{"id":596,"date":"2018-09-28T11:54:30","date_gmt":"2018-09-28T14:54:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=596"},"modified":"2019-04-07T20:42:52","modified_gmt":"2019-04-07T23:42:52","slug":"os-desafios-da-maternidade-e-a-solidao-da-mulher-puerpera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=596","title":{"rendered":"Os desafios da maternidade e a solid\u00e3o da mulher pu\u00e9rpera"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_597\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-597\" class=\"wp-image-597\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/FOTO-1-2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-597\" class=\"wp-caption-text\">No dia da entrevista, Lys (\u00e0 direita da fotografia, com Rosa em seu colo) recebeu uma visita em sua casa de sua amiga Lay (\u00e0 esquerda, segurando a pequena Violeta), que tamb\u00e9m vivencia o puerp\u00e9rio e suas consequ\u00eancias. Foto: EXTRA!Ordin\u00e1rio.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O nascimento de uma crian\u00e7a pode significar um momento alegrador para uma fam\u00edlia. Contudo, para a m\u00e3e do beb\u00ea rec\u00e9m-nascido, nem sempre essa chegada acontece de maneira harmoniosa. Em seu corpo, ap\u00f3s o parto, \u00e9 iniciada uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es hormonais, f\u00edsicas e emocionais, em um processo de adapta\u00e7\u00e3o com o beb\u00ea e recupera\u00e7\u00e3o que exigem cuidados intensos.<\/p>\n<p>A busca por esclarecimentos e o interesse nas viv\u00eanciasdas mulheresdurante o puerp\u00e9rio (nome dado ao per\u00edodo p\u00f3s-parto),que envolve o aleitamento materno, a higiene do beb\u00ea e os cuidados necess\u00e1rios destinados \u00e0s m\u00e3es, s\u00e3o pontos discutidos nessa mat\u00e9ria pelo<em>blog<\/em>EXTRA!ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para contemplar a proposta, entrevistamos Lys Alexandrina, artes\u00e3, professora de Hist\u00f3ria e m\u00e3e de Rosa, que hoje tem oitomeses de idade. Tamb\u00e9m escritora, Lys \u00e9 propriet\u00e1ria do <em>blogBilhetes para Rosa<\/em>. Na apresenta\u00e7\u00e3o de sua p\u00e1gina na internet ela diz: \u201cEsse \u00e9 um blog que fala sobre medos e sonhos. Sobre o aprendizadoconstante que \u00e9 ser m\u00e3e.\u201d<\/p>\n<p>Veja nossa conversa um tanto descontra\u00edda com Lys:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Dentro das dificuldades e desafios enfrentados no puerp\u00e9rio, quais seriam as mais impactantes ao seu ver? Poderia compartilhar um pouco da sua viv\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>Eu nunca tinha escutado essa palavra [puerp\u00e9rio] n\u00e9, na minha vida. Quando eu engravidei que eu estudei muito sobre parto, sobre todas as coisas.Eu queria muito um parto respeitoso, aquela coisa toda, s\u00f3 que eu n\u00e3o fazia ideia do que vinha pela frente e tamb\u00e9m n\u00e3o pensava muito no depois. Eu sabia que seria uma coisa que ia transformar minha vida, ainda mais porque eu n\u00e3o tinha o desejo de ser m\u00e3e, ent\u00e3o eu me preocupava muito com isso. S\u00f3 que hoje eu percebo que ainda que eu estudasse super sobre isso n\u00e3o ia rolar, entendeu? (risos).<\/p>\n<p>O primeiro problema de cara que eu tivefoi a amamenta\u00e7\u00e3o, que foi foda. Foi assim, meu peito feriu, Rosa saiu j\u00e1 plugada em meu peito e eu falei: \u201c\u00f3timo, eu tenho leite e minha filha mama. T\u00e1 tudo certo. Vai ser lindo e beleza\u201d. S\u00f3 que, uma coisa tamb\u00e9m que s\u00f3 me dei conta esses dias, porque quando voc\u00ea vai parir, quando voc\u00ea chega ao hospital, existem muitos hor\u00e1rios e dias, n\u00e9: plant\u00e3o, equipe m\u00e9dica, etc. eu peguei a pior equipe m\u00e9dica pra parir no Esa\u00fa e tamb\u00e9m, por ser em um fim de semana, voc\u00ea n\u00e3o tem um acompanhamento que teria durante a semana. Ent\u00e3o, por exemplo, a consultora de amamenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 chegou na segunda-feira, que era o dia que eu j\u00e1 tava saindo. Eu passei s\u00e1bado e domingo com Rosa mamando em meu peito e mamando errado. Ou seja, meu peito ia ferir. Ent\u00e3o eu cheguei em casa gritando de dor, porque meu peitotava a fissura e muito sens\u00edvel. Eu fiquei uma semana sem conseguir dara mama pra ela, e n\u00e3o tinha a manha de ordenhar&#8230; eu n\u00e3o sabia mesmo.Assim, n\u00e9&#8230; eu tava aprendendo a ser m\u00e3e. E a\u00ed eu tirava um pouquinho pra dar no copinho.<\/p>\n<p>Aconteceram dois epis\u00f3diosbem angustiantes nesses quinze primeiros dias, que Rosa chorou sete horas seguidas, sem parar, e a gente n\u00e3o sabia o que era. A gente foi pra Pronto Socorro, tentou todas as coisas, de chazinho \u00e0 massagem, Shantala, todas as coisas que eu pensei e que me indicaram. E no final das contas eu acho que era fome, porque ela n\u00e3o tava mamando. Pra mim foi a coisa mais dif\u00edcil. E agora aconteceu de novo a mesma coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Durante o per\u00edodo de amamenta\u00e7\u00e3o, qual apoio voc\u00ea considera necess\u00e1rio para a mulher e em qu\u00ea fam\u00edlia e amigos podem cooperar nesse sentido?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>Isso \u00e9 o grande \u201cx\u201d da quest\u00e3o. Porque assim, pra uma mulher conseguir amamentar, ela s\u00f3 precisa de rede de apoio. S\u00f3 que rede de apoio \u00e9 uma coisa que n\u00e3o existe nesse mundo moderno. Eu tava falando inclusive essa semana, que eu passei por essa ang\u00fastia tudo de novo, dor, dificuldade de amamentar&#8230; Daqui a pouco voc\u00eas v\u00e3o ver que Rosa vai acordar e vai querer peito, e eu n\u00e3o estou oferecendo esse peito porque est\u00e1 machucado, e ele incha e d\u00f3i pra caralho.<\/p>\n<p>Eu amamentei Rosa exclusivamente pelos seis meses, iniciei a complementa\u00e7\u00e3o alimentar s\u00f3 depois disso, e ela mama at\u00e9 hoje, e fiz isso muito sozinha. Tive apoio da minha m\u00e3e e da minha sogra no primeiro m\u00eas inteiro, mas depois disso eu n\u00e3o tive ningu\u00e9m familiar. Tive amigos que sempre v\u00eam aqui, que ficam um pouco com Rosa, mas pra aguentar a <em>bad<\/em>[g\u00edria usada para se referir ao estado de algu\u00e9m deprimido, triste ou chateado com alguma situa\u00e7\u00e3o] nem meu companheiro, assim, de levantar \u00e0 noite comigo&#8230; inclusive isso foi a causade v\u00e1rias brigas que a gente teve por conta disso, porque amamentar \u00e9 muito exaustivo. \u00c9 uma demanda de energia, \u00e9 uma demanda f\u00edsica.D\u00e1 muita fome, uma fome insaci\u00e1vel, parece at\u00e9 um buraco negro que tem dentro da gente. Ent\u00e3o, o que a gente precisa \u00e9 de rede de apoio. E quando eu falo de rede de apoio, n\u00e3o \u00e9 nem algu\u00e9m que venha cuidar da crian\u00e7a. \u00c9 algu\u00e9m que venha fazer qualquer outra coisa que venha deixar a gente livre. Eu, por exemplo, cortei meu cabelo porque, quando eu vi que sa\u00ed da maternidade e fiquei dez dias sem conseguir lavar meu cabelo falei: \u2018vei, n\u00e3o d\u00e1 pra ter um cabelo grande!\u2019.\u00c0s vezes pra gente tomar um banho, pra gente conseguir fazer necessidades fisiol\u00f3gicas! (risos). B\u00e1sicas, sabe? A gente precisa de algu\u00e9m. E vem toda uma inseguran\u00e7a que \u00e9 natural tamb\u00e9m nos primeiros dias. A gente precisa de rede de apoio, mas rede de apoio t\u00e1 cada dia mais imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>As campanhas de incentivo \u00e0amamenta\u00e7\u00e3o, feitas geralmente pelo Minist\u00e9rio da sa\u00fade, podem ser consideradas completas e importantes quanto ao tratamento do assunto?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>Sim. Inclusive o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tem uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande porque no Brasil o \u00edndice de mulheres que amamentam \u00e9 muito rid\u00edculo. As mulheres, em grande parte, amamentam somente 45 dias exclusivos. E tem uma lei que fode tudo.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade diz que a gente deve amamentar exclusivo at\u00e9 os seis meses, s\u00f3 que a gente tem uma lei que s\u00f3 ontem ou anteontem foi realmente aprovada para contemplar todas as mulheres e n\u00e3o s\u00f3 quem era funcion\u00e1ria p\u00fablica [a licen\u00e7a-maternidade para celetistas, ou seja, paras as mulheres que t\u00eam v\u00ednculo empregat\u00edcio regido pela CLT, deve passar de 120 para 180 dias. A proposta foi aprovada na quarta-feira, quatro de abril, na Comiss\u00e3o de Assuntos Sociais do Senado]. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 todo mundo que desfruta. Eu, por exemplo, n\u00e3o fui amamentada os seis meses porque minha m\u00e3e teve que voltar [ao trabalho] aos quatro, entendeu? E a\u00ed, assim, de informa\u00e7\u00e3o eles d\u00e3o muito. S\u00f3 que temos um problema: todo mito que se construiu em torno disso, n\u00e9? \u201cLeite \u00e9 fraco\u201d, \u201cS\u00f3 leite n\u00e3o sustenta\u201d. \u00c0s vezes as pessoas v\u00e3o buscar informa\u00e7\u00f5es das pessoas mais velhas, que j\u00e1 foram m\u00e3es e tal.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ou voc\u00ea buscaessas atualiza\u00e7\u00f5es por voc\u00ea mesmo, e a\u00ed voc\u00ea compra uma briga e fala: \u201cN\u00e3o, hoje mudou e o mais importante \u00e9 amamentar e n\u00e3o dar comida antes, pois o beb\u00ea n\u00e3o est\u00e1 preparado e tal e tal\u201d. H\u00e1 essa preocupa\u00e7\u00e3o,mas existe um recorte de classes tamb\u00e9m, que acho importante a gente levar em conta. Porque, por exemplo, pra amamentar \u00e9 muito f\u00e1cil pra uma mulher rica. Que n\u00e3o trabalha&#8230; amamentar exclusivo, fazer todas as coisas&#8230; cria\u00e7\u00e3o com apego, por exemplo, que foi uma coisa que eu escolhi e que \u00e9 muito dif\u00edcil pra mim que trabalho, que dou conta de mil outras coisas, que n\u00e3o tenho uma bab\u00e1 vinte e quatro horas por dia, entendeu? Ent\u00e3o a gente precisa considerar a condi\u00e7\u00e3o de vida dessa mulher, sabe?<\/p>\n<p>Mas, existe cartilha, existe tudo. Aqui em Conquista a gente tem o banco de leite que \u00e9 maravilhos\u00edssimo!Inclusive, quando eu tava com dificuldade de amamentar fui l\u00e1.E at\u00e9 quem n\u00e3o teve dificuldade, porque a gente vive insegura e elas [pessoas que trabalham no banco de leite] s\u00e3o maravilhosas para orientar. Fui doadora de leite tamb\u00e9m durante um tempo e isso \u00e9 importante tamb\u00e9m, n\u00e9! E \u00e9 o \u00fanico lugar que a gente tem assim&#8230; hoje eu acho que j\u00e1 existe consultoria de amamenta\u00e7\u00e3o particular, mas \u00e9 custoso. E a\u00ed, gra\u00e7as a Jah, a gente tem esse servi\u00e7o p\u00fablico. \u00c9 s\u00f3 ir no Hospital Esa\u00fa Matos, de segunda a sexta, que l\u00e1 tem toda orienta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Como voc\u00ea lidou com a autoestima e as cobran\u00e7as durante o puerp\u00e9rio?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>Ah, essa parte \u00e9 desesperadora! Eu, por exemplo, me senti a mulher mais incr\u00edvel do mundo gr\u00e1vida. P\u00f4, t\u00f4 carregando outra pessoa dentro de mim, v\u00e9i, tenho a capacidade de fazer isso, sabe? Gerar outro ser, e tal. Ent\u00e3o eu me sentia maravilhosa. E eu acho que fiquei linda mesmo! (risos). Mas depois que eu pari, gente&#8230;\u00a0 depois que a gente pare, tem essa queda de horm\u00f4nios e a\u00ed vai tudo pro espa\u00e7o&#8230; a libido&#8230; a\u00ed sexo \u00e9 uma coisa que n\u00e3o existe mesmo! A cabe\u00e7a da gente trai muito a gente.<\/p>\n<p>E tem a quest\u00e3o tamb\u00e9m que hoje eu habito um outo corpo,\u00a0 que n\u00e3o era meu, nunca foi meu. Ent\u00e3o eu tento olhar pro espelho e reconhecer essa Lys que eu sou agora, que \u00e9 completamente diferente. Antes eu n\u00e3o tinha espelho em casa, pra voc\u00eas terem uma ideia. S\u00f3 tinha o do banheiro que eu via s\u00f3 o rosto, porque eu n\u00e3o queria olhar para o meu corpo, n\u00e9?<\/p>\n<p>Ouvi piadas de familiares que falavam \u201cU\u00e9, voc\u00ea esqueceu o outro a\u00ed dentro?\u201d, essas coisas super desagrad\u00e1veis que a gente n\u00e3o precisa ouvir, mas ouve. Ent\u00e3o essa quest\u00e3o da autoestima \u00e9 muito foda, muito, muito, muito mesmo! Acho que acontece com quase cem porcento das mulheres.<\/p>\n<p>Rosa nunca dormiu uma noite inteira&#8230; e \u00e9 esse cansa\u00e7o constante, \u00e9 voc\u00ea olhar e falar assim:\u201cgente, tem tanta mulher maravilhosa\u201d. E assim, tem a cobran\u00e7a da sociedade de dizer \u201cVoc\u00ea tem que estar linda, porque sen\u00e3o seu marido te larga\u201d e \u201cVoc\u00ea tem que estar linda porque outras mulheres est\u00e3o lindas\u201d. Inclusive, eu fiquei muito na <em>bad<\/em>. Eu que me coloco como feminista, por exemplo, de ficar pensando que nesse tempo todo eu precisei, e quis v\u00e1rias vezes, de uma aprova\u00e7\u00e3o masculina. Eu quis ser desejada, sabe? Eu quis passar na rua e ouvir um psiu. Uma coisa que eu abominopra eu me sentir bonita, sabe? Mexia muito com essa quest\u00e3o, daquilo que eu defendo e da <em>bad. <\/em>E a\u00ed \u00e9 muito triste esse processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Em sua percep\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 import\u00e2ncia de se debater esse assunto, voc\u00ea considera que h\u00e1 fatores que impossibilitam essa conversa na sociedade?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>Tem v\u00e1rios. Acho que a pior coisa \u00e9 porque a galera acha que \u00e9 frescura isso, sabe? Porque todo mundo exige que a gente seja, assim, superm\u00e3es mesmo, entendeu? E eu n\u00e3o quero ser super nada. Eu sou uma pessoa que sofro todas as coisas. Queria ter meu puerp\u00e9rio amenizado. E a\u00ed, por exemplo, minha m\u00e3e que respeitou muito as minhas escolhas, pois fiz muita coisa diferente do que ela fez na cria\u00e7\u00e3o minha e do meu irm\u00e3o. Por\u00e9m minha m\u00e3e diz que n\u00e3o posso reclamar porque se eu fiz essas escolhas eu tenho que aguentar&#8230; E isso \u00e9 cruel. Eu falo isso pra ela: \u201cVoc\u00ea \u00e9 cruel, mam\u00e3e, de dizer um neg\u00f3cio desse\u201d. E a\u00ed, acho que s\u00e3o setenta ou oitenta porcento das mulheres que entram em depress\u00e3o p\u00f3s-parto. E tem o <em>baby blues<\/em>, logo depois que a crian\u00e7a nasce. Eu tive muito medo de depress\u00e3o p\u00f3s-parto. Muito! Eu chorei compulsivamente todos os dias depois do parto. Meu parto foi muito \u201cbadnoso\u201d [neologismo usado por Lys para dizer que seu parto foi conflituoso] ent\u00e3o eu sofri muito pra digerir toda a situa\u00e7\u00e3o. E quando eu falava isso pra minha m\u00e3e, ela n\u00e3o entendia como uma quest\u00e3o emocional. Entendia como algo espiritual, como for\u00e7as malignas que est\u00e3o querendo fazer com que voc\u00ea fique nessa condi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o cuide de sua filha. Ent\u00e3o falta \u00e0s pessoas saberem o que \u00e9 o puerp\u00e9rio e saber o que toda mulher passa. Boto f\u00e9 que minha m\u00e3e passou por isso, mas que ela n\u00e3o faz nem ideia.<\/p>\n<p>E tem as coisas dos pap\u00e9is que fode mais ainda. A responsabilidade exclusiva que \u00e9 colocada como nossa para cuidar dos filhos&#8230; inclusive de ouvir essas coisas \u201cah, mas voc\u00ea n\u00e3o pode reclamar porque sen\u00e3o voc\u00ea vai acabar perdendo o seu marido\u201d. N\u00e3o, eu posso reclamar, ele \u00e9 pai assim como sou m\u00e3e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio:<\/strong> Voc\u00ea demonstra ser uma pessoa bastante ativa, de fazer diversas coisas, como o seu artesanato. Com o p\u00f3s-parto, como voc\u00ea lidou com a situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>\u00c9&#8230;. Pra mim, a maternidade se resume numa palavrinha bem dif\u00edcilque \u00e9 solid\u00e3o. \u00c9 muito, muito solit\u00e1rio mesmo. Porque ningu\u00e9m consegue ter a dimens\u00e3o de tudo que a gente passa, n\u00e9? Minha vida parou por completo. Fui demitida do trabalho, e isso acontece com boa parte das mulheres depois do parto. Tenho um filho agora e tenho que ter uma fonte de renda, tenho que buscar outras alternativas. A maioria das m\u00e3es acabam caindo nissoque a gente chama agora de empreendedorismo materno, de um jeito bem bonito. S\u00e3o m\u00e3es que inventam alguma coisa pra tamb\u00e9m terem um tempo pra si que \u00e9 importante.<\/p>\n<p>A gente para ou para. Eu, por exemplo, n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de terceirizar o servi\u00e7o, ent\u00e3o tenho que fazer tudo. Ela depende exclusivamente de mim. Sou eu que paro, n\u00e3o \u00e9 meu marido que foi trabalhar agora e segue sua vida normal, ele n\u00e3o tem nada que o prende. Se eu for fazer a coisa mais simples que seja, eu tenho que pensar num roteiro, preparar todas as coisas, quanto tempo vou gastar, se tiver chovendo j\u00e1 me impede de sair&#8230; enfim, todos esses fatores eu passo a considerar.<\/p>\n<p>O <em>Bilhetes pra Rosa. <\/em>Nunca mais escrevi nada&#8230;era uma ilus\u00e3o que eu tinha, n\u00e9. Via mulheres maravilhosas, blogueiras, m\u00e3es, na internet e tal. \u201cAi, quando eu parir eu vou fazer um texto por semana pra contar as minhas impress\u00f5es da maternidade\u201d. Acho que n\u00e3o lembro a \u00faltima vez que atualizei o blog e eu tenho v\u00e1rias coisas na cabe\u00e7a que eu preciso sentar praescrever, mas que n\u00e3o tenho tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EXTRA!Ordin\u00e1rio: <\/strong>Quais grupos de apoio \u00e0s mulheres pu\u00e9rperas voc\u00ea indicaria em Vit\u00f3ria da Conquista?<\/p>\n<p><strong>Lys: <\/strong>Presencial eu ainda acho o Cirandeiras o melhor espa\u00e7o, que \u00e9 de apoio ao parto humanizado. Porque mesmo que a gente converse de coisas voltadas para o parto, a gente sempre acaba falando do puerp\u00e9rio, sempre divide alguma coisa. \u00c9 esse momento da gente encontrar outras pessoas que viveram e passaram por essa experi\u00eancia. Eu acho que aqui s\u00f3 existe esse. Agora, na internet, tem alguns grupos, por exemplo, o GVA, que \u00e9 o Grupo Virtual de Amamenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito legal. Tem tamb\u00e9m o chamado Maternidade Colorida que eu acompanho sempre. Tem o PsiMama que \u00e9 muito bom. O Milit\u00e2ncia Materna Ativa que eu gosto muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O puerp\u00e9rio ainda \u00e9 um assunto pouco comentado, apesar da necessidade de sua discuss\u00e3o na sociedade. \u00c9 um momento de extrema introspec\u00e7\u00e3o, fruto de uma enorme transforma\u00e7\u00e3o emocional.\u00a0 Falar sobre maternidade \u00e9 falar sobre vida, em todos os seus aspectos e especificidades. Gerar algu\u00e9m \u00e9 sublime, mas em detrimento de tantas quest\u00f5es sociais e culturais que oprimem e subjugam as mulheres, a maternidade em alguns momentos pode tamb\u00e9m ser definida por afastamento e desprazer. O nascimento de um beb\u00ea traz consigo\u00a0 uma s\u00e9rie de constru\u00e7\u00f5es e desconstru\u00e7\u00f5es para o \u201cser mulher\u201d da m\u00e3e. Trata-se de se reconhecerenquanto mulher, de conhecer o novo corpo, a nova rotina, as novas responsabilidades, a nova realidade. \u00c9 a filha que agora tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e.Mesmo que a viv\u00eancia de cada mulher seja distinta, a delicadeza e os in\u00fameros cuidados exigidos com a m\u00e3e e com o beb\u00ea rec\u00e9m-nascido s\u00e3o imprescind\u00edveis. A desconstru\u00e7\u00e3o de mitos, as redes de apoio entre familiares e amigos para a mulher pu\u00e9rpera e os espa\u00e7os para debate e esclarecimentos, s\u00e3o elementos que colaborariam para uma melhor aten\u00e7\u00e3o ao assunto e melhor tratamento deste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O nascimento de uma crian\u00e7a pode significar um momento alegrador para uma fam\u00edlia. Contudo, para a m\u00e3e do beb\u00ea rec\u00e9m-nascido, nem sempre essa chegada acontece de maneira harmoniosa. Em seu corpo, ap\u00f3s o parto, \u00e9 iniciada uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es hormonais, f\u00edsicas e emocionais, em um processo de adapta\u00e7\u00e3o com o beb\u00ea e recupera\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":123459,"featured_media":602,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[110,228,101],"class_list":["post-596","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-familia","tag-maternidade","tag-vida"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/123459"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=596"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":603,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/596\/revisions\/603"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/602"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}