Existe deserto no Brasil?
Por mais que a palavra deserto e o seu significado nos remetam ao solitário, a questão de sua existência e importância simbólica nos envolve como seres pertencentes de um mesmo nicho, a vida. A terra, para muitos, é o chão de cada dia. Do sustento. Para outros não vai além do chão que se pisa. Será que a mesma mão que planta e que deveria cuidar é a mesma que contribui para a destruição?
Em 1994, A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a data de 17 de junho como o Dia do Combate à Desertificação. Ao ouvir esse termo, talvez possa vir à mente a imagem de um solo seco e com várias rachaduras. E é isso mesmo! Porém, esse cenário já é a reta final de um longo processo.
Como fatores de contribuição para essa degradação, estudos apontam para uma cadeia destrutiva que inclui a ação humana: com altos índices de extrativismo mineral e vegetal, em sua maioria ilegal; assim como o desmatamento, queimadas, e uso intensivo e inadequado do solo para o agronegócio.
Talvez por não ter efeitos em uma visão imediatista, muitos encaram essa realidade como invisível ou distante de sua prática social, mas ela impacta diretamente a distribuição de água, aumenta a desigualdade social e agrava a insegurança alimentar, sobretudo para os mais vulneráveis que não terão condições de se adequar aos sucessivos aumentos no preço dos alimentos.
A verdade é que, atualmente, cerca de 13% do território brasileiro sofre com a desertificação. O semiárido nordestino é uma das maiores áreas do mundo suscetíveis a este fenômeno, com extensão de 1,3 milhão de km² e população de 31 milhões de pessoas. Desde 1845, oito períodos de seca foram registrados por agências governamentais de monitoramento dos ciclos de seca prolongada, a última entre 2012 e 2017.
As secas prolongadas são causadas pela escassez de chuva. Sendo o Sertão nordestino que apresenta as menores incidências de chuvas, isso em âmbito nacional, a problemática é ainda agravada pela ação conjunta do homem, que afeta de forma drástica e direta em uma redução da produtividade econômica, no ecossistema natural, na segurança alimentar e, sobretudo, na sobrevivência da vida na Terra.
Apesar da dificuldade em monitorar o processo de desertificação durante a pandemia, existem indícios de que o cenário ainda é muito preocupante. A exemplo do núcleo de Cabrobó (PE), região em que a desertificação alcançou uma vasta área nas duas margens do São Francisco. Esta área equivale a cerca de três vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro! Entre as consequências estão os prejuízos na qualidade do solo, a morte de animais da região, desequilíbrio na biodiversidade local, perda de recursos hídricos, redução na produção de alimentos e aumento no fluxo migratório.
Os estados brasileiros mais impactados pela desertificação são Alagoas (com 32,8% de sua área total afetada pelo fenômeno), Paraíba (27,7%), Rio Grande do Norte (27,6%), Pernambuco (20,8%), Bahia (16,3%), Sergipe (14,8%), Ceará (5,3%), Minas Gerais (2%) e Piauí (1,8%). A Caatinga ficou mais seca nos últimos 36 anos. Segundo Humberto Barbosa, o coordenador de pesquisa do IPCC (em português, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), “A região semiárida é a mais impactada (pela mudança do clima) no Brasil, e é a região onde você tem os índices de desenvolvimento humano mais baixos do país”.
A previsão ainda é de mais alerta e nada animadora. O IPCC afirma que essas condições devem se agravar: na década de 2030 o mundo deve atingir um aumento de 1,5°C em sua temperatura média, em boa parte do Brasil os dias mais quentes do ano terão um aumento da temperatura até duas vezes maior.
Trazendo esse quadro ainda para mais próximo da nossa realidade regional, das dez cidades mais afetadas pela retração do bioma, oito estão na Bahia. São elas: Campo Formoso, Serra do Ramalho, Bom Jesus da Lapa, Itaberaba, Rodelas, Macururé, Queimadas e Jeremoabo. Estudos e levantamentos por satélite apontam diferentes motivações para este cenário desafiador: 10% da vegetação desapareceu por causas naturais, mas não é possível esquecer o papel do agronegócio como o maior responsável por extinguir trechos localizados nos municípios do Oeste do estado.
Os maiores prejudicados são as populações locais, que tendem a enfrentar períodos de oscilações na quantidade e regularidade de água, o que impacta gravemente a possibilidade de prosperidade econômica e sobrevivência. Da mesma forma que o deserto é esquecido, a população local e suas problemáticas também são. De acordo com o G1, a área afetada pela desertificação no Brasil concentra cerca de 85% da população mais pobre de todo o país.
Para diminuir o impacto descrito como irreversível por pesquisadores especializados, é possível debater sobre a temática em nível local e nacional, fiscalizar implementações de plantio que minimizem prejuízos no solo e incentivar os núcleos de pesquisa para que possam acompanhar, mapear e propor alternativas que priorizem a qualidade de vida, sobretudo, daqueles que vivem nas regiões diretamente afetadas.
Individualmente, é importante construir um olhar sensível para o outro, para o espaço compartilhado: consumir diretamente dos pequenos produtores locais, conhecer e incentivar os projetos regionais que se atentem para a produção agroecológica e buscar informação sobre lógicas sustentáveis de plantio como a permacultura, que é a cultura com objetivo de manter a estabilidade, diversidade e resiliência do ecossistema natural.
Na Bahia existem projetos sustentáveis de produção alimentícia e extração vegetal, à exemplo do Sucupira Agroflorestas, Rede Bem Viver, Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá), Gaviãozinho, Comunidades que Sustentam a Agricultura Familiar na Bahia (CSA Bahia), Seta Ambiental, Cooperativa Mista de produção e Comercialização Camponesa da Bahia (CPC-BA), Feirinha Ecoema de Vitória da Conquista, Feira Ponto de Encontro de Vitória da Conquista, entre outras iniciativas que visam diminuir o impacto negativo da produção, manter o equilíbrio ambiental e produzir alimentos saudáveis e de qualidade. Que tal nos unirmos?

