{"id":623,"date":"2018-09-29T16:37:44","date_gmt":"2018-09-29T19:37:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=623"},"modified":"2018-09-29T16:37:44","modified_gmt":"2018-09-29T19:37:44","slug":"a-luta-das-mulheres-no-contexto-eclesiastico-e-os-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=623","title":{"rendered":"A luta das mulheres no contexto eclesi\u00e1stico e os direitos humanos"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;As religi\u00f5es s\u00e3o compostas por mulheres e lideradas por homens. Elas s\u00e3o maioria nos espa\u00e7os religiosos, mas ainda n\u00e3o assumiram pap\u00e9is importantes&#8221;. <\/em>Essas s\u00e3o as palavras da Pastora L\u00eddia Maria de Lima durante uma entrevista. O senso demogr\u00e1fico de 2010 do IBGE aponta que dos 42,3 milh\u00f5es de evang\u00e9licos no Brasil, 23,5 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres, compondo cerca de 55% da popula\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica do Pa\u00eds. Embora os n\u00fameros revelem uma maioria feminina no ambiente eclesi\u00e1stico, a realidade, entretanto, evidencia uma desigualdade exacerbada nesse mesmo espa\u00e7o. Nele, muitas mulheres s\u00e3o silenciadas e submetidas a tomarem decis\u00f5es que podem lev\u00e1-las a opress\u00e3o, e isso quase nunca acaba sendo percebido por elas.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que um conflito de ideologias emerge quando falamos da luta das mulheres e a Igreja, mas n\u00e3o deveria. Num contexto eclesi\u00e1stico do modelo de cristianismo ocidentalizado, a mulher est\u00e1 posta num papel de submiss\u00e3o e, durante muito tempo, seus lamentos foram silenciados. O discurso da Igreja segundo o qual ela precisa aprender os afazeres de casa, casar, ter filhos e manter o casamento ignora, na maioria das vezes, as grandes infer\u00eancias que podem ou n\u00e3o ser geradas a partir de tal discurso.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, muitas das \u201cnascidas na igreja\u201d, esse discurso \u00e9 a base de toda educa\u00e7\u00e3o que recebemos ao longo da vida, pois est\u00e1 enraizado nos princ\u00edpios dos nossos pais e se torna uma verdade para n\u00f3s. Eu n\u00e3o quero abarcar a exegese do termo <em>submiss\u00e3o<\/em> encontrado na b\u00edblia, mas o desconhecimento desse contexto b\u00edblico, at\u00e9 mesmo a falta de acesso a esse conhecimento levou muitas mulheres a serem submetidas a uma vida escravizada, em nome da felicidade da fam\u00edlia, do marido, dos \u201cprinc\u00edpios b\u00edblicos\u201d e, principalmente, de Deus. As mulheres, n\u00e3o tinham acesso ao conhecimento que os homens tinham \u2013 essa realidade tem sido redirecionada a partir de novas perspectivas, onde as mulheres est\u00e3o nas universidades, nos cursos teol\u00f3gicos, nas tomadas de decis\u00e3o da igreja, entre outras participa\u00e7\u00f5es &#8211; e isso tamb\u00e9m \u00e9 um reflexo do contexto social como um todo que as mulheres enfrentaram durante muitos anos e enfrentam at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Envolvidos no di\u00e1logo de que a mulher era inferior, somente os homens poderiam exercer fun\u00e7\u00f5es de grande prest\u00edgio dentro das igrejas. Nos meados do s\u00e9culo XX, ainda havia muitas restri\u00e7\u00f5es no que diz respeito aos direitos da mulher. O patriarcado manifestava a domina\u00e7\u00e3o masculina em todas as \u00e1reas e a Igreja n\u00e3o estava isenta desse sistema, pois refor\u00e7ava ainda mais o sistema que oprimia e inviabilizava os direitos das mulheres. Durante muitos anos as mulheres v\u00eam lutando para modificar essa realidade, mas ainda hoje essa domina\u00e7\u00e3o continua muito presente na sociedade. Muitas conquistas das mulheres s\u00e3o questionadas e amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>O termo Direitos humanos nos faz pensar na imagem do homem, como diz Ang\u00e9lica Tostes: \u201c\u00c9 aquela velha discuss\u00e3o sobre dizer quando dizemos \u2018homem\u2019 estamos automaticamente incluindo as mulheres, sendo assim, n\u00e3o ter\u00edamos que reivindicar os \u2018direitos humanos das mulheres\u2019. O patriarcalismo tem uma grande influ\u00eancia em nossa sociedade, inclusive, nas perspectivas de direitos humanos quando se usa uma linguagem masculina\u201d. Isso evidencia a maneira como n\u00f3s mulheres somos tratadas na sociedade, na maioria das vezes inferiorizadas, subordinadas, sem direito e respeito por quem somos e pela nossa identidade de g\u00eanero. Sendo considerada inferior, como se n\u00e3o fosse um ser social, a mulher n\u00e3o participou da forma\u00e7\u00e3o do Estado, por isso, instaurou-se um Estado patriarcal. A igreja, em linhas parecidas, foi constitu\u00edda por uma teologia masculinizada, uma teologia que exclui a intelectualidade da mulher.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar o fato de n\u00e3o se ouvir falar das mulheres que tiveram participa\u00e7\u00e3o efetiva na reforma protestante, a exemplo da esposa do pr\u00f3prio Lutero, Katharina Lutero, ou Marie d&#8217;Ennetieres te\u00f3loga reformadora protestante belga, dentre tantas outras, que tiveram papeis importantes naquele contexto. O protestantismo abriu espa\u00e7o, ainda que m\u00ednimo, para discuss\u00e3o sobre os direitos humanos, mas n\u00e3o podemos afirmar que o mesmo se preocupou com os direitos da mulher. Essa afirmativa \u00e9 evidenciada com os mais de cem anos de luta pela igualdade e pelos direitos fundamentais das mulheres dentro das sociedades protestantes.<\/p>\n<p>Ainda hoje, e eu parto do meu lugar de fala enquanto mulher protestante. Apesar de algumas mulheres evang\u00e9licas terem assumido cargos de maior import\u00e2ncia &#8211; como o pastorado e da realiza\u00e7\u00e3o de palestras e eventos para mulheres &#8211; a viol\u00eancia contra a mulher, o estupro dentro do casamento,\u00a0a sa\u00fade f\u00edsica e psicol\u00f3gica da mulher evang\u00e9lica, s\u00e3o\u00a0pouco\u00a0pautadas\u00a0no ambiente\u00a0eclesi\u00e1stico. Os dados revelam exatamente essa despreocupa\u00e7\u00e3o da igreja quando uma pesquisa recente da Universidade Presbiteriana Mackenzie mostra que 40% das mulheres que sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica s\u00e3o evang\u00e9licas. Os discursos da igreja est\u00e3o na maioria das vezes pautados na &#8220;vontade de Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Ruth (nome fict\u00edcio), evang\u00e9lica, de fam\u00edlia\u00a0evang\u00e9lica,\u00a0era carregada para o corredor da casa do seu vizinho, tamb\u00e9m evang\u00e9lico, v\u00e1rias vezes na semana. Ele tocava em suas partes \u00edntimas e dizia frases como &#8220;n\u00e3o se preocupe, n\u00e3o tira peda\u00e7o nenhum&#8221;. Dos sete aos dez anos ela passou por isso, at\u00e9 entender que se tratava de abuso. Cresceu, enfrentou e superou os traumas sozinha. A igreja nunca soube,\u00a0porque nunca perguntou. A gente cresce ouvindo que a mulher n\u00e3o pode rejeitar o marido porque ele tem uma necessidade fisiol\u00f3gica, mas\u00a0e\u00a0quando\u00a0o corpo da mulher n\u00e3o \u00e9 respeitado?<\/p>\n<p>Muitas mulheres s\u00e3o tra\u00eddas, rejeitadas, submetidas a casamentos escravizadores, obrigadas a \u201cserem do lar\u201d, sem poder trabalhar e, com isso, se mant\u00eam dentro do relacionamento na cren\u00e7a de que o companheiro vai mudar. O que me preocupa \u00e9 quando essas mulheres cansadas de viverem dessa maneira desenvolvem transtornos\u00a0psicol\u00f3gicos, traumas, depress\u00e3o ou chegam ao\u00a0suic\u00eddio.\u00a0\u00c9\u00a0preciso repensar os discursos pautados nos p\u00falpitos, em nome da\u00a0fam\u00edlia perfeita. A mulher n\u00e3o pode ser submetida a manter-se em uma rela\u00e7\u00e3o violenta e os direitos humanos da mulher devem ser respeitados. Os direitos humanos n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneos e ainda n\u00e3o atendem aos muitos direitos da mulher.<\/p>\n<p>N\u00f3s mulheres e, principalmente, n\u00f3s mulheres crist\u00e3s precisamos ser viabilizadoras de novos horizontes, novos discursos no contexto\u00a0eclesi\u00e1stico, onde a mulher evang\u00e9lica tenha voz, exer\u00e7a fun\u00e7\u00f5es importantes, e seja reconhecida n\u00e3o por seu\u00a0g\u00eanero, mas pelo seu engajamento, pela sua intelectualidade. Precisamos ser viabilizadoras de novas posi\u00e7\u00f5es para essas mulheres, nas quais elas entendam que n\u00e3o precisam se manter em rela\u00e7\u00f5es abusivas em nome da felicidade da fam\u00edlia, da Igreja, porque a sua felicidade, enquanto mulher tamb\u00e9m importa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As religi\u00f5es s\u00e3o compostas por mulheres e lideradas por homens. Elas s\u00e3o maioria nos espa\u00e7os religiosos, mas ainda n\u00e3o assumiram pap\u00e9is importantes&#8221;. Essas s\u00e3o as palavras da Pastora L\u00eddia Maria de Lima durante uma entrevista. O senso demogr\u00e1fico de 2010 do IBGE aponta que dos 42,3 milh\u00f5es de evang\u00e9licos no Brasil, 23,5 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":123459,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[235,234,142],"class_list":["post-623","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-direitos-humanos","tag-igreja","tag-mulheres"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/123459"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=623"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/623\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":625,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/623\/revisions\/625"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}