O cenário musical conquistense: problemáticas e desafios
por: Fabiana Alves, Francisco Schettini e Hânia Oliveira

Anna Lacerda e seu melhor amigo, o violão. Foto: Francisco Schettini
Você costuma ouvir artistas independentes? A arte está em nosso cotidiano em diferentes formas. E na música, como todo palco, precisa de plateia. Anna Lacerda, artista natural de Vitória da Conquista – BA, iniciou a sua carreira no cenário musical conquistense em dupla e, após um período, decidiu seguir sozinha no seu nicho musical. Agora, ela nos conta um pouquinho sobre os desafios do músico independente. Na entrevista, conheceremos um pouco mais sobre a sua carreira e suas experiências como cantora de MPB. Anna, 24, não consegue se manter financeiramente somente com a música. Ela concilia a arte e a atividade no ramo imobiliário para o seu sustento.
EXTRA!Ordinário: Anna, como se deu o início da sua carreira musical?
Anna Lacerda: Eu comecei na música, de verdade, muito nova. Sempre fui muito apaixonada por música. Me inspirei em alguns artistas. Comecei a correr atrás de aula de violão… e cada vez me encantando. Passei a fazer apresentações em escolas de Brumado, cidade em que eu morava e, depois, em saraus. Vim para Conquista e, em seguida, vieram as apresentações em barzinhos. Foi uma descoberta pessoal. Eu não me entendia profissionalmente, não sabia para onde ia. Mas, tive um estalo. Já tinha tentado duas, três faculdades, mas sem êxito. E aí eu falei: se for pra comer e conseguir ser feliz tocando em barzinho, eu vou ser… então, foi aí que eu comecei a fazer shows.
EXTRA!Ordinário: Quais são as suas referências na música?
Anna Lacerda: Desde muito nova, eu me inspirava em Justin Bieber. Era apaixonada. Posteriormente, quando eu comecei a dar aula de violão, me inspirei nas músicas que minha mãe ouvia: MPB, internacional…gosto muito de Cássia Eller, Djavan, enfim, tem uma galera que desde então eu me inspiro muito e ouço.
EXTRA!Ordinário: Como é cantar na noite conquistense?
Anna Lacerda: Esse ramo de música, de barzinho, é muito complicado. É um ramo que não valoriza o artista em si. Eles valorizam tá ali tocando, só não valorizam o que eu digo. Eles querem que tenha uma máquina ali tocando… qualquer coisa que pedirem, de qualquer estilo musical, como se tivesse um banco de dados ali. E outra dificuldade é a questão financeira. Eles não dão muito valor financeiramente aos artistas. Se aproveitam da variedade para oferecer valores baixos.
EXTRA!Ordinário: Ainda falando sobre essas dificuldades… como você lida, em contraponto a isso, para manter seu trabalho?
Anna Lacerda: Atualmente, estou voltando para o ramo imobiliário. É uma área que eu gosto e que voltaria independentemente, mas que vai me ajudar a conseguir me manter firme no ramo da música, porque, se eu não tiver outra renda, não consigo me manter na música. E “cê” vê que todos os artistas são assim: tem um trabalho por fora e também tem o trabalho com a música.
EXTRA!Ordinário: Durante quase dois anos os artistas passaram muitas dificuldades por conta da pandemia da Covid-19. Para você como foi durante esse período?
Anna Lacerda: Complicado, porque foi justamente no período que eu estava começando. Tinham poucos lugares abertos, havia restrição de horário e muitos artistas procurando onde tocar. Já têm muitos artistas em atuação nesse ramo hoje em dia. Anteriormente na pandemia, por ter mais lugares fechados ficou mais difícil para todo mundo. Os barzinhos se aproveitaram desse cenário no quesito financeiro.
EXTRA!Ordinário: O bar é um ambiente muito machista. Como você lida com isso?
Anna Lacerda: A gente não lida, porque não há muito o que fazer. Como artista, tendo a oportunidade, que não é fácil, de tocar em um estabelecimento, vou ter algum comportamento que contrapõe algum cliente ou funcionário machista? Se assim fizesse, eu não me encaixaria mais nesses estabelecimentos, entendeu? É mal visto para o artista. Não seria mais contratada. É ignorar essas atitudes e fazer o seu trabalho.
EXTRA!Ordinário: Há algum momento que te moldou como pessoa e como artista?
Anna Lacerda: Sim. O primeiro momento foi aquele de descoberta que referi anteriormente. E o segundo momento foi quando eu saí da dupla, e decidi fazer da minha área musical, o meu nicho.
EXTRA!Ordinário: Como foi para você sair da dupla e começar a caminhar sozinha?
Anna Lacerda: Eu sempre quis caminhar sozinha. Comecei porque gostava muito de tocar com ele. A dupla tinha uma energia bem bacana e era necessário por conta do cenário da cidade. Bem, eu falei anteriormente que, para tocar em Vitória da Conquista, precisa de uma bagagem musical, né? Eu tinha bagagem de MPB, de pop, rock e internacional, mas não tinha de tudo necessário para começar. A dupla acabou posteriormente. Eu estava morando sozinha e estava arcando com custos maiores. Então, de qualquer forma, não tinha mais como continuar com a dupla por uma necessidade pessoal e financeira. E então, cada um prosseguiu no seu rumo.
EXTRA!Ordinário: Tem algum artista Conquistense que tenha te inspirado e motivado?
Anna Lacerda: Eu nem sonhava em tocar em barzinho ainda e Herbert me mandou uma mensagem. Ele me motivou muito a começar, me colocou pra tocar em alguns lugares, abriu portas pra mim e me motiva até hoje. Um curte o trabalho do outro. Então a gente tem essa relação de união aí que é difícil aqui no cenário.
EXTRA!Ordinário: Seus familiares e amigos te apoiam na carreira musical?
Anna Lacerda: Sim. Inclusive, ao começar a cantar em bares, quem me incentivou foi minha noiva, ela falou: “vai que você consegue”. Se não fosse ela, não teria começado. Eu queria muito começar, mas eu não ia, tinha muito medo, sou tímida. Até hoje ela me motiva muito a continuar. E… família, em questão de pai e mãe, eles também me incentivam muito.
EXTRA!Ordinário: Para quem tem essa visão engessada e preconceituosa em relação aos artistas independentes. Você teria algum recado?
Anna Lacerda: Eu acho que… é interessante você pesquisar e conhecer outras áreas, outros estilos musicais, artistas novos, para ter uma maior visão de música. Porque a arte de cada um é muito individual. E tem uma galera muito boa. Dá pra descobrir e vale muito a pena.

