{"id":508,"date":"2018-09-26T10:58:20","date_gmt":"2018-09-26T13:58:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=508"},"modified":"2018-09-28T10:08:47","modified_gmt":"2018-09-28T13:08:47","slug":"registrando-afetos-a-vida-sob-o-olhar-de-um-fotografo-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=508","title":{"rendered":"Registrando afetos: a vida sob o olhar de um fot\u00f3grafo de rua"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_509\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-509\" class=\"wp-image-509\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-ALINE-RIBEIRO-E-LUCAS-OLIVEIRA-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-ALINE-RIBEIRO-E-LUCAS-OLIVEIRA-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-ALINE-RIBEIRO-E-LUCAS-OLIVEIRA-300x169.jpg 300w, https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-ALINE-RIBEIRO-E-LUCAS-OLIVEIRA-768x432.jpg 768w, https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-ALINE-RIBEIRO-E-LUCAS-OLIVEIRA.jpg 1040w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-509\" class=\"wp-caption-text\">Absolon durante a entrevista. Foto: EXTRA!Ordin\u00e1rio.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fotografia \u00e9 um dos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o na sociedade atual. \u00c9 quase imposs\u00edvel imaginar alguma fam\u00edlia que n\u00e3o possua um registro fotogr\u00e1fico. Desde <em>selfies<\/em> a fotos com um vi\u00e9s mais art\u00edstico a fotografia \u00e9 sempre cercada de afeto e sentimento. Uma lembran\u00e7a, uma forma de registrar o tempo. Ela vem se tornando um meio de express\u00e3o cada vez mais cotidiano. \u00c9 muito comum pens\u00e1-la a partir do ponto de vista de quem \u00e9 fotografado e, muitas vezes, a pessoa que est\u00e1 por tr\u00e1s das lentes passa despercebida.<\/p>\n<p>Pensando assim, a equipe do Extra!ordin\u00e1rio entrevistou o fot\u00f3grafo e estudante de psicologia Jos\u00e9 Absolon. Aos 25 anos, ele publica suas fotos no Instagram (@j.abisolon). Em entrevista, ele fala um pouco da sua rela\u00e7\u00e3o com a fotografia, qual a import\u00e2ncia que ela ocupa na sociedade atual e a responsabilidade de se registrar os afetos alheios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Absolon<strong>, <\/strong>para voc\u00ea, o que \u00e9 fotografia?<\/p>\n<p><strong>Absolon:<\/strong> Fotografia, para mim, foi a maneira que eu encontrei para me expressar.\u00a0 Eu sempre fui uma pessoa muito introvertida, observadora e eu queria muito mostrar por a\u00ed como eu enxergo a vida. Primeiro comecei escrevendo algumas hist\u00f3rias e eu acho que, de certa maneira, elas tinham um aspecto visual. Pelo menos quem lia dizia pra mim que conseguia enxergar muito bem os detalhes, conseguia imaginar toda cena que estava descrita ali. Mas ainda assim n\u00e3o estava me dando o suficiente. Como eu sempre gostei muito de assistir filmes, sempre admirei a fotografia, fui l\u00e1 e comecei a pegar o celular e tirar algumas fotos na rua, mas n\u00e3o tinha coragem de fotografar as pessoas, e eu ficava em casa vendo essas quest\u00f5es de luz, de sombra, como eram no final da tarde, preto e branco, contraste e a\u00ed, depois, em 2016, eu fui l\u00e1 e comprei a m\u00e1quina. Ent\u00e3o, a fotografia \u00e9 um meio de express\u00e3o que eu achei sensacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Voc\u00ea aprendeu as t\u00e9cnicas sozinho ou buscou alguma fonte de informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Dizer que eu aprendi sozinho seria muito injusto, porque eu tenho muitos amigos fot\u00f3grafos e logo depois que comprei a m\u00e1quina eu falei para eles: \u201ccomprei a m\u00e1quina, vamos nos reunir e eu quero aprender as coisas\u201d. E a\u00ed eu fui pegando algumas coisas com eles e de resto fui enfiando a cara mesmo, fotografando, e acho que essa \u00e9 a melhor forma. N\u00e3o fiz um curso oficial, n\u00e3o tenho certificado de fot\u00f3grafo pendurado na parede que alguma institui\u00e7\u00e3o tenha me dado, mas \u00e9 isso. N\u00e3o aprendi sozinho, tive uns amigos e eles foram incr\u00edveis no come\u00e7o da jornada e at\u00e9 hoje me d\u00e3o algumas dicas e, claro, o Youtube.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio:<\/strong> Voc\u00ea faz mais alguma coisa al\u00e9m da fotografia?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Sim, eu sou estudante de Psicologia, nono semestre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio:<\/strong> Voc\u00ea v\u00ea rela\u00e7\u00e3o entre a fotografia e a psicologia?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Olha, no meu trabalho sim, porque o que tenho feito \u00e9 registrar a vida n\u00e3o s\u00f3 das outras pessoas, mas a minha tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, \u00e9 importante ressaltar que toda fotografia que eu coloco eu estava olhando para aquilo, eu estava vivendo aquele momento. Ent\u00e3o, existem ali v\u00e1rios afetos registrados &#8211; o meu, que estava percebendo aquilo, seja algu\u00e9m que passou na rua, algum amigo que olhou pra mim e eu decidi registrar; e tem a outra pessoa tamb\u00e9m que estava sendo afetada. \u00c9 aquele o momento dela, ent\u00e3o \u00e9 um pouco autobiogr\u00e1fico. E como a psicologia, para mim, \u00e9 justamente essa quest\u00e3o de se debru\u00e7ar sobre a vida, sobre os afetos, sobre as pessoas, eu acho que a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 bem \u00edntima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>O que voc\u00ea acha que faz uma boa foto, al\u00e9m de t\u00e9cnica?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Ent\u00e3o, \u00e9 bacana voc\u00ea ter usado a palavra t\u00e9cnica, porque muita gente usa o nome regra. Regras est\u00e3o a\u00ed para serem quebradas e t\u00e9cnicas est\u00e3o a\u00ed para serem utilizadas. Eu acho que o que faz uma boa foto seria a uni\u00e3o de t\u00e9cnica e o momento que foi registrado o afeto. Se causou alguma impress\u00e3o, se causou algum afeto ao ver a foto, essa foi uma boa foto. Algumas passam o sentimento de solid\u00e3o, tristeza, paz, alegria, ent\u00e3o, foi uma boa foto que causou isso em algu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Quase todas as suas fotos s\u00e3o em preto e branco. Voc\u00ea possui refer\u00eancia de algum artista como Sebasti\u00e3o Salgado? E por que o preto e branco?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Eu adoro as fotos do Sebasti\u00e3o Salgado. J\u00e1 assisti document\u00e1rios sobre ele que mexeram bastante comigo, mas n\u00e3o sei dizer se na hora que decidi fotografar preto e branco estava pensando nele. Embora ele seja uma grande inspira\u00e7\u00e3o, existem outros fot\u00f3grafos que usam o preto e branco, como Vivian Maier, uma fotografa norte americana que usa preto e branco para fotografar a rua, e ela tem um trabalho extraordin\u00e1rio. Mas assim, a escolha na verdade veio porque as cores passam informa\u00e7\u00f5es, o amarelo quer dizer uma coisa, o vermelho quer dizer outra e acho que a aus\u00eancia de cores permite que a gente enxergue verdadeiramente. Uma quest\u00e3o de olhar, de pele, de sorriso. Acho que passa mais verdade, \u00e9 mais charmoso, \u00e9 cl\u00e1ssico, \u00e9 atemporal. Ent\u00e3o, acho que o preto e branco d\u00e1 muito mais do que as cores possam dar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Voc\u00ea disse que a fotografia \u00e9 a forma de mostrar como voc\u00ea enxerga o mundo. Voc\u00ea acha que ela mudou a sua forma de enxerg\u00e1-lo?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Mudou demais. Como falei, eu sempre fui muito observador, s\u00f3 que agora eu observo ainda mais, sabe? Eu n\u00e3o me vejo t\u00e3o distra\u00eddo, eu reparo mais nos m\u00ednimos detalhes. Como as pessoas est\u00e3o sentadas, o sorriso, a forma de olhar, as rea\u00e7\u00f5es. E em rela\u00e7\u00e3o a psicologia, como futuramente eu pretendo ter uma cl\u00ednica, ser professor, eu acho que isso vai ser muito \u00fatil, principalmente na cl\u00ednica. Eu estar atendendo o meu paciente e observar as rea\u00e7\u00f5es, o que est\u00e1 acontecendo ali, a fala, tanto da pessoa, quanto a minha. Ent\u00e3o mudou, porque realmente abriu os meus olhos pra vida. E por mais que eu fotografe em preto e branco eu adoro as cores, a\u00ed eu reparo mais nelas, o que combina, o que est\u00e1 bonito e por a\u00ed vai. Ent\u00e3o, me fez enxergar o mundo de uma maneira muito melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Quando voc\u00ea abrir uma cl\u00ednica, e seguir sua profiss\u00e3o de psic\u00f3logo, ainda vai continuar fotografando?<\/p>\n<p><strong>Absolon<\/strong>: Sim, pra vida toda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>A gente j\u00e1 falou sobre o que faz uma boa foto, e agora, o que faz um bom fot\u00f3grafo?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Tem um escritor que eu sou muito f\u00e3. O nome dele \u00e9 Charles Bukowski. Eu comecei a ler ele na adolesc\u00eancia e, provavelmente, vou revisitar a vida inteira. Tem um poema dele que \u00e9 justamente sobre essa quest\u00e3o de como ser um bom escritor. E n\u00e3o sei se estou copiando ou se li e adotei um pouquinho e hoje \u00e9 uma verdade na minha vida. Mas o que acho que faz um bom fot\u00f3grafo \u00e9 amar v\u00e1rias pessoas, sair pra beber, seja \u00e1lcool ou n\u00e3o, rir bastante, fazer muito sexo, n\u00e3o estar com algu\u00e9m, curtir o momento sozinho, ler e ir ao cinema, tomar sorvete, deixar o sorvete derramar e sujar as m\u00e3os, comer as coisas que voc\u00ea gosta, experimentar coisas novas e n\u00e3o gostar delas, sabe? Viver a vida mesmo. Quanto mais voc\u00ea vive a vida do seu jeito, melhor fotografo voc\u00ea vai ser. Por que voc\u00ea vai se conhecer e acho que quanto mais a gente se conhece, a gente pode fugir um pouco. O fot\u00f3grafo precisa fugir um pouco do narcisismo, e ele precisa reconhecer que existem outras pessoas, e n\u00e3o acho que seja uma tarefa f\u00e1cil voc\u00ea olhar pro outro e saber que ali tem uma hist\u00f3ria de vida que \u00e9 totalmente diferente da sua. Quanto mais voc\u00ea vive a vida e se abre pra ela, mais voc\u00ea vai ser um bom fot\u00f3grafo e voc\u00ea vai se abrir pros outros e para as coisas da vida, seja registrar um casamento, planta, natureza. \u00c9 porque voc\u00ea se abriu pra viver aquele momento ali.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>E voc\u00ea se acha um bom fot\u00f3grafo?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Sim. Estou melhorando cada vez mais. Pra dizer a verdade, venho registrando cada vez melhor os afetos. Fotografando menos e registrando mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Voc\u00ea j\u00e1 se frustrou com a fotografia alguma vez?<\/p>\n<p><strong>Absolon<\/strong>: J\u00e1, in\u00fameras vezes. Quando eu fa\u00e7o uma foto ela vem cheia de expectativa, certo? Eu registrei aquilo, foi importante pra mim. Important\u00edssimo. A\u00ed se as pessoas n\u00e3o valorizam&#8230; Por exemplo, uma coisa que acontece muito na minha conta do Instagram. Existem basicamente tr\u00eas tipos de fotos l\u00e1: um tipo pessoal do meu dia a dia, como <em>selfie<\/em> no bar com os amigos, essas s\u00e3o mais tiradas pelo celular; outro tipo s\u00e3o as fotografias de rua, que \u00e9 quando eu saio com a m\u00e1quina na mochila e registro; o terceiro tipo seriam os retratos\/fotografias femininas. Basicamente, as mulheres est\u00e3o nuas ou seminuas. Existem algumas frustra\u00e7\u00f5es, porque, \u00e0s vezes, \u00e9 angustiante ver que uma foto que para mim \u00e9 sensacional de um registro na rua, que \u00e9 cheio de riqueza, de momento, receber bem menos curtidas do qu\u00ea uma bunda. E eu n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto isso \u00e9 culpa minha. Tipo assim, colocar alguma legenda ou alguma coisa que vai valorizar mais a bunda do que a rua. Mas, no fundo, eu prefiro a rua e eu gostaria que as pessoas preferissem tamb\u00e9m. E essa \u00e9 uma frustra\u00e7\u00e3o minha. Eu queria que a rua vendesse mais do que os corpos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Houve algum momento em que voc\u00ea estava tirando uma foto e aquilo te transmitiu um sentimento muito forte?<\/p>\n<p><strong>Absolon<\/strong>: No final do ano passado, em dezembro de 2017, eu tive a oportunidade de fotografar o parto de uma amiga minha. Ela pariu em casa, no apartamento dela. E desde que eu soube que ela estava gr\u00e1vida houve um convite. Foi algo muito natural, porque a gente \u00e9 muito amigo. Ela \u00e9 uma das minhas melhores amigas e eu queria fotografar o parto dela. Na semana ela falou \u201cvai ser essa semana, eu estou sentindo, ele est\u00e1 me avisando\u201d, e eu: \u201cbeleza\u201d. Meu celular n\u00e3o estava pra vibrar como de costume e a m\u00e1quina sempre carregada na mochila, se eu sa\u00edsse para rua ou qualquer lugar eu levava a m\u00e1quina, porque ela podia me ligar a qualquer minuto. E a\u00ed teve uma bela manh\u00e3 de quarta-feira de dezembro que eu acordei com ela e o marido dela, que tamb\u00e9m \u00e9 um grande amigo meu, me mandando um \u00e1udio. \u201cEstou sentindo algumas contra\u00e7\u00f5es aqui, mas acho que n\u00e3o vai ser hoje\u201d. Minha aposta \u00e9 que seria na quinta feira, a dela \u00e9 que seria no domingo. \u201cMas qualquer coisa a gente te avisa\u201d. At\u00e9 a\u00ed tudo tranquilo, eram umas 9h da manh\u00e3. E quando deu 11h30 o marido dela me falou que estava preparando as coisas para o parto, a piscina daquelas infl\u00e1veis, essas coisas assim, e perguntou se eu podia ir registrar. Eu disse \u201cestou indo\u201d. Eram umas 11h30 e eu pensei \u201cvou almo\u00e7ar e depois eu vou\u201d. Quando eu cheguei l\u00e1 j\u00e1 eram 12h30. Eu toquei a campainha e demorou alguns segundos para abrirem a porta. E ele falou: \u201cvoc\u00ea chegou na hora\u201d. Quando eu entrei no apartamento, ela estava escorada no sof\u00e1, meio que de quatro e gritando com express\u00f5es de dor muito forte, o beb\u00ea saindo. S\u00f3 deu tempo de pegar a m\u00e1quina na mochila e come\u00e7ar a fotografar. Nem deu tempo de ajeitar as configura\u00e7\u00f5es direito e o rostinho dele j\u00e1 estava saindo. A\u00ed fiz algumas fotos que eu vi que estavam uma merda, pois tinham sa\u00eddo muito escuras. Ent\u00e3o eu configurei de fato e passei a registrar.\u00a0 Eu fotografei o beb\u00ea saindo, as express\u00f5es dela, o pai pegando o beb\u00ea no colo, muito sangue no apartamento. Foi muito forte. Essa crian\u00e7a tem umas quinhentas fotos daquele dia, tem v\u00eddeo. Ent\u00e3o, foi muito emocionante. Depois que eu consegui parar pra respirar e eu sentei, me deu uma vontade muito grande de chorar. Infelizmente n\u00e3o chorei, \u00e9 algo que eu estou me devendo. Eu comentei com eles. Vai chegar o dia em que eu vou estar sentado pensando na vida e eu vou chorar por esse momento. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o in\u00edcio de uma vida, \u00e9 tudo, \u00e9 algu\u00e9m se tornando pai de novo, m\u00e3e mais uma vez. Foi algo muito importante. \u00c9 uma consolida\u00e7\u00e3o de amizade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>E alguma vez voc\u00ea j\u00e1 chorou ao fotografar?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>N\u00e3o, mas eu tenho outro momento que \u00e9 importante. Eu tenho uma av\u00f3, e quem n\u00e3o tem? Viva ou morta. A minha est\u00e1 viva. E desde que eu me entendo por gente ela est\u00e1 amea\u00e7ando que vai morrer. \u201cAh, que eu vou morrer\u201d, \u201cn\u00e3o vou durar muito\u201d, ela vive falando esse tipo de coisa pelos cantos. E a gente sempre dizendo \u201cAh, porra nenhuma, voc\u00ea vai enterrar todo mundo\u201d. E est\u00e1 enterrando mesmo, porque um monte de gente morreu a\u00ed e ela esta firme e forte. E eu nunca tinha tirado uma foto dela. Uma ex-namorada minha, que tinha um carinho muito grande por ela e foi minha primeira namorada, perguntava: \u201cj\u00e1 tirou uma foto de v\u00f3?\u201d. E eu: \u201cn\u00e3o, nunca\u201d.\u00a0 E a\u00ed eu cheguei na casa da minha av\u00f3 e falei: \u201cEstou com a m\u00e1quina a\u00ed e vou tirar uma foto da senhora\u201d, e ela falou assim: \u201cningu\u00e9m vai querer ver uma foto dessa coruja velha\u201d. \u201cPois bem, se a senhora est\u00e1 sempre amea\u00e7ando que vai morrer, vai que morre mesmo e eu nunca tirei uma foto, por favor, senta ali no banco\u201d. Fiz a bendita foto. Linda, n\u00e3o \u00e9 linda por que eu tirei, mas \u00e9 por que ela est\u00e1 sorrindo, ela est\u00e1 olhando diretamente pra mim. E eu revelei a foto e coloquei na parede do quarto. E, porra! \u00c9 um momento que significa muito pra mim, registrar a minha av\u00f3. Enquanto a chorar, \u00e9 isso. Em rela\u00e7\u00e3o a uma foto. No dia que a velha morrer eu estou fodido. A foto est\u00e1 no meu quarto. \u00c9 a primeira coisa que voc\u00ea v\u00ea quando entra, est\u00e1 na entrada mesmo, provavelmente vou me derramar em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Consegue pensar em alguma coisa que te faz falta? Algo que voc\u00ea j\u00e1 teve um dia e hoje n\u00e3o tem mais?<\/p>\n<p><strong>Absolon: <\/strong>Eu n\u00e3o consigo pensar numa falta. N\u00e3o me sinto completo, mas aqui com voc\u00eas n\u00e3o consigo pensar em alguma coisa que me falte. Sei falar dos meus desejos. Eu desejo um dia publicar um livro, ser famoso por conta das minhas fotografias, ser um bom professor, conhecer um monte de gente nova que faz um monte de coisa boa pra minha vida, estar cada vez mais pr\u00f3ximo dos meus amigos e viver momentos incr\u00edveis com eles, beber mais vinho, beijar mais na boca, passar mais momentos sozinhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A fotografia \u00e9 um dos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o na sociedade atual. \u00c9 quase imposs\u00edvel imaginar alguma fam\u00edlia que n\u00e3o possua um registro fotogr\u00e1fico. Desde selfies a fotos com um vi\u00e9s mais art\u00edstico a fotografia \u00e9 sempre cercada de afeto e sentimento. Uma lembran\u00e7a, uma forma de registrar o tempo. 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