquer dificuldade. Queria tanto ter amado mais, abra\u00e7ado, ter dito \u201ceu te amo\u201d naqueles momentos em que eu deitava em seu colo e ela fazia cafun\u00e9 no meu cabelo. Hoje fico pensando por que a vida \u00e9 injusta com a gente, arranca de n\u00f3s as pessoas que mais amamos. Prefiro pensar que a vida n\u00e3o \u00e9 m\u00e1, mas nos torna fortes com esses golpes. Foi por isso que me tornei um homem forte e meus irm\u00e3os tamb\u00e9m. Quinze anos depois, e em tudo que fa\u00e7o, ela est\u00e1 presente. Ela me inspira, me d\u00e1 for\u00e7as, pois penso que tenho que fazer a diferen\u00e7a por ela. Tenho certeza que nesse momento, em forma de anjo ou de estrela, ela deve estar sorrindo e feliz por tudo que aqui relatei. Saudades, M\u00e3e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s \u00e9ramos como brinquedos. A vida era a crian\u00e7a. Mas o problema \u00e9 que \u00e9 essa crian\u00e7a adorava fazer traquinagens. Numa dessas andan\u00e7as, a vida escolheu brincar com a gente. Era final de 2000, in\u00edcio de 2001, quando M\u00e3e come\u00e7ou a sentir que algo n\u00e3o estava bem. 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