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Democratura: uma ditadura disfarçada de democracia

O termo ditabranda é usado pelos saudosos do Regime Militar para minimizar os efeitos da Ditadura de 1964, um período de torturas e mortes, devido ao autoritarismo das décadas de 60 a 80. Surge agora uma nova expressão, ainda não muito veiculada, mas de grande significado, a democratura. Este termo estabelece que não há mais uma democracia em vigor, só que ainda não se efetivou, de fato, uma ditadura.

Democratura, aparentemente, pode parecer apenas a união das palavras democracia e ditadura, ou até mesmo uma referência a “povo” – em demo – e “escravatura” contrastando com a liberdade que costuma ser tirada da sociedade pelas ditaduras. No entanto, a expressão não significa apenas uma singela junção de palavras ou de sentidos, e sim corresponde a uma perturbadora e preocupante espécie de democracia simulada, na qual estamos inseridos. Isso, ao consideramos a atual conjuntura político-governamental brasileira, com militares no poder, que tiveram sua ascensão de forma democrática, por meio de uma eleição.

Uma ditadura disfarçada de democracia não é uma desvantagem exclusiva do Brasil. Por todo o mundo, figuras políticas autoritárias têm ganhado relevância em seus respectivos países graças às plataformas digitais, que difundem massivamente suas ideias e falsas informações que sustentam seu poder, a exemplo da Polônia, da Hungria e da Turquia. Nesses países, grandes ondas autocráticas têm varrido seus cenários políticos.

Naturalmente, os potenciais ditadores costumam ser de ultradireita e não hesitam em atacar a democracia. E a propósito, os golpes de estado que os colocam no poder, utilizando tanques de guerra nas ruas e militares armados, já caiu de moda. Hoje, os golpes vêm disfarçados, são dados gradualmente, ou até mesmo utilizando as ferramentas da própria democracia, como um impeachment ou uma eleição.

A democracia vai sendo devastada de dentro para fora, e quando se percebe ela não existe mais. Se com os tanques e com as armas não era fácil demarcar o início de uma ditadura, e só se dava conta da sua existência quando era impossível contê-la, quiçá de forma sutil, com o dissimulado apoio das instituições.

Ainda assim, é importante deixar bem claro que há algumas democraturas não tão sutis. Vivemos sob uma delas. A partir do momento em que manifestações organizadas, denominadas posteriormente de Jornadas de Junho de 2013, começaram a clamar, inicialmente, por melhorias estruturais no país; a ir contra a continuidade do governo Dilma Rousseff; a suplicar por uma intervenção militar e, mesmo assim, as instituições guardiãs da Constituição não barraram ataques como estes, que faziam apologia à ruptura democrática e deixou-se chocar o ovo da serpente.

Por outro lado, a mídia efetivamente apoiou a deposição de um governo sem crime de responsabilidade, fazendo jus ao impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. Permitiu-se que parte da sociedade acreditasse que o caos seria solucionado a partir da ação das Forças Armadas. Permitiu-se que as eleições de 2018 acontecessem em um ambiente carregado pela incerteza e pelas ações autoritárias e antidemocráticas de uma força-tarefa federal, a Lava-Jato, que sempre preferiu a prática política à justiça. Permitiu-se numa campanha eleitoral (2018), a mentira, a fuga, menosprezou-se as falas graves do candidato que estava mais propenso a ser eleito, Jair Bolsonaro, sendo elas contra liberdade, contra os direitos humanos, contra a democracia. Criou-se um monstro, um mito totalitário.

Ficou evidente que, diante do atual governo do Presidente, Capitão do Exército, Bolsonaro, e do Vice-Presidente, General do Exército, Hamilton Mourão, recheado de ministérios, secretarias e altos cargos comandados por atabalhoados militares, a democracia, alcançada com o fim da Ditadura Civil-Militar em 1985, nunca esteve realmente consolidada no imaginário de parte da população brasileira, incluindo políticos, militares, juízes e cidadãos comuns.

Diante da primeira instabilidade mais grave da redemocratização, começaram a eclodir fortes brados defendendo uma militarização no governo. Com o objetivo de acabar com a crise que o Brasil enfrentava e que tinha sido criada justamente para este fim. Relevando, inclusive, o fato de que uma intervenção militar poderia acarretar num novo regime ditatorial. Uma intervenção militar, por meio da eleição de militares para o comando máximo do país, acarretou numa ditadura camuflada, numa democracia simulada, ou, simplesmente, numa Democratura que tem sido aceita de forma passiva pela sociedade.

Rose Aguiar
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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