{"id":968,"date":"2019-04-07T19:46:33","date_gmt":"2019-04-07T22:46:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=968"},"modified":"2021-08-29T16:07:29","modified_gmt":"2021-08-29T19:07:29","slug":"processo-de-alfabetizacao-de-criancas-com-sindrome-de-down","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/?p=968","title":{"rendered":"Processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com S\u00edndrome de Down"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_969\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-969\" class=\"size-full wp-image-969\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/extraordinario\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/ENTREVISTA-ANNA-CLARA-L\u00d4BO-FERNANDA-NOGUEIRA.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"428\" \/><p id=\"caption-attachment-969\" class=\"wp-caption-text\">Roseane Morais ministrando uma aula.<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A S\u00edndrome de Down, tamb\u00e9m conhecida como Trissomia do Cromossomo 21, \u00e9 uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que ocorre durante a gravidez ou logo ap\u00f3s o nascimento. O portador da s\u00edndrome apresenta um atraso cognitivo, como a demora para desenvolver a fala. Devido a isso, as crian\u00e7as que possuem essa defici\u00eancia precisam estudar em escolas com o ensino voltado \u00e0s suas necessidades, tornando assim, um ambiente inclusivo. Dessa forma, \u00e9 necess\u00e1rio haver uma sala multifuncional que tenha equipamentos, materiais did\u00e1ticos e atendimento educacional especializado para integrar pessoas com defici\u00eancia, promovendo o acesso ao ensino regular.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o objetivo de mostrar as dificuldades encontradas na alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com S\u00edndrome de Down, o <\/span><b>EXTRA!ordin\u00e1rio <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">conversou com Roseane Morais dos Santos, que em um determinado per\u00edodo de sua vida profissional trabalhou dando aulas para crian\u00e7as com necessidades especiais, na Escola Municipal Raimundo Baia da Nova. Atualmente \u00e9 professora do Ensino Fundamental I, graduada em Pedagogia e p\u00f3s-graduada em Psicopedagogia e Neuropsicologia, que concedeu uma entrevista no seu local de trabalho, a Escola Municipal Frei Serafim do Amparo. A entrevistada falou sobre o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com Trissomia do Cromosso 21 em escolas municipais e o modo de lidar com elas, al\u00e9m de comentar o relacionamento que construiu com os pais dos seus alunos durante a sua experi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Quando voc\u00ea come\u00e7ou a dar aula para crian\u00e7as com S\u00edndrome de Down? De onde surgiu esse interesse? Ou foi simplesmente a escola que determinou que voc\u00ea daria aula para essas crian\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Quando eu fiz a minha p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 fui direto para uma sala multifuncional. A Prefeitura [Municipal de Vit\u00f3ria da Conquista] me mandou para essa sala e eu j\u00e1 sabia que iria trabalhar com crian\u00e7as especiais, eu n\u00e3o sabia o qu\u00ea e nem quem estava me esperando l\u00e1, mas eu sabia que eram crian\u00e7as especiais.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Como foi o processo de conhecer as crian\u00e7as na sala?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 No in\u00edcio foi assustador, foi dif\u00edcil, porque eu n\u00e3o sabia exatamente por onde come\u00e7ar. Quando a gente sai da faculdade, n\u00e3o sa\u00edmos prontos, j\u00e1 que \u00e9 o nosso dia a dia, \u00e9 na pr\u00e1tica que vamos aprendendo a lidar com cada um deles, pois cada um tem uma natureza totalmente diferente.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio \u2013 Em que escola voc\u00ea obteve essa experi\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Escola Municipal Raimundo Baia da Nova.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Como era a sua rela\u00e7\u00e3o com os alunos? \u00c9 necess\u00e1rio ter uma prepara\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 ensinando?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Com a S\u00edndrome de Down uma era mais tranquila, e a mais velha, que era negligenciada pelos pais, me trouxe muitos problemas. Inclusive, essa, a escola n\u00e3o pode ajudar. N\u00f3s tivemos que buscar ajuda fora da escola, e ela precisou ser retirada. Se a pessoa n\u00e3o estiver preparada para trabalhar com essas crian\u00e7as, desiste, j\u00e1 que os profissionais que trabalham nessa \u00e1rea precisam desse controle, de informa\u00e7\u00f5es, ajuda, e buscar mais conhecimento.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Qual a prepara\u00e7\u00e3o, e a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que os professores precisam ter para lidar com essas crian\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Precisa ter Psicopedagogia e outras especializa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, porque tem v\u00e1rios cursos que poderiam fazer para trabalhar na multifuncional com essas crian\u00e7as. As escolas que n\u00e3o t\u00eam salas multifuncionais, t\u00eam outros espa\u00e7os maiores oferecidos, outros jogos, outras maneiras de trabalhar. <\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Como voc\u00ea avaliaria a estrutura da escola para receber essas crian\u00e7as com S\u00edndrome de Down?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Nessa escola havia o espa\u00e7o para receber essas crian\u00e7as, a sala multifuncional era bem equipada. No entanto, a maioria das escolas municipais em Vit\u00f3ria da Conquista n\u00e3o est\u00e3o preparadas para receb\u00ea-las.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; O que essas salas abrangiam, que demonstrava uma prepara\u00e7\u00e3o para receber esses alunos? <\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 N\u00f3s trabalh\u00e1vamos com muitos jogos, computadores e brincadeiras. Havia o tatame, o alfabeto, diversos livros e hist\u00f3rias. Eu me vestia, me caracterizava, era um trabalho pr\u00f3prio para eles.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Os materiais utilizados no processo eram l\u00fadicos?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 \u00c9 um trabalho totalmente l\u00fadico, porque a gente prepara aquela aula para eles, mas a crian\u00e7a com Down que escolhe o que quer fazer, pois ele n\u00e3o vai direto para aquela aula que voc\u00ea prepara. Voc\u00ea sempre vai com outros planos, porque \u00e9 muito dif\u00edcil ele aceitar o primeiro que voc\u00ea ofereceu para ele, j\u00e1 que ele tem autonomia para escolher.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Qual era normalmente o plano que voc\u00ea preparava na sala para dar essa aula para eles?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Eu sempre come\u00e7ava com hist\u00f3ria, me caracterizava para poder chamar aten\u00e7\u00e3o deles, para deix\u00e1-los mais calmos, tranquilos ou ent\u00e3o colocava m\u00fasica.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio \u2013 Mas como eles reagiam a esse processo? Era mais tranquilo, eles gostavam?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Alguns deles ficavam calmos, outros come\u00e7avam a gritar. O que gritava muito era um dos que tinha autismo, no dia que estavam todos juntos, pois havia dia que era separado, e um que era algo espec\u00edfico para cada um. <\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Como foi a sua experi\u00eancia dando aulas para crian\u00e7as com S\u00edndrome de Down?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Quando eu trabalhei na sala multifuncional, <\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o foram apenas crian\u00e7as com S\u00edndrome de Down, trabalhei com crian\u00e7as autistas tamb\u00e9m. No in\u00edcio foi um trabalho bem dif\u00edcil, porque eles n\u00e3o possu\u00edam s\u00f3 uma s\u00edndrome e os pais escondiam isso, sendo que as crian\u00e7as precisavam de medica\u00e7\u00e3o. No momento que a escola descobriu, n\u00f3s tivemos dificuldade, mas depois foi um trabalho favor\u00e1vel para mim, para eles, para a fam\u00edlia e para a escola.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Quais s\u00e3o as maiores dificuldades que os pais encontram para lidar com crian\u00e7as que tem a S\u00edndrome de Down?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Dos que eu trabalhei, acho que tr\u00eas ou quatro dos pais buscaram ajuda e me ajudaram, j\u00e1 que eles procuravam e me traziam ideias, e eu tamb\u00e9m levava para eles, ent\u00e3o ficou uma troca de trabalho. Mas hoje, eu percebo que os pais me procuram desesperados, sem saber o que fazer. N\u00e3o s\u00e3o crian\u00e7as que eu trabalho, mas s\u00e3o crian\u00e7as que as pessoas j\u00e1 sabem que eu trabalhei e me procuram pedindo ajuda.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; De que forma voc\u00ea acha que a escola e a fam\u00edlia podem contribuir para a aprendizagem dessas crian\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Esse trabalho \u00e9 paralelo, junto com o profissional e n\u00e3o deve ficar somente preso a escola. Buscar psic\u00f3logos, fonoaudi\u00f3logos, procurar ajuda na Universidade, pois tem muitos profissionais que podem ajudar. Ent\u00e3o, foi dessa maneira que eu vi muitos pais obtendo esses recursos, esse sucesso, buscando ajuda na universidade.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Por qual raz\u00e3o a fam\u00edlia escondia as outras s\u00edndromes, al\u00e9m da que j\u00e1 era avisada na escola?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Porque uma boa parte dos pais n\u00e3o aceitam as crian\u00e7as especiais, n\u00e3o aceitam dizer que os filhos s\u00e3o especiais.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio \u2013 Ent\u00e3o, a partir disso, nota-se uma dificuldade. O trabalho com elas dentro de casa seria complicado?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Sim. Inclusive, eu tive uma aluna com S\u00edndrome de Down que, no in\u00edcio, me batia e era muito agressiva, fazendo coisas que n\u00e3o esper\u00e1vamos. Ela apresentava problema de esofagite, e quando o alimento voltava para a boca, ela procurava onde eu estava para jogar em mim. Depois que n\u00f3s fomos descobrir que ela n\u00e3o possu\u00eda apenas a S\u00edndrome de Down, mas tamb\u00e9m outros transtornos. Ent\u00e3o, a partir desse momento, fomos buscando ajuda de psic\u00f3logos e de outros profissionais na Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Como era a rela\u00e7\u00e3o dessas crian\u00e7as na sala? Como os pais de crian\u00e7as que eram agredidas reagiam ao saber do acontecimento?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 N\u00f3s convers\u00e1vamos e explic\u00e1vamos que essa crian\u00e7a era especial, e como seus filhos tamb\u00e9m eram, de certa forma eles entendiam. Quando n\u00f3s come\u00e7amos a perceber que essa outra batia forte e machucava, come\u00e7amos a trabalhar um pouco mais separados com ela, at\u00e9 que a mesma entendesse os cartazes. Tamb\u00e9m funcionou atrav\u00e9s de filmes que eu colocava no computador. <\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Quando voc\u00ea come\u00e7a em uma sala nova, com crian\u00e7as com a s\u00edndrome, voc\u00ea percebe que diminui a agress\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Sim. Sempre que voc\u00ea vai concluir o relat\u00f3rio dessa crian\u00e7a, voc\u00ea percebe que essa crian\u00e7a mudou, que ela desenvolveu.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 viu casos em que os pais faziam atividades com as crian\u00e7as dentro de casa? Como eram realizadas?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Sim. Uma m\u00e3e marcou muito o in\u00edcio do meu trabalho, que foi essa primeira crian\u00e7a com Down que eu citei. Ela come\u00e7ou a fazer cartazes no quarto da crian\u00e7a, com tarefas, hor\u00e1rios e atividades que a menina cumpria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como ela n\u00e3o sabia ler, a palavra, a frase e o desenho ficavam na frente. A m\u00e3e colocava cartazes pela casa toda e trouxe essa ideia para mim e passei a fazer isso na sala de aula. Ent\u00e3o, quando ela ia bater em outra crian\u00e7a, eu mostrava o cartaz e ela passou a entender. Ela \u00e9 linda, \u00e9 minha paix\u00e3o. At\u00e9 hoje tenho contato.<\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; A rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com pessoas do conv\u00edvio social delas \u00e9 afetada de alguma forma pela s\u00edndrome?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Eu soube como era o conv\u00edvio de dois ou tr\u00eas, e eram bons. A fam\u00edlia \u00e9 bem pr\u00f3xima, carinhosa e cuidava bem. Mas s\u00e3o aquelas fam\u00edlias que aceitam, e n\u00e3o aquelas outras que recusam. <\/span><\/p>\n<p><b>EXTRA!ordin\u00e1rio &#8211; E no final das aulas, todos conseguiram ser alfabetizados?<\/b><\/p>\n<p><b>Roseane Morais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Essa que eu falei no in\u00edcio, e o que foi para o Paran\u00e1. Eram quatro no total, uma conhecia poucas letras e falava muito pouco, e a outra n\u00e3o falava nada. A mais velha s\u00f3 se acalmava com instrumentos musicais, mas quando eu partia para a parte da leitura, ela recusava e come\u00e7ava a gritar. Ent\u00e3o, apenas dois foram alfabetizados.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A S\u00edndrome de Down, tamb\u00e9m conhecida como Trissomia do Cromossomo 21, \u00e9 uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que ocorre durante a gravidez ou logo ap\u00f3s o nascimento. 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