{"id":804,"date":"2019-04-07T17:53:44","date_gmt":"2019-04-07T20:53:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=804"},"modified":"2019-04-07T17:53:44","modified_gmt":"2019-04-07T20:53:44","slug":"so-mais-um-dia-cruel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=804","title":{"rendered":"S\u00f3 mais um dia cruel"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-806\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/GABRIELA-SOUZA-EMPREGADA-DOM\u00c9STICA-300x137.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"137\" srcset=\"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/GABRIELA-SOUZA-EMPREGADA-DOM\u00c9STICA-300x137.jpeg 300w, https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/GABRIELA-SOUZA-EMPREGADA-DOM\u00c9STICA.jpeg 689w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era mais um dia comum, Vera L\u00facia dos Santos acordou \u00e0s 3h30 da manh\u00e3. Como de costume tomou banho e vestiu o uniforme de empregada dom\u00e9stica. Comeu um pequeno peda\u00e7o de p\u00e3o dormido. E, para molhar a garganta e apaziguar o sono e o cansa\u00e7o, bebeu um cafezinho preto. Sim, preto! Pois o pouco de leite que restara na geladeira era sempre destinado aos dois filhos, Lucas Roberto de quatro anos e Pedro Augusto de apenas dois. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois do caf\u00e9, acordou o filho mais velho com um beijo e, pediu que cuidasse do irm\u00e3ozinho. Sempre deixava os meninos sozinhos, afinal de contas, precisava trabalhar e n\u00e3o havia dinheiro para pagar uma pessoa para cuidar deles. Antes de sair fez uma ora\u00e7\u00e3o pedindo prote\u00e7\u00e3o para os filhos. Pediu com muita f\u00e9 que n\u00e3o ocorresse nenhum tiroteio na sua comunidade e, seguiu tranquilamente morro abaixo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 eram 5h, estava muito atrasada para pegar a condu\u00e7\u00e3o, certamente receberia mais uma reclama\u00e7\u00e3o da patroa. Entretanto, a madame da Zona Sul, que nunca precisou usar um coletivo lotado, n\u00e3o tinha dimens\u00e3o que sua empregada precisava pegar dois \u00f4nibus e um metr\u00f4 para chegar no trabalho. Vera L\u00facia sempre ouvia da sua patroa que parasse de \u201cmimimi\u201d e acordasse mais cedo. A mo\u00e7a n\u00e3o tinha nada a fazer, al\u00e9m de falar baixinho para si mesma \u201cs\u00f3 se eu n\u00e3o dormir\u201d. Uma vez, falou um pouco mais alto e, quase perdeu o emprego. Precisou pedir de joelhos para n\u00e3o ser demitida, ao mesmo tempo que chorava e pensava nos dois filhos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E, mais um dia de servi\u00e7o come\u00e7a: lava, passa, cozinha, coloca e tira a mesa, d\u00e1 banho nas crian\u00e7as, leva o cachorro para passear, rega as plantas, faz faxina na casa. Ufa! Finalmente conseguiu parar para almo\u00e7ar. Chega \u00e0 tarde e, o servi\u00e7o continua, precisa pegar as crian\u00e7as na escola. Para Vera L\u00facia, \u00e9 triste pensar que cuida dos filhos dos patr\u00f5es, enquanto os seus est\u00e3o em casa sozinhos. Antes de ir embora, precisa deixar a mesa do caf\u00e9 pronta. Finalizado o servi\u00e7o, ela segue em dire\u00e7\u00e3o a esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A luta continua, o seu esfor\u00e7o agora \u00e9 conseguir um lugar para sentar, mas infelizmente n\u00e3o consegue e, todo o trajeto \u00e9 feito em p\u00e9, espremida na condu\u00e7\u00e3o como se fosse uma sardinha, ela s\u00f3 deseja chegar em casa, tomar um banho quente, brincar com os filhos e dormir. Enquanto sobe o morro, ouve trocas de tiros, fica desesperada e s\u00f3 pensa nas crian\u00e7as, mas antes de completar o pensamento, uma bala perdida atinge o seu cora\u00e7\u00e3o. Muito sangue escorre do seu corpo e Ver\u00e1 L\u00facia cai no ch\u00e3o morta. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, mais uma vida \u00e9 perdida pela viol\u00eancia que aflige o pa\u00eds. Vera L\u00facia, mulher, negra, m\u00e3e solteira e com apenas 23 anos, deixa dois filhos pequenos \u00f3rf\u00e3os de m\u00e3e, porque de pai, j\u00e1 eram antes do nascimento. O seu pedido de prote\u00e7\u00e3o aos filhos foi realizado, mas ela n\u00e3o teve tanta sorte. Seus filhos ficar\u00e3o jogados na sociedade sozinhos e, qual ser\u00e1 o destino dessas crian\u00e7as sem ningu\u00e9m para ampar\u00e1-los? Essa \u00e9 s\u00f3 mais uma tr\u00e1gica hist\u00f3ria que acontece todos os dias no Brasil. E ainda tem algumas pessoas que querem mais viol\u00eancia. Mas, vale lembrar que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o vive em condom\u00ednios luxuosos com seguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Era mais um dia comum, Vera L\u00facia dos Santos acordou \u00e0s 3h30 da manh\u00e3. Como de costume tomou banho e vestiu o uniforme de empregada dom\u00e9stica. Comeu um pequeno peda\u00e7o de p\u00e3o dormido. 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