Pecuária e meio ambiente
A pecuária é a atividade econômica de criação de animais que tem como propósito a produção de alimentos para o consumo humano e para fins comerciais. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a previsão é de que o valor da produção em 2022 seja de R$ 369,15 bilhões. No entanto, apesar da notoriedade econômica do movimento pecuarista, o impacto ao meio ambiente chega a ser superior aos símbolos tradicionalmente divulgados, como transportes, energia e agricultura. Desmatamento, consumo excessivo de água, desperdícios e mudanças climáticas são assuntos que nos preocupam constantemente. Mas você já parou pra pensar em qual seria o impacto da pecuária nisso? Esse questionamento está presente nos debates internacionais e traz a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento que concilie a conservação do meio ambiente com o crescimento econômico.
O desmatamento configura como uma das principais consequências da pecuária no Brasil, principalmente na Amazônia. O bioma que abriga mais espécies de plantas e animais do que em qualquer outro lugar do mundo está sendo destruído. Nos seis primeiros meses de 2022 o desmatamento na Floresta Amazônica registrou recorde, com cerca de 3.988 km² em área devastada, um aumento de 80% na média em relação ao mesmo período de 2018, antes da gestão do atual governo. A análise é de pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). A destruição do habitat desencadeia na diminuição da biodiversidade e é um fator crescente e preocupante. A dura realidade demonstra escancaradamente a impunidade como a maior inimiga da floresta e de seus povos.
Fechar as torneiras para escovar os dentes, tomar banhos mais rápidos e se preocupar em gastar o mínimo de água possível são medidas significativas para a conscientização sobre a escassez e preservação da água. Todavia, a pecuária é responsável por utilizar 70% de toda a água doce consumida no planeta. Essa quantidade enorme de água é utilizada principalmente para a plantação de grãos destinados para a ração dos animais e para irrigar pastos. Um boi de corte que vive por 3 anos consome, durante toda a sua existência, 31 milhões de litros de água: 24 milhões pra se hidratar e 7 milhões para os serviços da indústria. Ele irá consumir 1300 kg de grãos e, sendo assim, para as pessoas poderem comer 1 kg de carne, 16 mil litros de água são consumidos, exatamente o que uma pessoa precisa pra viver por 4 meses, segundo a Organização das Nações Unidas. Em contrapartida, muitas pessoas ao redor do mundo vivem com a falta de água potável por longos períodos e chegam a passar sede.
A indústria da carne não é só a maior consumidora de água do mundo, mas também a maior consumidora de grãos. No Brasil, enquanto mais de 33 milhões de pessoas não têm o que comer, aproximadamente 80% de todos os grãos cultivados são destinados à alimentação de animais explorados para o abate. Para muitos ativistas, a solução para tal problemática seria a mudança para uma dieta sem carnes e derivados por parte daqueles que têm acesso a essa informação, distribuindo melhor os alimentos e erradicando assim a fome que é vivida por 15,5% da população brasileira. O vegetarianismo ambiental contribuiria também para a economia de milhões de litros de água. Ainda de acordo com a FAO (Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), 9 bilhões de pessoas conseguiriam ser alimentadas em 2050 se 40% de todas as colheitas produzidas fossem direcionadas para o consumo humano.
Convencionalmente as mudanças climáticas têm como principais causas veiculadas o setor industrial, os meios de transporte e a produção de energia. No entanto, a pecuária, muitas vezes deixada em segundo plano, tem impacto eminente quando o assunto são as transformações de temperatura e clima. Para além das consequências do desmatamento, o impacto mais famoso que a criação de gado gera diretamente é a liberação de metano através do processo digestivo dos animais. A pecuária é responsável por 14,5% da emissão de gases do efeito estufa em todo o mundo, o equivalente a 7,1 bilhões de toneladas de CO-2 por ano, conforme dados da FAO. Dentro desse setor, 65% das emissões são oriundas da criação de animais para carne, leite e outros produtos, como esterco.
Além disso, porcos, vacas, galinhas, peixes e outros bichos criados para o abate sofrem miseravelmente em fazendas de exploração animal. A violência e a crueldade a que são submetidos são horrendas, além dos abusos físicos por parte dos funcionários. As condições insalubres de vida e alimentação prejudicam o bem-estar que está bem longe de ser defendido pelas mesmas leis que são destinadas para a defesa daqueles tradicionalmente tidos como domésticos, como cachorros e gatos. Apesar de a indústria da carne defender que esses animais vivem de maneira digna e com pouco sofrimento até a sua morte, é notável que a exploração os trata apenas como máquinas produtoras de alimentos e derivados. Até quando essa exploração de vida será normalizada por nós?

