Dragmentário: um lembrete de que a arte resiste
por: Victor Sá

Doug, cineasta e graduando do curso de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Foto: Doug
Douglas Oliveira Santos tem 25 anos, trabalha com mídias visuais digitais desde 2015 e é graduando do curso de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Doug, seu nome artístico, é conhecido por possuir em seu currículo um catálogo audiovisual admirável e que dialoga com todos os círculos sociais. A partir disso, convidamos o cineasta para falar sobre a obra documental Dragmentário, um projeto que apresenta o universo da arte drag queen na cidade de Vitória da Conquista, interior da Bahia. Ele fala sobre como surgiu a iniciativa de produzir o documentário, a mensagem que a obra pretende passar e por fim as suas reverberações na região que retrata.
EXTRA!Ordinário: Como surgiu a ideia de produzir o primeiro documentário sobre a cena drag queen em Vitória da Conquista?
Doug: A ideia surgiu primeiramente como um trabalho a ser desenvolvido para a matéria de Documentário [do curso de Cinema e Audiovisual da UESB]. E dois colegas vieram até mim com a proposta de ser o diretor desse projeto que buscaria retratar a arte Drag na cidade. A partir daí, começamos o processo de produção, fomos buscar as personagens e de que forma conseguiríamos abordar as temáticas.
EXTRA!Ordinário: O documentário é montado através de intertítulos que revelam ao telespectador diferentes áreas da vivência drag queen. Como vocês chegaram à conclusão de quais temáticas seriam discutidas no projeto?
Doug: Os meninos que me convidaram pra dirigir o documentário já assistiam Ru’Pauls Drag Race e por isso já tinham familiaridade com algumas temáticas da universo drag. No entanto, os intertítulos surgiram a partir das vivências em comum que as drags entrevistadas possuíam. A partir da conversa com as personagens ficou nítido que temas como a montação, a aceitação na cena cultural conquistense e a homofobia eram temas que atravessavam as histórias das três personagens.
EXTRA!Ordinário: Qual a mensagem que vocês buscam passar com o Dragmentário?
Doug: A nossa intenção desde o início do projeto era buscar naturalizar a arte drag e explicar de forma didática o que é essa arte. Pra isso, buscamos personagens da vida real, que vivenciassem esse modo de fazer arte. Por isso que, por muitas vezes, os entrevistados falam sobre os seus anseios, sobre o que esperam da arte drag, sobre os próximos passos que almejam para a sua carreira e também sobre a dificuldade de viver essa arte aqui em Vitória da Conquista. E buscamos retratar esse processo de naturalização na montagem do documentário, em que as cenas transitam dos entrevistados vestindo suas roupas habituais para os mesmos montados, cada um com sua respectiva drag.
EXTRA!Ordinário: Quais os desafios encontrados por você no processo de produção do documentário?
Doug: No que diz respeito aos entrevistados foi super tranquilo, até porque já eram pessoas do nosso convívio. Dessa forma ficou fácil pra nós da produção adentrar a intimidade de cada um deles. Fomos muito bem recebidos em suas casas e por suas famílias também. Então, essa parte das gravações foi de fato tranquila de se fazer. O mais complicado pra nós foi gravar as cenas nas quais o público pudesse ver as drags performando em alguma festa. Então ficou sob a nossa responsabilidade criar um espaço que fosse seguro para as drag queens e pro público LGBTQIA+ poderem se sentir à vontade e nós pudéssemos captar a essência do momento e dos espaços onde acontece a arte drag. Isso por si só foi muito trabalhoso, mas conseguimos criar a festa e aconteceu no extinto bar Manifesto. Através dessa festa, a nossa proposta era mostrar no documentário o que poderia vir a se tornar o movimento drag caso a cena cultural da cidade desse abertura para essa arte.
EXTRA!Ordinário: Ao seu ver, como foi a aceitação do documentário aqui em Vitória da Conquista?
Doug: Aqui em Conquista o documentário foi apresentado no CINEPET, evento realizado pelo PET-Engenharias do IFBA, e logo após a exibição nós participamos junto aos professores da Instituição de uma mesa cujo tema era a discussão de Gênero e Diversidade. Não chegamos a submetê-lo à Mostra de Cinema Conquista devido às questões burocráticas. E logo em seguida, viajei para apresentar o documentário em Belo Horizonte, à convite de uma turma de Design da UEMG que estava produzindo um catálogo LGBTQIA+ de filmes e documentários nacionais, e eles acabaram aprovando o Dragmentário para publicação no livro. Hoje, além da obra visual em si, o Dragmentário segue eternizado no catálogo de obras nacionais LGBTQIA+ da Universidade Estadual de Minas Gerais.
Doug pretende continuar no campo do audiovisual documental, contando histórias reais e abordando temáticas com teor político-social. Seu objetivo segue sendo o de ajudar a formar um coletivo social consciente e identitário. Em seu próximo documentário (que também é o seu TCC) o produtor pretende abordar os temas identidade, pertencimento e formação no âmbito racial, a partir dos relatos de mulheres negras.

