Nova versão de Bolsonaro na Cúpula do Clima não convence e é vista com ceticismo
Convencer, de acordo com o dicionário Michaelis, é o ato de persuadir com argumentos, razões ou fatos. Essa foi a missão de Bolsonaro na Cúpula do Clima: convencer os líderes, jornalistas, especialistas e a população mundial de que seu novo tom perante as temáticas ambientais é genuíno. Porém, a nova versão do presidente, cheia de promessas bonitas e longe de serem alcançadas foram vistas com desconfiança.
Nos dias 22 e 23 de março, o líder participou da Cúpula do Clima, organizada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Concretizando sua promessa de campanha, o americano organizou o evento, que objetiva recompor a imagem do país no cenário global, diante do desempenho desastroso nas questões climáticas e ambientais durante o governo de Donald Trump.
Uma semana antes do evento, Bolsonaro começou a pôr em prática seu plano de convencer que a sua conveniente mudança de atitude é real. Com esse objetivo em mente, enviou uma carta ao presidente Biden, solicitando ajuda. No documento, afirmou estar comprometido a zerar o desmatamento ilegal até 2030 (mesmo que seu mandato acabe em 2022).
Já na Cúpula do Clima, o presidente brasileiro foi o 19º líder a falar, e em sete minutos, usou um discurso já conhecido pelos brasileiros, mas repaginado para “americano ver”. Bolsonaro tentou reverter a imagem catastrófica que o Brasil tem tido no setor ambiental, em meio a promessas que não condizem com a postura adotada durante sua gestão. Assim, tentou fazer bonito para as nações do mundo, especialmente os Estados Unidos, que afirmou poder contribuir com uma ajuda de 20 bilhões de dólares para combater o desmatamento na Amazônia, caso o Brasil demonstre estar efetivamente trabalhando com esse objetivo.
Mas Bolsonaro se esquece que não foi apagado de nossas memórias, que nossa Floresta Amazônica sofreu com o desflorestamento, que aumentou significativamente em seu comando. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), durante o governo Bolsonaro, entre agosto de 2019 e julho de 2020, a área florestal destruída por conta do desmatamento ilegal foi de 11.008 km², o equivalente a mais de 1.540 estádios de futebol. Registrando a maior destruição florestal dos últimos 12 anos.
Nós, brasileiros, também não esquecemos que o homem escolhido pelo presidente para proteger nossa fauna e flora, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está sendo investigado por exportação ilegal de madeira. Além disso, esse mesmo ministro, no dia 22 de abril, em reunião ministerial divulgada após aprovação do STF (Supremo Tribunal Federal), sugeriu que o governo deveria aproveitar o enfoque da imprensa na cobertura da pandemia para “ir passando a boiada”. Logo, de forma cruel, sugeriu que o governo aproveitasse dessa situação trágica que o Brasil tem passado, para aprovar reformas infralegais que só visam a destruição do meio ambiente.
E assim um Brasil que sempre participou ativamente nas questões ambientais, como em 1992, ano em que sediou a Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente, hoje se vê desacreditado. Por culpa de um governo irresponsável é visto por muitos, como inimigo do meio ambiente, sofrendo consequências econômicas por tais ações. Em 2019, quando recordes negativos de queimadas na Amazônia foram registrados, a Noruega suspendeu o fundo de 100 milhões de reais destinados a proteger a floresta. A Alemanha também interrompeu a ajuda de 155 milhões de reais que visava o mesmo objetivo.
Por esses motivos, já bem conhecidos na comunidade internacional, a imprensa estrangeira viu com ceticismo as promessas que Jair Bolsonaro realizou em seu discurso. Ele prometeu que até 2050 o Brasil irá alcançar a neutralidade climática. Além disso, afirmou que até 2030 o desmatamento ilegal na Amazônia será erradicado e a emissão de gases do efeito estufa no país serão reduzidos em 40%.
Apesar de alguns classificarem sua postura no evento como moderada, não se engane Bolsonaro, e por consequência o governo brasileiro, saíram da mesma forma que entraram, desacreditados. Em entrevista concedida ao The Guardian, os ex-ministros do meio ambiente, Rubens Ricupero e Marina Silva alegaram que o constante aumento do desmatamento na região amazônica não é decorrente da falta de dinheiro, e sim do descaso governamental.
Bolsonaro falhou em sua tentativa de convencer que (repentinamente) se tornou um guardião da Floresta Amazônica e amigo do meio ambiente. Agora, promessas não bastam e o presidente terá que, por meio de ações, mudar sua postura perante o mundo. Só assim, o Brasil será visto de forma confiável novamente

