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Salve um sebo, salve a leitura no Brasil

por: Iasmin Araujo, Juliana Bastos e Thainá Oliveira

Raymundo Araújo, proprietário do sebo “O Livreiro” em Vitória da Conquista. Foto: Juliana Bastos

 

Sebos, em sua grande maioria, são espaços onde ocorre uma troca de conhecimento literário de maneira alternativa fora das livrarias. Além de proporcionar o encontro de coletâneas e livros antigos para gerações mais novas, os sebos também influenciam na questão econômica, visto que há uma superinflação de livros novos aqui no Brasil. Entretanto, com a ascensão da internet, sebos digitais foram criados e os sebos físicos perderam um pouco a credibilidade não apenas por conta destas plataformas online, como também por causa das outras grandes lojas que vendem tanto livros quanto outros tipos de entretenimento.

Segundo pesquisa dos Retratos da Leitura no Brasil com dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE,) de 2015 a 2019, os índices de leitura no país revelaram uma situação preocupante, visto que perderam cerca de 4,6 milhões de leitores, sendo em sua maioria adolescentes e jovens entre 14 e 24 anos que deixaram de ler ou se interessar pela prática nos últimos quatro anos. Esta falta de interesse pela leitura afeta não somente a comunicação e intelecto individual e social, mas também a economia do país. Uma vez que dados fornecidos pela ANL (Associação Nacional de Livrarias) revelou que em 2014, 3.095 livrarias estavam ativas no país, agora existem 2.200 em atividade. Isto significa que, em média, uma livraria encerra suas atividades a cada três dias. Seguindo esta linha de pensamento, entrevistamos Raymundo Araújo, proprietário do sebo “O Livreiro”, que comercializa livros além de CDs, DVDs e LPs situado no centro de Vitória da Conquista.

 

EXTRA!Ordinário: Há uma ideia de diversos cidadãos que procuram apenas por edições novas e de primeira mão de livros. Fazendo assim que não tenham interesse em trocar ou comprar livros usados. Tendo em vista estas dificuldades do mercado, o que te motivou a abrir um sebo físico?

Raymundo: Há 26 anos, eu trouxe uma filial de uma livraria aqui para Vitória da Conquista. Que, inclusive, encerraram suas atividades no ano passado. A minha motivação foi justamente pela falta deste tipo de comércio aqui na cidade. Quando garoto, eu frequentava muito o sebo de Salvador. Eu saía daqui, ia para Salvador comprar livros e trazer para cá. E aí eu e minha esposa decidimos abrir um sebo em virtude da demanda.

 

EXTRA!Ordinário: Como funciona esse sistema de trocas de livros?

Raymundo: Quando as pessoas vêm fazer esta troca, eu olho muito o que elas estão querendo levar. A minha postura é sempre procurar por livros que eu venda mais rápido, porque eu preciso fazer o capital na troca, para que eu possa adquirir mais livros. A troca de costume é o comprador trazer dois livros ou um livro e uma parte em dinheiro.

 

EXTRA!Ordinário: Em relação ao público, são pessoas mais jovens ou mais velhas, qual a faixa etária?

Raymundo: Por incrível que pareça, muita gente nova. Muitos jovens se interessam pelo vinil e pelo livro físico, mesmo tendo a opção do livro digital. Podemos dizer que 70% do nosso público migrou para o virtual. E é devido a esta migração ao meio online, que nós, proprietários de sebos, estamos passando por grandes dificuldades e receio de fecharmos nossos comércios.

 

EXTRA!Ordinário: Como é que vocês estão lidando com essa concorrência de vendas online, leituras digitais… Como vocês estão conseguindo se motivar para lidar e manter com o sebo físico?

Raymundo: O motivo é o amor pelos livros e pelas pessoas que gostam deles, assim como eu, que faz querer continuar. Até porque se eu fechar o sebo, terei que sair da cidade. Eu não tenho uma alternativa. Só não fechamos ainda como os outros, porque nós temos sede própria, pois eu não faria online.

 

EXTRA!Ordinário: Por serem diversos livros, existe algum tipo de controle específico para memorizar? Como funciona essa gestão?

Raymundo: Não. Na verdade, nós temos feito um investimento muito alto, que achamos que iria haver maior retorno. Deixamos para informatizar pós-reforma do espaço. Aí aconteceu o desgaste financeiro e a gente não conseguiu ainda fazer a estruturação dentro do equipamento tecnológico.

 

EXTRA!Ordinário: São 60 mil livros que vocês têm aqui. Tem algum que sempre chega cópias dele e vende “como água’’?

Raymundo: Tem coisas fantásticas que saem muito rápido. Vou citar aqui o exemplo de O Mundo de Sofia, de Jonstein Gaarder; 1984 e A Revolução dos Bichos do George Orwell Pequeno Príncipe, livros nacionais, como os de Luís Fernando Veríssimo; livros de coaching e área financeira; e livros das áreas de Ciências Sociais, História e Filosofia. A gente tem um público muito grande para esse material. Mas não tenho esse material com muita intensidade.

 

EXTRA!Ordinário: Já foi perguntado antes dos pré-requisitos para as trocas de livros, mas e a qualidade dos livros, como é feita essa leitura?

Raymundo: Isso importa muito. Tem alguns livros que vêm muito ruins fisicamente que a gente evita pegar porque, com certeza, um livro de aparência física ruim a gente vai ter dificuldade em vender. A não ser que esse livro seja por exemplo um João José Reis, José Reis, Jorge de Brito […], mas se for um livro muito comum, eu prefiro não pegar porque o meu cliente não vai querer.

 

É inegável a importância dos sebos literários na vida das pessoas, pois proporciona ao leitor um conhecimento amplo e diversificado sobre vários assuntos. Sebos e espaços alternativos de leitura vêm sofrendo com a perda de leitores não só por falta de interesse, mas também por conta da concorrência com a Internet. Esta entrevista tem como intuito não apenas a divulgação do espaço, como também uma maneira de motivar novamente o interesse das pessoas em troca de livros e outros serviços disponibilizados pelo sebo.
Endereço: Vitória Da Conquista – BA, Travessa Justino Gusmão, 05 – Centro, 45000-395, Brasil.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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