Desafios na formação do jovem em escola pública durante a pandemia
por: Laína Andrade

Manoel Rocha Lourenço, 38 anos, é professor. Para ele o professor foi uma âncora, um suporte e um interlocutor do conhecimento e do aluno. Foto: Kelly Gonçalves Matos.
Manoel Rocha Lourenço é professor de Química, Biologia e Física há quinze anos. Leciona na Escola Estadual de Ninheira, no interior do Norte de Minas Gerais e relata como foi o ensino remoto para os jovens durante a pandemia do novo Coronavírus.
Problemas como: evasão escolar; inexperiência dos jovens e professores com o ensino remoto; falta de acesso à internet e aos equipamentos tecnológicos, foram enfrentados tant por alunos, quanto por professores. O Instituto Unibanco e o Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) realizaram uma pesquisa em 2021, fazendo uma estimativa quanto à “Perda de aprendizagem na pandemia” com estudantes das redes estaduais brasileiras de educação que concluiriam o Ensino Médio no ano de 2021. A pesquisa comparou o “possível desempenho dos alunos, se a pandemia não estivesse acontecendo” versus o “desempenho mediante o ensino remoto”, e os resultados foram negativos. Houve uma diferença significativa entre o que se esperava que os alunos aprendessem sobre o que eles de fato aprenderam. Essa situação pode gerar perdas significativas socialmente e economicamente, por isso é importante entender como aconteceu a formação dos estudantes do ensino médio durante o período pandêmico na perspectiva do professor Manoel Rocha Lourenço.
EXTRA!Ordinário: Professor Manoel, quais foram as soluções apresentadas ao corpo docente, pelo Estado, durante a pandemia para o retorno das aulas remotas?
Manoel Rocha – Aqui, tivemos praticamente zero contribuição do Estado. Nós professores nos desdobramos com os nossos próprios recursos. Não tivemos nem um tipo de suporte para adentrar essa área da informática e nem um tipo de contribuição com recurso para essa finalidade. Houve a criação de uma apostila, um PET (Plano de Estudo Tutorado), como se fosse um módulo didático, mas, sequer a correção virtual desse PET era feito pelo Estado.
EXTRA!Ordinário: Os Planos de Estudo Tutorado (PET) foram apostilas com atividades que deveriam ser feitas pelos alunos e que foram disponibilizadas pelo Governo do Estado de Minas Gerais. Para você, os conteúdos apresentados nessas apostilas foram proveitosos?
Manoel Rocha – A partir da chegada dos PETS as coisas melhoraram um pouco. Os PETs chegaram uns dois, três meses depois [do início do ensino remoto]. Inicialmente, chegaram com erros de digitação, erros pedagógicos etc. Introduzir a educação com um PET que você vê que não é um material de boa qualidade é difícil. Então eles [os alunos] tiveram dificuldade de aprender.
EXTRA!Ordinário: Senhor Manoel, quais foram os maiores desafios enfrentados por você ao ministrar as suas matérias?
Manoel Rocha – A maior classe de professores que teve dificuldades, fomos nós, professores da área de Exatas e Ciências da Natureza. Não tem como explicar a um aluno uma equação de segundo grau por áudio. Tivemos que adaptar, pesquisar, buscar novas ferramentas. Tivemos que comprar programas de computador. Eu mesmo tive que dispor de um valor financeiro para comprar um programa caro para instalar no meu computador porque com o celular, não é o ideal. (SIC)
EXTRA!Ordinário: Você percebeu resistência dos alunos para participarem das aulas ou aprenderem os conteúdos por estarem participando das aulas de forma online?
Manoel Rocha – Sim. Quando nós temos alunos na sala de aula, já é muito complicado obter atenção. Foram poucos os alunos que interagiram nas aulas. Isso foi melhorando a partir do momento que a pandemia se estendeu e eles viram que a única forma para ter aproveitamento nos estudos era remotamente.
EXTRA!Ordinário: Sr. Manoel, quanto à formação do aluno como cidadão, a escola exerceu com êxito esse papel durante o período do ensino remoto?
Manoel Rocha – Eu acredito que a escola pública, no Brasil, exerceu esse papel com proeza. A escola pública hoje é voltada para uma formação humana e integral do aluno.
EXTRA!Ordinário: Professor, os alunos do último ano do Ensino Médio se mostraram seguros ao terminarem os estudos de forma remota?
Manoel Rocha – Não. Todos os que se formavam tinham insegurança por saírem do Ensino Médio com dificuldades e com o sentimento de que o dever não tinha sido cumprido.
EXTRA!Ordinário: Quais foram as consequências percebidas no desempenho dos alunos ao retornar às aulas presencialmente, após o longo período de aulas remotas?
Manoel Rocha – Nós tivemos algumas reuniões pedagógicas visando uma avaliação diagnóstica. Vimos que os nossos alunos estagnaram na educação. Dois anos de aulas foram resumidos em três meses, no máximo.
EXTRA!Ordinário: Na sua opinião, há a possibilidade de reparar os danos causados na formação dos alunos que ainda não se formaram?
Manoel Rocha – Sim. Mas deveria ter uma introdução de programas eficazes nesse sentido. Se os Estados e o Ministério da Educação tiverem o desejo de implantar programas educativos voltados para esse prejuízo, esse reparo acontecerá com facilidade.

