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A violência sofrida por quem se mantém de pé pela floresta

O cenário do meio ambiente brasileiro atual é marcado pelo avanço do agronegócio, das monoculturas, do desmatamento, do garimpo ilegal e de megaempreendimentos sobre o ar, a terra e a água, em conjunto com um governo que atua flexibilizando leis ambientais, desmonte de órgãos como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e por escândalos envolvendo madeireiras. Em consequência disso, o Brasil ocupa a 4° posição no ranking de países que mais mata ambientalistas no mundo, de acordo com a ONG Global Witness. Ademais, se for considerada a série histórica de assassinatos de defensores de direitos humanos no mundo entre 2015 e 2019, o Brasil passa a ocupar o segundo lugar do ranking, segundo informações de Anastasia Divinskaya, representante da ONU Mulheres Brasil, e Mary Lawlor, relatora especial das Nações Unidas.

Ao falar sobre violência contra ambientalistas, é de suma importância destacar as mulheres que assumem a linha de frente da defesa ambiental. Elas são principalmente posseiras, sem-terra, indígenas e quilombolas e estão presentes nas cinco regiões do Brasil, principalmente no Norte e no Nordeste, com destaque para o Pará, Maranhão, Rondônia, Pernambuco, Bahia e Amazonas. A revista AzMina, através de uma pesquisa realizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), catalogou o número de mulheres assassinadas por defenderem o meio ambiente, seus direitos, territórios e comunidade, totalizando 24 durante os anos de 2015 a 2021. De acordo com a mesma investigação, 40 sofreram tentativas de assassinato, 200 foram ameaçadas de morte e de 2011 até 2020, 37 estupros foram registrados. As ativistas arriscam suas vidas, lutando por um pedaço de terra para poderem existir, se alimentar, ter um futuro e manter a natureza viva.

No estado do Maranhão, mulheres quilombolas protegem a floresta de palmeiras. O povoado de Boa Esperança, zona rural de Penalva, é lar de 154 famílias que pleiteiam a regularização das terras há mais de 20 anos. Com a ausência do interesse governamental em resolver essas questões, casos como o da quilombola maranhense Maria José Rodrigues Correia, que foi morta por um trator de esteira enquanto quebrava cocos, semanas após um fazendeiro aparecer na região alegando ter comprado as terras, se torna mais um na pilha de crimes contra mulheres ambientalistas no Brasil. Para a sobrevivência dessas defensoras e para que elas se mantenham de pé pela floresta, se faz necessário a regulamentação desses territórios, dos processos e documentos que definam a quem pertence as terras. No entanto, o atual presidente Jair Bolsonaro, deixou claro que durante seu governo nenhum centímetro de terra indígena seria demarcado, chegando até a comemorar por não ter o feito durante sua gestão.

“No campo e na floresta, o desmonte que o estado provoca nos deixa ainda mais vulneráveis”, disse Claudelice dos Santos em entrevista para a CNN. Claudelice, 40 anos, que teve seu irmão José Cláudio Ribeiro e sua cunhada Maria do Espírito Santo ambos, ambientalistas, assassinados no Pará em 2011, lamenta o fato de que quem luta pela floresta não tem a proteção e apoio necessários para continuar em defesa da causa. Em entrevista ela ainda fala sobre a morte do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo que foram brutalmente assassinados em junho de 2022, lembrando a cada momento da dificuldade e medo que sua família enfrenta até os dias atuais.

Diversos crimes como os citados acima acontecem em território brasileiro onde cerca de 58,93% é considerado Amazônia Legal. Contudo existem nomes grandiosos que não podem ser esquecidos, que servem de exemplo e motivação para a luta a favor do meio ambiente. Como o caso do seringueiro, Chico Mendes, nascido em Xapuri, Acre, que ganhou notoriedade internacional ao liderar encontros, iniciar a primeira proposta de reforma agrária, sofrer diversas ameaças de ruralistas e latifundiários e mobilizar a imprensa brasileira em prol da causa. Foi assassinado em 1988, no auge dos seus 44 anos, ato de extrema covardia cometido na presença de sua esposa e filhos. Chico Mendes, que deu origem a várias iniciativas não governamentais, ainda é considerado símbolo de resistência para os ambientalistas.

Apesar das dificuldades enfrentadas, do medo e das agressões, é venerável a resistência que acomete quem se mantém de pé pela floresta. Essas pessoas nunca param de lutar e comemorar cada pequena vitória, por menor que seja. Afinal, elas são pelo todo, tornando-se responsáveis por uma luta coletiva. É necessário reforçar que apesar de enfrentarem um governo contrário à preservação do meio ambiente e contra a demarcação das terras indígenas, ainda existem pequenas conquistas a serem comemoradas. Um exemplo é a eleição de 5 indígenas para a câmara dos deputados em 2022 que, embora seja um grande passo, ainda se mostra pouco frente à longa e cansativa caminhada para aqueles que se mantêm fortes na luta.

Alice Café e Manu Ribeiro
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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