Bolsonaro e Guevara: Heróis de si mesmos
Discursos ornados. Sim, eles são conhecidos por suas proclamações incendiárias que engravidam as mentes de um povo sedento por fotogenia. Disponibilizam uma figura heroica e, acima de tudo, carismática, de postura incontestavelmente convincente. O ilógico adquire tom realizável e quase poético. Suas falas preenchem um vácuo originado pela inexistência de uma vida indecente em todos os sentidos da palavra, com dizeres transbordando bravura e patriotismo.
Jair Messias Bolsonaro, o Jair Bolsonaro, e Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara, estiveram, permanecem e/ou são tidos como representação de interesses sociais em seus respectivos ambientes de atuação. Entretanto, revelar-se-ão homens altamente prejudiciais para a sociedade por meio de falas que, ao serem transcritas ao papel, produzem o horror.
Choramingar o cenário atual, fazer de sua história uma pertinácia, atribuir às influências universais a autoria do caos na América Latina e venerar personagens malévolos é a especialidade dos latinos americanos, como dizem Leandro Narloch e Duda Teixeira em sua parceria no livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina, em que apontam Che Guevara como o falso herói latino-americano.
A história registra personagens ovacionados por cativar sua plateia sem ao menos apresentarem propostas e ideias humanamente realizáveis, somente com protesto de ódio contra estrangeiros. Nesse perfil encaixa-se Che que, ao lado de Fidel Castro durante o processo de revolução de Cuba, pregava que para erguer o comunismo, teria de se criar o “homem novo”. Essa ideia se fundamentava no pensamento filosófico iluminista de que o ser humano é adaptável, funcionando como uma superfície lisa que pode ser transformada a depender do ensino, do desejo de revolução. A aplicação desse discurso implicava na caça dos que não se encaixavam nos moldes do famigerado “homem novo”.
Guevara acreditava na reeducação pelo esforço braçal e inaugurou um campo de trabalho forçado em Cuba no qual inexistia quaisquer julgamento ou direito de defesa aos locados ali. Os campos abrigavam os incompatíveis com o conceito de “homem novo”: homossexuais, testemunhas de Jeová, sacerdotes do Candomblé, católicos, alcoólatras e portadores de HIV.
A organização Arquivo Cuba atribui ao nome do argentino Ernesto Guevara de la Serna, o envolvimento em ao menos 144 mortes entre os anos de 1957 e 1959. Mas, muito antes de tornar-se líder revolucionário, o argentino já explicitava seu impulso sanguinário. Anotações feitas por ele durante viagem de moto pela América do Sul, em 1952, transformaram-se no livro Diários de Motocicleta, nome também da produção cinematográfica. O filme deixa de lado passagens interessantes de seu diário, como: “atacarei de frente as barricadas ou trincheiras, banharei minha arma em sangue e, louco de fúria, cortarei a garganta de qualquer inimigo que me cair nas mãos.”, e ainda: “e eu preparo meu ser como se ele fosse um lugar sagrado, de modo que nele o uivar bestial do proletariado triunfante possa ressoar com novas vibrações e novas esperanças.”.
O diário de Che trouxe à tona o domínio obsessivo da conduta individual, além de julgar o parâmetro revolucionário superior às leis de convivência. Sua primeira vítima foi um camponês, guia dos guerrilheiros em determinado local. Somente 40 anos após a morte, em 1997, foi descoberto a exatidão do executor de Eutimio, por um biógrafo que teve acesso ao diário. Na passagem descreveu: “[…] acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio.”. Frio e indiferente acrescentou: “Assim fiz, e seus bens agora me pertenciam. Dormimos mal, molhados, e eu com um pouco de asma.”. Sem menção que revelasse qualquer dose de remorso, no dia seguinte a execução, seu foco já havia mudado, chegaram à fazenda de uma bela ativista na qual Che a detalhou como “[Ela é] grande admiradora do Movimento, e a mim parece que quer foder mais do que qualquer outra coisa.”.
Contraditório o bastante para odiar o comunismo, mas adotar conduta tão semelhante a de Che, que é o herói dessa organização socioeconômica, o candidato que concorre à presidência do Brasil em 2018, Bolsonaro, destila mensagens misóginas, de incitação à violência e ainda deixa claro seu posicionamento de repulsa aos homossexuais. Com a saída do líder das pesquisas eleitorais, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, atualmente preso, Bolsonaro, candidato da extrema direita, encontra-se no segundo lugar.
Dono de falas como: “A sociedade brasileira não gosta de homossexual, suporta”; (ao ser questionado sobre sua atitude se seus filhos tivessem um relacionamento com uma mulher negra ou com homossexuais) disse: “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados”; “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.”; “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele”; e, por fim: “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”.
Esses são somente alguns dos absurdos proferidos pelo presidenciável que, segundo estimativa da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, tem, no país, população LBTGQI (a sigla abrange os queers, pessoas que não se veem como sendo exclusivamente do gênero masculino ou feminino, e intersexuais, ou hermafroditas) que ultrapassa a cifra dos 20 milhões de brasileiros, cerca de 10% da população nacional.
Político conservador, trava suas batalhas partidárias principalmente, em nome da família e justifica o “comportamento da moda”, referindo-se à homossexualidade, como decorrente de uma educação “frouxa”, dizendo que surras “bem dadas” durante a infância funcionariam como correção da conduta de pessoas que simplesmente optaram por escolhas que se diferem das de Jair, mas em nada interferem em sua vida.
Bob Fernandes, jornalista e crítico político, diz que Bolsonaro produz o horror e argumenta com o fato de que esse “rasga a Constituição do país”. Fernandes registra as inúmeras homenagens e menções de Jair à líderes da ditadura militar no Brasil. Bolsonaro já declarou que “o cara tem que ser arrebentado para abrir a boca”. Ademais, durante o processo aberto de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, dedicou seu voto a Carlos Alberto Brilhante Ustra, Coronel do Exército Brasileiro. Ustra foi o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça Brasileira como torturador e chefe do DOI-CODI sigla de Destacamentos de Operação Interna (DOI) e aos Centros de Operações e Defesa Interna (CODI), atuantes durante a ditadura militar, que são responsáveis, ao menos, por 500 casos de tortura e por mais de 40 assassinatos.
Maria Amélia de Almeida Teles, integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, torturada pelo próprio Ustra, relata: “Inclusive, eu sofri uma violência, ou várias violências sexuais. Toda nossa tortura era feita [com] as mulheres nuas. Os homens também. Os homens também ficavam nus, com vários homens dentro da sala, levando choques pelo corpo todo. Inclusive na vagina, no ânus, nos mamilos, nos ouvidos. E os meus filhos me viram dessa forma. Eu urinada, com fezes.”. Bolsonaro é prova de que a ditadura não se faz tão longe quanto o pensado, revivendo esse momento sombrio da história do Brasil com louvor e brilho nos olhos, almejando-o. Em discussão com manifestantes, o candidato à presidência da República afirmou que a ditadura errou quando não matou, somente torturou.
Bolsonaro ainda reserva parte de suas locuções para a humilhação e menosprezo para com as mulheres. Em diversos momentos, deu entrevistas e bradou falas machistas. Uma delas se manifestou durante um bate-boca com a deputada federal Maria do Rosário, proferindo, aos berros, que era imerecida de estupro. Ademais, usou as seguintes palavras ao se referir à uma senadora: “com aquela cara nem com viagra na veia.” Pontua ainda que as mulheres devem sim ganhar salários inferiores aos dos homens já que engravidam e, com a licença maternidade, acabam por trabalhar menos durante o ano.
Novamente sobre Bolsonaro, Fernandes diz: “não se deixem seduzir por ele que pode ser folclórico, animador de público, engraçado às vezes, mas perigoso para a democracia.”. Jair Messias Bolsonaro, conhecido por sua tão afamada frase: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, causador do horror no país por uma sociedade que se abastece de suas palavras inflamadas e declamadas em nome de Deus e em prol da família, constitui o que de mais horripilante ousar-se-ia sugerir em um candidato que concorre como capitão do time de futebol do bairro, quiçá da presidência de uma nação!
É, no mínimo, excêntrica sua fixação com a homossexualidade que, mesmo depois de tantos depoimentos controversos quanto aos relacionamentos homoafetivos, diz não ter preconceito e sempre dá um jeito de fazer graça com o assunto. Sabe como é, né? O jeitinho brasileiro de conduzir as situações, de esconder seu pré-conceito e preconceito.
O posicionamento de Jair Bolsonaro sobre diversas questões, a meu ver, se aproximou muito aos pontos também levantados por Che Guevara. O armamento para preparar e proteger a quem precisa é discurso enfático de ambos. Assim como o preconceito que Che, sem pretensão de esconder, explicitava sobre os gays, mas que, nesse momento da corrida eleitoral, Bolsonaro tenta suavizar. Suas pronúncias menos enérgicas há um bom tempo, não carregam o mesmo teor de ódio, violência e berros de outrora. Se esquiva de assuntos da forma mais engraçada que pode, distribui sorrisos e dá sempre conselhos para a harmonização do lar! Quase um guru! Isso se não mencionarmos frases como “bandido bom, é bandido morto” ou “violência se combate com violência”, tão pacífico!
“O ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona para além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar, Nossos soldados têm de ser assim; um povo sem ódio não pode triunfar sobre um inimigo brutal.”. Absurdos proferidos por Che, que, no ato da leitura, consegui vislumbrá-las perfeitamente saindo da boca do próprio Jair Messias. Como diz Nelson Werneck Sodré: “Os embustes históricos apenas mudam de forma.”.

